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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

1. Num mundo em que até os não crentes anelam pela espiritualidade, a Igreja é chamada a tornar-se, antes de mais, uma comunidade orante.

 

A Eucaristia é o cume da oração. Maria é o grande modelo do orante. Por isso, toda a oração tem de ser eucarística e mariana. Ao ser eucarística, já é mariana: Maria é, como no-lo recorda Hans Urs von Balthasar, o primeiro grande sacrário da História e posiciona-Se como o cálice do Verbo. 

 

Ao ser mariana, a oração já é eucarística: Maria, como nos lembra João Paulo II, é a «mulher eucarística». E, nessa medida, Ela surge, na linha do que escreveu Frei Amador Arrais, como a «Capela de Deus».

 

Daí que toda a criatividade, para ser fiel, tenha de apontar para estes dois grandes eixos: Jesus eucarístico e Maria eucarística.

 

São enormes as lições da História em matéria de oração. Aprender com os grandes não deslustra, só engrandece. O perene nunca deixa de ser actual.

 

Toda a vida eclesial, e designadamente toda a oração, será eucarística. A Eucaristia dá um horizonte de sentido a tudo o resto. Ela é para viver, para celebrar, para adorar e para contemplar. A própria oração do Terço do Rosário, tão cara à alma do povo simples, entronca-se neste registo.

 

Paulo VI afirmou na Marialis cultus: «Oração evangélica, centrada sobre o mistério da Encarnação redentora, o Rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica. Na verdade, o seu elemento mais característico, a repetição litânica do "Alegra-te, Maria", torna-se também ele, louvor incessante, a Cristo, objectivo último do anúncio do Anjo e da saudação da mãe do Baptista:Bo fruto do teu ventre" (Lc 1,42). Diremos mais ainda: a repetição da Ave-Maria constitui a urdidura sobre a qual se desenrola a contemplação dos mistérios; aquele Jesus que cada Ave-Maria relembra é o mesmo que a sucessão dos mistérios propõe, uma e outra vez, como Filho de Deus e da Virgem Santíssima; nascido numa gruta de Belém; apresentado pela mesma Mãe no Templo; um rapazinho ainda, a demonstrar-se cheio de zelo pelas coisas de seu Pai; depois, Redentor, agonizante no horto, flagelado e coroado de espinhos; a carregar a cruz e a morrer sobre o Calvário; por fim, ressuscitado da morte e elevado à glória do Pai, para efundir o dom do Espírito».

 

 

2. Importa, entretanto, não perder de vista que o Rosário não é a única oração mariana. Não é a única nem a principal. 

 

A principal oração mariana é a Eucaristia. O vínculo entre Maria e a Eucaristia encontra-se expressivamente tipificado na estrutura da celebração.

 

O Cânone Romano, por exemplo, insere um sentimento de veneração: «Em comunhão com toda a Igreja, veneramos a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo».

 

Já a segunda Oração Eucarística inclui uma súplica: «Dai-nos a graça de participar na vida eterna com a Virgem Maria, Mãe de Deus».

 

Como perguntava João Paulo II, «quem pode, melhor do que Maria, fazer-nos saborear a grandeza do mistério eucarístico?»

 

Fica, assim, realçada a marianidade da Eucaristia. Maria, como refere Stefano de Fiores, «é o ícone do estilo de quem vive realmente a Eucaristia». Mas, ao mesmo tempo, reluz a eucaristicidade da devoção mariana: «A devoção mariana não pode prescindir do centro, do dom por excelência que é a Eucaristia. Aliás, os santuários testemunham-no: a Missa é sempre o momento culminante de todas as peregrinações».

 

É que - recorda sabiamente Madre Teresa de Calcutá - «a primeira Eucaristia aconteceu no momento em que Deus deu o Seu Filho a Maria; e Maria foi não só o primeiro altar, mas também o único ser que pôde dizer com toda a sinceridade: "Isto é o meu corpo"». Na verdade, Maria ofecereu «o Seu corpo, a Sua força e todo o Seu ser para formar o Corpo de Deus. Nela habitou o poder do Espírito Santo e o Verbo Se fez carne».

 

Maria - assinala Edith Stein - desponta como «o símbolo mais perfeito da Igreja, porque é o seu protótipo e origem. Também é um órgão Seu, muitíssimo especial: o órgão do qual foi formado todo o Corpo místico e até a própria Cabeça».

 

Não espanta, pois, que o cardeal Nguyen van Thuan tenha assumido: «O momento em que sinto mais filho de Maria é na Santa Missa, quando pronuncio as palavras da consagração. Estou identificado com Jesus, in persona Christi». E acrescenta no mesmo registo: «Para mim, Maria é como um Evangelho vivo, de bolso, com grandíssima difusão, mais acessível que a vida dos santos».

 

É neste sentido que Jean Vanier recomenda: «Para contemplar o dom do Corpo deJesus, devemos contemplar Maria, a mulher que O concebeu e O pôs no mundo». Daí que, como observa Elias Zoghby, «quando recebo a Eucaristia, sejamos sempre três: Jesus, Maria e eu. O papel da Mãe é o de nos ensinar a ter nos nossos braços o Seu divino Filho, como Ela e com Ela, com uma ternura verdadeiramente materna».

 

Bem avisada está, por isso, Maria Constanza Zauli quando confidenciou: «Onde quer que se encontre uma hóstia consagrada, de maneira inexplicável, mas numa realidade de graça bem convincente para a alma, Maria está presente em atitudes de oração».

