O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 30 de Novembro de 2014

A. Com o tempo que vem, Deus vem também

  1. Depois de um Ano Litúrgico, outro Ano Litúrgico. Como sucede com o ano civil, também o Ano Litúrgico tem princípio e fim. Há uma semana, assinalávamos, com a solenidade de Cristo Rei, o último Domingo do Ano Litúrgico. Hoje, Primeiro Domingo do Advento, damos início a um novo Ano Litúrgico. É o chamado Ano B, cujo evangelista dominante é S. Marcos.

É assim na vida, é assim na fé: cada tempo gera tempo pelo que, atrás de tempo, tempo vem. E com o tempo que vem, o Deus do tempo também vem. Deus vem ao nosso mundo, Deus vem à nossa história, Deus vem à nossa vida. Em suma, Deus nunca deixa de vir. É por isso que o Advento não foi só no passado nem será só no futuro. O Advento também é presente, o Advento é sempre presente. Deus veio (no passado), Deus virá (no futuro) e Deus vem (no presente e como presente em cada presente)!

 

  1. Advento é vinda e, nessa medida, preparação para a vinda. Se Deus está sempre a vir, então estamos sempre em Advento. Trata-se do Advento mais imediato embora talvez seja também — e para nosso pesar — o mais ignorado. Preparamo-nos, entretanto, para celebrar o primeiro Advento, que nunca deixa de estar próximo, e vamo-nos preparando para o último — e definitivo — Advento, do qual já estivemos mais distantes.

Em síntese, podemos falar de três Adventos: o primeiro foi o nascimento de Jesus há dois mil anos; o último será a segunda vinda de Jesus, no fim dos tempos; e o terceiro é aquele que está sempre a acontecer.

 

B. Não celebramos episodicamente um ausente;

celebramos continuamente uma presença

 

Assim sendo, nem só no Advento é Advento. Advento é vinda e Deus está sempre a vir até nós. Do mesmo modo, nem só no Natal é Natal. Natal é nascimento e Deus está sempre a (re)nascer em nós. Que seja, pois, Advento para lá do Advento e que seja Natal para lá do Natal. Que seja sempre Advento e que seja sempre Natal. Mas, já agora, que seja Advento também no Advento e que possa ser Natal também no Natal. Vamos procurar encontrar o Advento neste Advento e vamos procurar reencontrar o Natal neste Natal. Para que nunca deixe de ser Advento e para que possa ser sempre Natal.

É que nós não evocamos episodicamente um ausente; nós celebramos continuamente uma presença. E, hoje, Jesus não está menos vivo do que esteve há dois mil anos. Hoje, Jesus continua a estar vivo na Sua Igreja: na Palavra e no Pão, na oração e na missão. Hoje, Jesus continua a estar vivo em todo o ser humano especialmente nos pobres, nos humildes, nos mais pequenos (cf. Mt 25, 40). Quando apareceu no mundo, Jesus surgiu como uma criança pequena e, quando cresceu, continuou a identificar-Se com os mais pequenos. É esta a lição do presépio, é este o ensinamento perene do Evangelho: Deus revela-Se na humildade, Deus visita-nos na simplicidade.

 

  1. O nosso problema é que não estamos atentos. O nosso mal é que teimamos em permanecer distraídos. Já dizia Pedro Paixão que «pecado é distrair-se do fundamental». Daí que o texto que acabamos de escutar nos fale da necessidade de vigiar. É preciso vigiar para que à presença de Deus não corresponda a nossa ausência.

Vigiar é a atitude de alguém que espera e prepara a chegada de Alguém. Não vigiamos para controlar os passos de ninguém, mas para seguir os caminhos de Alguém: de Alguém que vem, de Alguém que está sempre a vir. É por isso que a primeira — e decisiva — vigilância tem de ser exercida sobre nós mesmos. Porque somos nós que, tantas vezes, estamos desatentos aos sinais da vinda desse Alguém «em cada homem e em cada tempo».

 

C. A nossa missão para o Advento

 

5. É interessante notar como o Evangelho deste dia liga a atenção à vigilância. De uma forma muito enfática, ele dirige-nos o apelo: «estai atentos», «vigiai» (Mc 13,33-37). Curiosamente, o verbo «vigiar» surge quatro vezes neste texto e a locução «estai atentos» aparece também por quatro vezes ao longo deste capítulo 13 do Evangelho de S. Marcos. É preciso vigiar e estar atento até porque, como lembrava Sta. Teresa de Jesus, «tudo passa, só Deus basta». À medida que tudo vai passando, Deus sobressai como o único que basta, como o único que nos basta.

Não nos prendamos, pois, às ambições, aos luxos, às riquezas nem às seguranças. É tudo isso que, muitas vezes, nos traz adormecidos e sonolentos. Jesus adverte-nos para a necessidade de não nos deixarmos dormir (cf. Mc 13, 36). Deus vem de surpresa. O Advento, sendo um tempo de espera, tem de ser um tempo de espera vigilante.

