O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 11 de Março de 2018

A. A Cruz também reluz

 

  1. Afinal, a Cruz também reluz, a Cruz também é luz. Só essa luz ilumina, só essa luz elimina. Só essa luz ilumina os nossos olhos e elimina a nossa cegueira.

Na Cruz, está a luz do mundo (cf. Jo 8, 12), a luz para cada pessoa que está no mundo. Sem essa luz, todas as luzes cegam. Sem essa luz, todas as luzes iludem luz, sem dar luz.


  1. Na primeira encíclica que assinou, o Papa Francisco apresenta a fé como uma luz que brilha no meio da escuridão. É essa a luz que nos guia. É olhando para a Cruz que nos sentimos iluminados. A Cruz é a melhor nova na suprema prova. É a mais bela notícia que emerge na maior provação. É quando muito se apaga que muito se ilumina. É quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente (re)começa.

Esta é uma luz que deve resplandecer mais na nossa vida do que nos nossos olhos. Quem tem uma vida de verdade está na luz porque aquilo que faz vem de Deus (cf. Jo 3, 21). Pelo contrário, quem pratica más acções odeia a luz (cf. Jo 3, 20). Daí que o Baptismo, sacramento eminentemente pascal, seja um acontecimento iluminador, um acontecimento de iluminação.

 

B. Ser baptizado é ser iluminado

 

3. O banho baptismal nos começos também era chamado «iluminação». E, no processo da preparação para o Baptismo, a terceira etapa é chamada «etapa de purificação ou iluminação».

De facto, ser baptizado é ser «iluminado». Os baptizados são «iluminados» («photismoi») não por uma luz própria, mas pela luz de Cristo. Quando, depois da celebração do Baptismo, recaímos nas trevas, temos sempre novas oportunidades de nos reaproximar da luz. O Sacramento da Reconciliação devolve-nos a luz quando dela nos afastamos pelo pecado.


  1. É por tudo isto que a Quaresma é um tempo sério, mas não é um tempo triste. Como pode haver tristeza num tempo destes? É precisamente para nos lembrar a alegria da Quaresma que a liturgia deste Domingo tem uma tonalidade especial. Até é permitido usar o paramento cor-de-rosa. Aliás, houve uma altura em que este era conhecido como o «Domingo das Rosas», pois, na antiguidade, os cristãos costumavam oferecer rosas uns aos outros. Mais tarde, no século X surgiu o costume da «Bênção da Rosa».

O Santo Padre, no IV Domingo da Quaresma, ia à Basílica de Santa Cruz de Jerusalém, levando na mão esquerda uma rosa de ouro que significava a alegria pela proximidade da Páscoa. A antífona de entrada, que o Missal hoje propõe, reforça este sentimento sem lugar a dúvidas: «Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância das suas consolações» (Is 66, 10-11).


 

C. A oferta maior de um amor total


  1. Tal como sucede no Terceiro Domingo do Advento, o Quarto Domingo da Quaresma é conhecido como o «Domingo da Alegria». Neste caso, recebe o nome de «Domingo Laetare», imperativo do verbo latino «laetor» que significa «alegrar-se». Portanto, «laetare quer dizer «alegra-te». É Deus que faz este convite. Que cada um de nós se alegre, pois: não por causa de alguma fortuna, mas por saber que Deus nos visita. Haverá fortuna maior? Haverá sequer fortuna igual?

Que fortuna pode ser comparada ao amor de Deus e ao Deus amor? Jesus garante a Nicodemos que «Deus amou de tal modo o mundo que entregou o Seu Filho único, para que todo o homem que acredita n’Ele não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). Tocamos aqui o ápice da história da revelação, da história da salvação e, nessa medida, da história da humanidade. Segundo alguns peritos, esta passagem é a chave do inteiro Evangelho de São João. Ou seja, é nesta afirmação que entendemos tudo o que está escrito neste livro e, mais vastamente, em toda a Sagrada Escritura.