 

Por aqui se vê, como anotou Adrienne von Speyr, que «Maria não vive somente no Céu, mas continua a viver na Igreja, participando, de modo especial, no serviço litúrgico». A consagração corresponde à descida do Filho ao seio da Mãe: «Tal como a Mãe O acolhe para, depois, O dar imediatamente ao mundo, assim também o Senhor desce à Sua Igreja no acto da consagração para logo Se lhe dar como dom de Si mesmo na comunhão».

 

Maria «recebe com um abraço quem se aproxima da hóstia. Ela acolheu o Filho numa atitude de completa humildade e simplicidade; a quem recebe a hóstia dá algo da pureza do Seu acto de aceitação do Filho».

 

 

3. Acresce que a marianidade da Eucaristia não se esgota na Missa. Ela prolonga-se na Missão por ela gerada. Assim como Maria parte à pressa para casa de Isabel quando recebe Jesus no Seu seio (cf. Lc 1, 39), também o cristão - alerta Charles de Foucauld - «há-de fazer o bem com a solicitude e a dedicação da alma amante e do servo bom, que fazem com diligência e sem demoras o que deseja o seu amado, o seu Senhor».

 

A íntima conexão da Eucaristia com a Igreja - ínsita no célebre axioma «a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia» - remete-nos imediatamente para Maria. É que, enquanto Corpo de Cristo, a Igreja foi gerada em Maria. Nela, Bruno Forte vê esculpido «o ícone da paternidade divina».

 

Tendo em conta que a Mãe de Cristo é também a Mãe da Igreja, não admira que, ao actualizar sacramentalmente a entrega de Jesus Cristo na Cruz, a Igreja como que actualize igualmente a presença de Maria junto da mesma Cruz (cf. Jo 19, 25). De resto, como é que Aquela que esteve no Calvário não havia de estar na Eucaristia?

 

João Paulo II reparou que Maria «encarnou a lógica da Eucaristia em toda a Sua existência». Vendo em Maria o seu modelo, a Igreja «é chamada a imitá-La na Sua relação com este mistério santíssimo». Percebe-se, neste contexto, que o Sumo Pontífice tenha inserido, «entre os mistérios da luz, a instituição da Eucaristia».

 

É certo que o Evangelho não refere a presença de Maria na Última Ceia, mas «Ela não podia deixar de estar presente nas celebrações eucarísticas no meio dos fiéis da primeira geração cristã, que eram assíduos à "fracção do pão" (Act 2, 42)».

 

Maria é, por conseguinte, «a mulher eucarística na totalidade da Sua vida». Nela, com efeito, a celebração existencial precedeu e acompanhou sempre a celebração sacramental da Eucaristia, Na dádiva do Filho esteve continuamente a doação da Mãe!

 

João Paulo II asseverou que «Maria praticou a Sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o Seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus». Na anunciação, Maria «concebeu o Filho divino também na realidade física do corpo e do sangue, em certa medida antecipando n'Ela o que se realiza sacramentalmente em cada crente quando recebe, no sinal do pão e do vinho, o Corpo e o Sangue do Senhor».

 

 

4. A teor desta interacção simbiótica entre Maria e Cristo, depreende-se que «todas as vezes que repetimos o gesto de Cristo na Última Ceia dando cumprimento ao Seu mandato - "Fazei isto em memória de Mim" -, acolhemos o convite que Maria nos faz para obedecermos a Seu Filho sem hesitação: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2, 5)». É como se Ela nos dissesse em cada celebração: «Se Ele pôde mudar a água em vinho, também é capaz de fazer do pão e do vinho o Seu Corpo e Sangue, entregando aos crentes, neste mistério, o memorial vivo da Sua Páscoa e tornando-se assim "pão da vida"».

 

Maria «antecipa, no mistério da encarnação, a fé eucarística da Igreja. E, na visitação, quando leva no Seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo Ela serve de "sacrário" - o primeiro "sacrário" da história -, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, Se presta à adoração de Isabel, como que "irradiando" a Sua luz através dos olhos e da voz de Maria».

 

Desde o princípio, Ela «viveu uma espécie de "Eucaristia antecipada", dir-se-ia uma "comunhão espiritual" de desejo e oferta, que terá o seu cumprimento na união com o Filho durante a Paixão, e manifestar-se-á, depois, na Sua participação na celebração eucarística, presidida pelos Apóstolos como "memorial" da Paixão».

 

Viver o memorial da morte de Cristo na Eucaristia implica também levar connosco, a exemplo de João (cf. Jo 19, 26-27), «Aquela que sempre nos é dada como Mãe. Significa, ao mesmo tempo, assumir o compromisso de nos conformarmos com Cristo, entrando na escola da Mãe e aceitando a Sua companhia».

 

 

5. Em Maria, a Igreja apreende a centralidade da Eucaristia e reaprende incessantemente a projectá-la na vida.

 

A Eucaristia não é mero ritual. Ela é celebração e vivência. De certa maneira, a Missa não tem fim. Quando termina a Missa, começa a Missão. O «ide em paz» não é uma despedida; é um envio. O que se celebra no templo é para testemunhar no tempo. Da celebração sacramental passa-se, pois, à celebração existencial da Eucaristia. Se não nos dispomos a viver o que celebramos, que sentido terá celebrar o que não vivemos?

 

publicado por Theosfera às 00:29

De Maria da Paz a 12 de Novembro de 2011 às 00:35
Sublime, Rev.mo Senhor Doutor, esta lição magistral!
Muito bem-haja!
Muito bem-haja por esta cátedra gratuita, generosa, ungida pela humildade, pela sabedoria e pelo despojamento!
Muito bem-haja!
Afectuosamente,
Maria da Paz

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