 

  1. A nossa espera não pode ser inactiva, passiva, desmotivada ou desmobilizada. A nossa espera tem de ser activa, atenta e sempre vigilante. Esta espera vigilante ajuda-nos não apenas a preparar a celebração da primeira vinda de Jesus, mas auxilia-nos igualmente a preparar a sua última vinda e a Sua permanente vinda. É na nossa vida que ocorre a Sua vinda. O presépio, hoje, chama-se vida. É bonito confeccionar presépios no exterior. Mas é fundamental — e cada vez mais urgente — não deixar de construir presépios no interior. É no interior da nossa vida que Deus quer renascer para nós e que Deus quer que nós renasçamos para Ele. Depois, sim, o exterior será envolvido — e invadido — por esta aliança e por este casamento: entre o alto e o baixo, entre o céu e a terra, entre o tempo e a eternidade.

Toda a nossa vida deve ser advento, ou seja, espaço disponível para a vinda de Deus ao mundo. Sto. Inácio de Antioquia gostava de se apresentar como «teóforo», ou seja, como aquele que transportava Deus. Eis a nossa missão para o Advento: transportar Deus para o mundo, trazer Deus para a vida.

 

D. O melhor presente é o presente da presença

 

7. A esta luz, o Advento deve ser, antes de mais, um tempo de oração. A oração sinaliza o horizonte da nossa vida: encontrarmo-nos com Deus e encontrarmo-nos em Deus. Mas orar é também perceber que, afinal, é Deus quem toma a iniciativa.

Quando vamos ao encontro de Deus, facilmente percebemos que é Deus quem vem primeiro ao nosso encontro. Por conseguinte, a oração é sobretudo estar, olhar, contemplar, espantar, encantar. Aproveitemos este tempo para estar diante de Deus e para sentir que Deus está diante de nós. E à medida que formos caminhando na oração, daremos conta de que não estamos só diante de Deus e Deus não está só diante de nós. Deus está dentro de nós e nós estamos dentro de Deus.

 

  1. O Advento é também — e bastante — tempo de reconciliação. Aproveitemos este tempo para a reconciliação sacramental, para o sacramento da Confissão. No fundo, trata-se de preparar a nossa casa para que ela possa ser casa para Deus e casa para os outros com Deus. Não tenhamos medo de nos converter. Em Jesus, Deus converte-Se a nós. Porque não, no mesmo Jesus, convertermo-nos a Deus? Já agora, não esqueçamos que o Advento é, a seu modo, um tempo penitencial. Procuremos, pois, evitar excessos de gastos até por respeito a quem se desgasta por nada poder gastar. Evitemos excessos de comida, de bebida e de ruído. O Advento convida à sobriedade, à meditação e à partilha.

Neste espírito, compreendamos que o Advento é um tempo de encontro e, nessa medida, um tempo favorável aos reencontros após tantos desencontros. Não nos limitemos à troca de presentes, a qual muitas vezes não passa de um egoísmo partilhado. O melhor presente é sempre o presente da presença. Jesus é o melhor presente que Deus ofereceu à humanidade e é o melhor presente que a humanidade pode oferecer a Deus. Mas se tivermos de dar presentes, que os demos também que não no-los poderão dar: os pobres, os que não têm o essencial quando nós, apesar da crise, ainda vamos tendo para o supérfluo. E sobretudo procuremos dar o que menos se dá hoje em dia: demos tempo, demo-nos no tempo, demo-nos aos que estão ainda mais sós neste tempo.

 

E. Começa o Advento e já é Natal

 

9. Só hoje começa o Advento e já tudo lembra o Natal. O comércio foi tomando a dianteira. Mas é curioso anotar que os antigos diziam que, entre Deus e os homens, também existe um comércio, um «admirável comércio». Não se trata de um comércio comercial, mas de um comércio existencial. Não se troca produtos por dinheiro, mas permuta-se vida por vida, vida em vida.

Já nos primeiros séculos, Sto. Ireneu percebeu isto muito bem ao escrever: «O Filho de Deus fez-Se o que nós somos para que nós possamos ser o que Ele é». Deus está sempre a vir ao nosso encontro. Procuremos ir nós também ao encontro de Deus e, em Deus, não deixemos de ir ao encontro dos outros.

 

  1. E é assim que, em Advento, podemos já respirar o sublime perfume do Natal. No Advento já é Natal e no Natal continua a ser Advento. É Natal no Advento porque, também no Advento, Jesus (re)nasce em cada um de nós. E é Advento no Natal porque o Natal celebra a grande vinda de Jesus à nossa história, à nossa vida.

A Eucaristia é o permanente Advento e o eterno Natal. É na Eucaristia que Jesus vem até nós hoje. É na Eucaristia que Jesus renasce para nós sempre. O altar é o grande presépio. A divina consoada já está preparada. Não recusemos o convite de Jesus. Ele está sempre à nossa espera!

 

publicado por Theosfera às 13:48

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