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Domingo, 12 de Maio de 2019

A. As «ovelhas» do Filho são «ovelhas» do Pai



  1. Sendo o Pai e o Filho «um só» (Jo 10 30), então o que é dito — e feito — pelo Filho é como se fosse dito — e feito — pelo Pai. Aliás, Jesus vai garantir, mais à frente, que «quem vê o Filho, vê o Pai» (Jo 14, 9). O rebanho entregue ao Filho é, pois, rebanho que pertence ao Pai. Nós somos o rebanho de Deus, as ovelhas de Deus. E Cristo é o nosso inteiro — e eterno — Pastor.

Eis como Jesus Se apresenta, hoje, diante de nós: como pastor. Tão bom, belo e ousado é este pastor que arrisca deixar as 99 ovelhas que estão no rebanho para ir à procura da que está perdida (cf. Lc 15, 1-7). As «ovelhas perdidas» não são menos amadas. Se calhar, até são mais amadas. É curioso que, segundo o designado «Evangelho de Tomé», Jesus terá dito: «O Reino é semelhante a um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas extraviou-se e era a maior de todas. Ele deixou, então, as 99 e foi em busca daquela ovelha única até a encontrar. E, depois de a encontrar, disse-lhe: “Eu amo-te mais do que às 99”».



  1. É por isso que Jesus é «o Bom Pastor» (Jo 10, 11. 14). Ou, para ser mais preciso, o «Belo Pastor», como está no original. «Agathós» é a palavra grega que, habitualmente, se traduz por «bom». Mas o que está no texto é «kalós», que quer dizer «belo», embora também signifique «bom», «perfeito» e «verdadeiro».

Aliás, como aprendemos desde a antiguidade, o bom, o belo e o verdadeiro interagem entre si. Pelo que o bom é belo e verdadeiro, o belo é bom e verdadeiro e o verdadeiro é bom e belo. A beleza está na bondade e na verdade. A bondade está na beleza e na verdade. E a verdade está na beleza e na bondade. Dizer, portanto, que Jesus é o Belo Pastor é o mesmo que dizer que Ele é o Bom Pastor e o Verdadeiro Pastor.


B. Cristo ferido é a beleza que salvará o mundo



  1. Jesus Cristo é a beleza que, no dizer de Dostoiévsky, «salvará o mundo». E não foi por caso que o genial escritor russo apontou Jesus Cristo como o modelo do que é absolutamente belo. A absoluta beleza de Cristo está na Sua paixão, isto é, na Sua entrega, na Sua dádiva. Em suma, a beleza está mais presente quando mais parece ausente. À primeira vista, que beleza pode haver num corpo ferido? Mas haverá beleza maior que a beleza de Cristo ferido por amor?

É por isso que, voltando a Dostoiévsky, «a humanidade pode viver sem ciência, pode viver sem pão, mas sem beleza não poderia viver nunca, porque não teríamos mais nada para fazer no mundo».


C. Precisamos de pastores que limpem as lágrimas



  1. Assim sendo, façamos deste mundo, como nos pediu Bento XVI, «um lugar de beleza». Não procuremos apenas paisagens belas ou quadros belos. Digamos coisas belas e façamos gestos belos.

Franz Kafka reconheceu que «quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece». Hoje em dia, fazem falta gestos belos, atitudes belas, comportamentos belos. É preciso dar mais valor ao porte do que à pose. Na vida, precisamos não só de uma filosofia, mas também — e bastante — de uma filocalia. O amor da sabedoria surge sempre irmanado ao amor pela beleza.



  1. Neste sentido, a Primeira Leitura afirma que, apesar das adversidades, muitos abraçaram a fé e a Palavra do Senhor ia-se divulgando (cf. Act 13, 48-49). Na Segunda Leitura, somos informados de que, em Cristo, pertencemos à numerosa multidão, que ninguém pode contar, tendo sido lavados pelo sangue do Cordeiro (cf. Ap 7, 9.14). Ele é o nosso Pastor; é Ele que enxuga todas as nossas lágrimas (cf. Ap 7, 17).

Não custa perceber, portanto, que este Domingo tenha sido escolhido para Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Toda a vida há-de ser acolhida como resposta a uma proposta. A proposta é para que haja pastores à imagem do Bom — e Belo — Pastor. A humanidade precisa de pastores que, como Jesus, limpem as lágrimas; que, como Jesus, acolham os que estão fora e não afastem os que estão dentro.


D. O pastor deve ser um mergulhador, não um alpinista



  1. Há muitos séculos, São Gregório Magno era bastante incisivo a este respeito: «Não sejamos sentinelas silenciosas, mas pastores solícitos que velam pelo rebanho de Cristo, pregando a doutrina de Deus ao grande e ao pequeno, ao rico e ao pobre».

Por aqui se vê como o pastor é mais que um gestor. Para ser testemunha no exterior tem de se deixar transformar no seu interior. Está aqui, aliás, a maior carência e, nessa medida também, a mais gritante urgência. Diz São Gregório: «É necessário que o pastor seja puro nos seus pensamentos, inatacável nas suas obras, discreto no silêncio, proveitoso nas palavras, compreensivo para com todos, que se entregue à contemplação, que seja companheiro dos bons de uma forma humilde, firme na justiça contra os vícios. Importa que a ocupação das coisas exteriores não diminua o cuidado com as interiores e que estas não o impeçam de ver as exteriores».



  1. É necessário, por isso, que as portas estejam abertas: não só as portas das igrejas, mas sobretudo as portas da alma. Ser pastor segundo o coração de Cristo não é ir apenas à frente. É também, como sugere o Papa Francisco, «estar disposto a caminhar no meio ou até atrás do rebanho». O pastor está à frente para conduzir, no meio para acompanhar e atrás para proteger.

A humildade não desclassifica o pastor. Pelo contrário, requalifica-o soberanamente. O pastor deve ser um mergulhador, não um alpinista. A sua preocupação deve ser mergulhar nas profundezas da existência e não «subir na vida, para ter mais poder».


E. O padre é pastor; não é patrão



  1. Na Igreja, o padre não está no centro. O padre não pode ser o protagonista. Ele é pastor, não é patrão.

O verbo que é chamado a conjugar não é o verbo «mandar», mas o verbo «servir». Os pastores não têm vida própria. Depõem a sua vida em casa. A vida das ovelhas passa a ser a vida dos pastores.



  1. A Igreja precisa de padres: de mais e — sobretudo — de santos. Peçamos ao Eterno Pastor a graça de termos pastores à Sua imagem: pastores que transmitam as Suas palavras e difundam os Seus gestos. Peçamos ao Eterno Pastor a graça do bom entendimento entre pastores e ovelhas. Que os pastores nunca faltem às ovelhas com a verdade e com o amor. E que as ovelhas nunca faltem aos pastores com a oração e a comunhão.

Se ninguém estiver longe de Cristo, estaremos todos, pastores e fiéis leigos, próximos uns dos outros. Quem segue a Cristo até ao fim, a todos dirá sempre «sim»!

 
publicado por Theosfera às 04:30

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