  1. O que está escrito neste livro é o que deve estar permanentemente inscrito na nossa vida. No fundo, é isto que importa anunciar, é isto o que todos devem saber: que Deus nos ama. Acresce que não ama de qualquer maneira. Em Deus, o amor não é uma palavra vã nem um sentimento vago. Se repararmos, nesta frase há uma fortíssima proximidade entre o verbo «amar» e o verbo «entregar». Isto significa que, ao contrário do que se pensa, «amar» não é sinónimo de «possuir», mas de «entregar». Para Deus, a vivência do amor não está na posse, mas na dádiva. Deus ama-nos de tal modo que nos dá o melhor que tem: o Seu Filho.

Esta, aliás, é a primeira vez que, no Evangelho de São João, aparece uma referência ao Filho. É que a entrega do Filho é a oferta maior, que só pode vir de um amor total. É preciso ser Deus para amar assim o homem. Tão abismado ficou São João que, na sua Primeira Carta, proclamou que «Deus é amor» (1Jo 4, 8.16). Repare-se. Deus não tem amor, Deus é amor. Nós, humanos, temos amor e também temos desamor, também temos ódio. Deus não. Deus é amor. François Varillon fez até questão de precisar que «Deus não é senão amor».


 

D. Nunca esqueçamos João 3, 16


  1. Nunca esqueçamos esta passagem: Jo 3, 16. Nunca esqueçamos que «Deus amou de tal modo o mundo que entregou o Seu Filho único, para que todo o homem que acredita n’Ele não se perca, mas tenha a vida eterna». Meditemos — e vivamos — esta passagem ao longo deste dia, ao longo desta semana, ao longo desta Quaresma, ao longo desta vida.

Tão diferente é Deus! Nós amamos e, por isso, ambicionamos possuir. Deus ama e, por isso, não se cansa de dar, de Se dar. Deus é um amor que dá, que Se doa, que perdoa. Tudo é perdoado por este amor. Nada há acima deste amor. Por conseguinte, não tenhamos medo de vir ao encontro deste amor. Amanhã já é tarde. O amor de Deus urge. O amor de Deus é urgente.


  1. Deus abastece-nos com doses intermináveis de «vitamina C», de «vitamina Cristo». Jesus Cristo é o amor de Deus feito presença. Nem a morte O faz recuar. Mesmo depois da morte, continua a dar-Se, a dar-Se-nos.

Deus não quer a condenação de ninguém. Ele «não enviou o Seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). O Seu amor é infinitamente maior que o nosso pecado. O Seu amor consegue apagar — e afogar — o nosso pecado. Deus é rico: não em riquezas, mas em misericórdia (cf. Ef 2, 4). Como refere São Paulo, é de graça que estamos salvos (cf. Ef 2, 5).


 

E. Não sigamos quem nos empurra para a maldade, mas quem nos atrai para a verdade


  1. Como imagem e semelhança de Deus, cada um de nós deve ser imagem e semelhança da Sua misericórdia. A misericórdia tem igualmente o nome de respeito. Não neguemos, pois, a misericórdia aos que estão no erro. Mas também não recusemos misericórdia aos que nos alertam para a verdade.

Dizem alguns mestres que, não raramente, perdoamos mais o mal que se faz do que o bem que se pratica. Pode parecer despropositado recordar isto, mas, por vezes, parece que somos mais receptivos a quem espalha a maldade do que a quem difunde a verdade. Nunca sigamos quem nos empurra para a maldade, mas quem nos atrai para a verdade.


  1. Precisamos de uma efectiva cultura do respeito não só para com alguns, mas para com todos. Se Jesus nos atrai para o Céu, com que legitimidade podemos transformar a vida de alguns irmãos nossos num inferno?

Aprendamos com Jesus. Com a explosão do Seu amor, demos uma oportunidade ao que de melhor está em nós. Deus semeou tanto bem na nossa vida. Não deixemos que esse bem fique lá num fundo tão fundo que ninguém consegue encontrar. Quando a mudança é para melhor, não tenhamos medo de mudar!

publicado por Theosfera às 05:32

De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
pesquisar
 
Março 2018
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9





Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
hora
Relogio com Javascript

blogs SAPO


Universidade de Aveiro