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Domingo, 20 de Novembro de 2016

A. Só Cristo pode usar o possessivo em relação à Igreja

  1. Nos últimos tempos, há muita gente a usar uma linguagem de posse em relação à Igreja. Não raramente, deparamos com expressões do género «a minha Igreja» ou «a Igreja do nosso tempo». Estas expressões têm a sua pertinência já que realçam dois aspectos muito importantes: pertença e presença. Com efeito, tais expressões fazem sobressair quer a pertença de cada um à Igreja, quer a presença da Igreja na vida de cada um.

Acontece que, ao mesmo tempo e talvez sem pensarmos muito nisso, acabamos por ofuscar o que está na base e na origem de tudo: a Igreja é de Cristo. Só Cristo tem direito de usar o possessivo em relação à Igreja. E, de facto, Ele usa-o. Na primeira vez em que a palavra «Igreja» aparece no Evangelho — em Mateus 16, 18 —, Cristo não hesita em falar da «Minha Igreja»: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja».

 

  1. São Paulo, sem esquecer que todos nós somos membros da Igreja (cf. 1Cor 12, 12; Rom 12, 5; Ef 5, 30), tem o cuidado de lembrar — e com muita ênfase — que só Cristo é a «cabeça» da Igreja. Fá-lo na Carta aos Efésios por três vezes (cf. Ef 1,23; 4,16; 5,23) e na Carta aos Colossenses por duas vezes (cf. Col 1,18; 2,19).

Daqui decorre que a Igreja não tem identidade. A identidade da Igreja não é própria, é derivada: vem-lhe de Cristo. Esta é, para nós, a verdadeira — mas, por vezes, tão esquecida — «hierarquia». Recorde-se que, segundo alguns, «hierarquia» significa não tanto «poder sagrado», mas sobretudo «princípio (“archê”) sagrado». Para a Igreja, o «princípio sagrado» é Cristo, a vida de Cristo, a mensagem de Cristo, o seguimento de Cristo.

 

B. Mundanizar o Cristianismo ou cristianizar o mundo?

 

3. Pertencer à Igreja significa pertencer a Cristo. Fazer parte da Igreja significa fazer parte de Cristo. Sacramentalmente, é o que acontece; mas, existencialmente, será o que se verifica? Desde o Baptismo, deixamos de ser nós para ser Cristo em nós (cf. Gál 2, 20). Mas será que se respira uma autêntica transparência na nossa existência?

Há quem diga — e com razão — que o segredo do êxito está na adaptação. Assim sendo, o segredo do êxito da Igreja está na sua contínua adaptação a Cristo. Não é Cristo que tem de Se adaptar a nós; nós é que temos de nos adaptar a Cristo. Não é Cristo que tem de ser como nós; nós é que temos de ser como Cristo.

 

  1. Aliás, é aqui que reside a nossa felicidade e a nossa salvação. Seremos felizes — e estaremos salvos — quando seguirmos Cristo, quando procurarmos ser como Cristo. É por isso que, quando se fala da necessidade de um Cristianismo moderno, devíamos falar também — e sobretudo — da urgência de uma modernidade cristã.

É aceitável que o Cristianismo tenha as marcas do nosso tempo. Mas a prioridade é que o nosso tempo tenha as marcas do Cristianismo. É preciso trazer o mundo até Cristo, mas é (absolutamente) decisivo levar Cristo até ao mundo. Nesta interacção, não é o mundo que há-de ser o critério para Cristo; Cristo é que há-de ser sempre o critério para o mundo. Donde o nosso propósito deve ser não «mundanizar» o Cristianismo, mas cristianizar o mundo. Não tornemos o Cristianismo mais mundano; tornemos, antes, o mundo mais cristão.

 

C. Mais necessário que mudar com o mundo é mudar o mundo

 

5. O habitual é aplaudir quem ao mundo se acomoda. Acontece que Cristo dá sinais de aprovar sobretudo quem com o mundo se incomoda. O mundo é o nosso lugar, mas não é a nossa lei. Jesus foi bem claro: os Seus discípulos estão no mundo, mas não são do mundo (cf. Jo 17, 16). Como entender então que os cristãos olhem para Cristo com os olhos do mundo em vez de olharem para o mundo com os olhos de Cristo?

