Já que o nosso ser se mostra tão esvaziado de Deus, talvez seja mesmo necessário pedir à terra que faça germinar Aquele que nós teimamos em condenar ao esquecimento.
Se há ateus que no fundo são crentes que não se conhecem, é importante ter presente que também há crentes que no fundo são ateus que não se assumem. Se o ateísmo é sempre grave, o ateísmo dos que se proclamam crentes será o mais nocivo. Porque induz uma mentira. Porque inculca uma falsidade. E porque leva ao afastamento. Ao menos, o ateísmo dos não-crentes prima pela coerência…
Pensemos, antes de mais, no ateísmo verbal.
Quantos, na verdade, se dizem crentes, cristãos e até católicos e, não obstante, dificilmente lhes ouvimos a palavra Deus. A palavra Cristo. A palavra Evangelho. A palavra Igreja. A palavra Teologia. A palavra oração. O próprio «até amanhã, se Deus quiser» se vai diluindo na nossa linguagem quotidiana…
Muitos desempenham funções de responsabilidade nas comunidades. Alguns até são afamados pregadores e apreciados comentadores. Falam de política como os políticos. De economia como os economistas. Do ensino como os professores. De desporto como os desportistas. Quem os ouve, no entanto, a falar de Deus? Estranho, não acham?
Depois, temos o ateísmo referencial.
Um exemplo? O Natal, que se aproxima a passos largos. Há cada vez mais gente para quem o Natal é cada vez menos o nascimento de Jesus. É tudo quanto imaginar se possa: época mágica, dos presentes, da família, do frio, da neve, do Pai Natal. E o essencial? Quem vai à Paróquia celebrar o Natal? No aniversário de um amigo é suposto ir a casa dele dar-lhe os parabéns. Será que o Natal é um aniversário sem aniversariante?
Não escasseiam ainda sinais de um ateísmo temporal.
A cadência do tempo tende a guiar-se cada vez menos menos pelas menções ao divino. Quem reza pela manhã e pela noite? Ou antes dos trabalhos e das refeições? Quem vive o Domingo como Dia do Senhor?
Tenhamos também em conta o ateísmo afectivo. Quem se dispõe a ver a imagem de Deus esculpida nos outros, especialmente nos idosos, nos abandonados, nos doentes?
Não percamos de vista, por outro lado, o ateísmo político.
Quem, na hora de decidir e de votar, integra — como elementos de ponderação — a fé que professa? Não sucede, pelo contrário, haver muitos cristãos a optar por correntes e partidos com programas incompatíveis com o Evangelho? Não há cristãos a pactuar com o aborto, a pena de morte, a eutanásia e a injustiça?
Finalmente, e como corolário, encontramos todo um ateísmo existencial.
A palavra dos lábios vai dizendo que temos a nossa fé. Mas a palavra da vida — a única que conta — mostra outra coisa: um tão penosa quão devastadora marginalização de Deus.
Peço-te, por isso, irmão: define-te.
A tua vida dirá de que lado estás. E a quem queres pertencer.

