O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 03 de Dezembro de 2017

A. Com o tempo que vem, Deus vem também

 

  1. Depois de um Ano Litúrgico, outro Ano Litúrgico. Há uma semana, assinalávamos, com a solenidade de Cristo Rei, o último Domingo do Ano Litúrgico. Hoje, Primeiro Domingo do Advento, damos início a um novo Ano Litúrgico. É o chamado Ano B, cujo evangelista dominante é São Marcos.

É assim na vida, é assim na fé: cada tempo gera tempo pelo que, atrás de tempo, tempo vem. E com o tempo que vem, o Deus do tempo vem também. Deus vem ao nosso tempo, Deus vem ao nosso mundo, Deus vem à nossa história, Deus vem à nossa vida. Em suma, Deus nunca deixa de vir.

 

  1. É por isso que o Advento não foi só no passado nem será só no futuro. O Advento também é no presente, o Advento é sempre presente. Deus veio (no passado), Deus virá (no futuro) e Deus vem (no presente e como presente em cada presente). Advento significa vinda e Deus está sempre a vir, pelo que estamos sempre em Advento. Trata-se do Advento mais imediato, embora talvez seja também o mais ignorado.

O Tempo do Advento desperta-nos para o contínuo Advento no Tempo. Liturgicamente, o Tempo do Advento tem uma dupla finalidade: preparar-nos para a solenidade do Natal (em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus) e dirigir-nos para a expectativa da última vinda de Cristo (no fim dos tempos). As duas primeiras semanas do Advento estão mais orientadas para a expectativa desta última vinda. E as outras duas estão mais centradas na celebração da primeira vinda. Estamos, então, a assinalar a primeira vinda do Senhor, que nunca deixa de estar próximo. E vamo-nos preparando para a última — e definitiva — vinda do Senhor, da qual já estivemos mais distantes.

 

B. Não evocamos episodicamente um ausente; celebramos continuamente uma presença

 

 

  1. Mas, no fundo, podemos falar de três Adventos: além da primeira e da última vinda de Jesus, temos a permanente vinda de Jesus. É, por assim dizer, o terceiro Advento. A esta luz, podemos dizer que nem só no Advento é Advento. Advento é vinda e Cristo está sempre a vir. Também podemos dizer nem só no Natal é Natal. Natal é nascimento e Cristo está sempre a (re)nascer em nós.

Que seja, pois, Advento para lá do Advento e que seja Natal para lá do Natal. Que seja sempre Advento e que seja sempre Natal. Mas, já agora, que seja Advento também no Advento e que possa ser Natal também no Natal.

 

  1. Nós não evocamos episodicamente um ausente; nós celebramos continuamente uma presença. E, hoje, Jesus não está menos vivo do que esteve há dois mil anos. Hoje, Jesus continua a estar vivo: na Palavra e no Pão, na oração e na missão. Hoje, Jesus continua a estar vivo em todo o ser humano especialmente nos pobres, nos humildes, nos mais pequenos (cf. Mt 25, 40).

Quando apareceu no mundo, Jesus surgiu como uma criança pequena e, quando cresceu, continuou a identificar-Se com os mais pequenos.

 

C. No Advento, percebemos que estamos sempre em Advento

 

  1. O nosso problema é que não estamos atentos. O nosso mal é que teimamos em permanecer distraídos. Já dizia Pedro Paixão que «pecado é distrair-se do fundamental».

Daí que o texto que acabamos de escutar nos previna quanto à importância da vigilância. É preciso vigiar para que à presença de Deus não corresponda a nossa ausência. Não estamos vigilantes para controlar ninguém, mas para acolher a presença de Alguém: de Alguém que virá, de Alguém que está sempre a vir.

 

  1. Eis, então, o nosso programa para o Advento: vigiar e estar atento. Não é por acaso que o Evangelho deste dia liga a atenção à vigilância. É de uma forma muito enfática que nos é feito o apelo: «Estai atentos», «vigiai» (Mc 13,33-37). Curiosamente, o verbo «vigiar» surge quatro vezes neste texto e a locução «estai atentos» aparece também por quatro vezes ao longo deste capítulo 13 do Evangelho de São Marcos.