O importante não devia ser mudar com o mundo, mas contribuir para mudar o mundo, que tanto precisa de ser mudado. Aliás, se o objectivo da Igreja fosse acomodar-se ao mundo, haveria ídolos, mas não haveria mártires. Os ídolos são aqueles que o mundo aplaude. Os mártires são aqueles que o mundo condena.

 

  1. Nós veneramos os mártires, mas, frequentemente, optamos por imitar os ídolos. Isto significa que admiramos os que resistiram ao mundo, mas, na prática, fazemos tudo para não sermos incomodados pelo mundo. Se a lógica dos mártires fosse a acomodação, não teriam sido mortos. Mas alguma vez seriam uma referência? Os mártires foram mortos por não se acomodarem ao mundo. E tornaram-se uma referência porque incomodara o mundo.

Daqui se segue que, se o mundo não está melhor, é talvez porque nós, cristãos, nem sempre temos estado bem. O mundo não melhora quando os cristãos se conformam. O mundo só acorda quando os cristãos despertam.

 

D. A realeza de Cristo e a realidade da Igreja

 

7. Despertemos, pois, para que outros possam acordar. E comecemos por perceber que a realidade da Igreja está, indelevelmente, marcada pela realeza de Cristo. Por conseguinte, é a realeza de Cristo que há-de orientar sempre a realidade da Igreja.

Hoje, solenidade de Cristo Rei, é dia de começarmos a perceber — se ainda não percebemos — que, como recorda São Paulo, foi Deus «que nos transferiu [há quem diga “transportou”] para o Reino de Seu Filho muito amado» (Col 1, 13). Ao fazer esta «transferência» — ou este «transporte» —, Deus quer que nos deixemos guiar sempre por Seu Filho, Jesus Cristo.

 

  1. É em Cristo, só em Cristo, que encontramos a redenção, o perdão dos pecados (cf. Col 1, 14). A realeza de Cristo — celebrada hoje para ser vivida sempre — está, portanto, no que Ele nos dá. Daí a natureza única deste reinado, que nós, porventura, ainda não compreendemos nem agradecemos.

Cristo não é um rei que tira; é um rei que dá. Parafraseando Bento XVI, diria que Cristo não tira nada; dá tudo. Trata-se, pois, de um rei incomparável. O Seu trono é a Cruz e o Seu território é toda a humanidade. É na Cruz que Cristo dá tudo. É na Cruz que Cristo Se dá por todos.

 

E. Não tentemos mudar Cristo;

deixemo-nos sempre mudar por Cristo

 

9. Deus criou tudo por Cristo e para Cristo (cf. Col 1, 16), Deus mantém tudo em Cristo (cf. Col 1, 17). Assim sendo, Cristo está antes de tudo, está em tudo e está depois de tudo: «nos céus e na terra, nos seres visíveis e invisíveis […], nos senhorios, nos principados e nas potestades» (Col 1, 16).

Só em Cristo encontramos «a plenitude de todos os bens» (Col 1, 19). Em tudo, «Ele tem o primeiro lugar» (Col 1, 18). Este primeiro lugar é um lugar de serviço, é um lugar de dádiva, é um lugar de entrega. É pelo sangue derramado na Cruz que Cristo faz a paz entre todos (cf. Col 1, 20).

 

  1. É por isso que Cristo é um rei universal e eterno, sem condicionantes de espaço e sem limites de tempo. Cristo é rei para todos, Cristo é rei para sempre. É pela Igreja, Seu Corpo, que Cristo continua a reinar, dando tudo, dando-Se a todos, dando sempre. É pena que, como há dois mil anos, haja quem faça troça do reinado de Cristo. Curiosamente, foi um condenado o primeiro a perceber — e a receber — o reinado de Cristo. «Lembra-Te de mim — suplica um dos crucificados com Cristo — quando vieres com a Tua realeza» (Lc 23, 42). A resposta não se fez esperar: «Hoje mesmo estarás coMigo no Paraíso» (Lc 23, 43).

No reino de Cristo, não há muros nem fronteiras. Não há exclusões nem empurrões. E até os que parecem estar fora podem ser os primeiros a entrar. Deixemos então que Cristo reine sobre nós. Não tentemos mudar Cristo, coisa aliás impossível. Deixemos que seja Cristo a mudar-nos. Deixemos que Cristo mude a nossa vida. Que Cristo seja rei. E que, para todos, o Seu amor seja Lei, a única Lei!

 

publicado por Theosfera às 05:44

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