Vigiar é estar atento: é estar atento ao essencial, ao verdadeiramente importante. Não nos prendamos, pois, às ambições, aos luxos, às riquezas, ao poder nem às ilusórias seguranças. É tudo isso que, muitas vezes, nos traz sonolentos e adormecidos. Jesus adverte-nos para que não nos deixemos adormecer (cf. Mc 13, 36), até Deus porque vem de surpresa. Aliás, Deus é «a» surpresa!

 

D. Deus gosta de nos surpreender

 

  1. Deus gosta de nos surpreender, de surpreender a nossa vida. É na nossa vida que ocorre a Sua vinda. Neste sentido, se é belo fazer presépios na nossa casa, é muito mais necessário fazer um permanente presépio na nossa vida. É na nossa vida que Deus quer renascer para nós. É na nossa vida que Deus quer que renasçamos para Ele.

Toda a nossa vida será, assim, Evento de Advento. Ou seja, a nossa vida será o Evento que acolhe o permanente Advento de Deus ao mundo.

 

  1. Neste sentido, não é difícil entender que o Advento tem de ser um tempo de recolhimento, como é próprio num tempo de preparação, de expectativa. A expressão plena da alegria deve ser reservada para o Natal. Liturgicamente, o Tempo de Natal começa com a Vigília do Natal, na tarde do dia 24 de Dezembro. Até lá, não devemos obviamente andar tristes, mas é bom que sejamos sóbrios e moderados. Na própria igreja, os instrumentos musicais e os ornamentos de flores devem ser moderados a fim de reservar a plena expressão da alegria para o Natal.

Tal moderação sinaliza, igualmente, um convite à oração. Orar há-de ser a maior prioridade do Advento. De facto, orar é a atitude de quem espera, de quem acolhe. Quando nos dispomos a ir ao encontro de Deus, facilmente percebemos que é Deus quem vem ao nosso encontro. À medida que formos caminhando na oração, daremos conta de que não estamos só diante de Deus e que Deus não está só diante de nós. Deus está dentro de nós e nós estamos dentro de Deus.

 

E. Não façamos do Natal um mini-Carnaval

 

  1. O Advento é também — e bastante — um tempo favorável à conversão. Assim sendo, aproveitemos este tempo para a reconciliação sacramental, para o sacramento da Confissão. No fundo, trata-se de preparar a nossa casa para que ela possa ser casa para Deus e casa para os outros. Em Jesus, Deus converte-Se a nós. Porque não, no mesmo Jesus, convertermo-nos a Deus?

Já agora, não esqueçamos que o Advento, apesar de não ser propriamente um tempo penitencial (como é a Quaresma), pode — e deve — ser vivido penitencialmente. Ou seja, no Advento pode — e deve — haver lugar para o Sacramento da Penitência e para outras práticas penitenciais. Já houve uma época em que o Advento era um tempo de jejum e abstinência. Durava seis semanas começando pelo São Martinho. Daí que o Advento também fosse conhecido como a «Quaresma de São Martinho». Actualmente, embora não haja dias de jejum, o Advento deve ser marcado por uma certa contenção no comer, no beber, no divertir e no gastar.

 

  1. Não façamos do Natal um mini-Carnaval. Não esqueçamos que é a simplicidade que melhor combina com a humildade de Belém. Não é com ostentação que dignificamos a celebração do nascimento de Jesus. Procuremos partilhar com quem não tem que gastar. E não deixemos de repartir com quem não tem com que se cobrir. Demos algum tempo e abramos o coração a quem (sobretudo nesta altura) vive na solidão. Nunca esqueçamos que o melhor presente é o presente da presença. O próprio Jesus é o melhor presente que Deus ofereceu à humanidade. E é o mais belo presente que a humanidade pode oferecer a Deus.

É na Eucaristia que Jesus vem até nós hoje. É na Eucaristia que Jesus renasce para nós sempre. O altar é o grande presépio. A divina consoada já está preparada. Não recusemos o convite de Jesus. Ele está sempre à nossa espera!

publicado por Theosfera às 05:12

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