O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

1. A verdade, ao contrário do que dizem, não é filha do tempo. Cada tempo só nos oferece parcelas, vislumbres, aproximações.

 

A verdade é filha da eternidade. Apenas nela podemos contemplá-la na sua totalidade e na sua profundeza.

 

Por enquanto, o nosso convívio com a verdade é feito de clareiras e de obscuridades, de dialécticas e tensões.

 

A verdade transcende sempre qualquer discurso acerca dela. Por cada verdade, não falta quem proponha uma verdade diferente.

 

Cada palavra é parcial e nem todas as palavras chegam para dizer a totalidade do real. Como observou Herman Hesse, «tudo o que pode ser dito com palavras é parcial».

 

Filha do tempo (e particularmente deste tempo) parece ser a suspeita. Assiste, por isso, razão a José Rodrigues dos Santos quando confessa nada haver de novo no seu mais recente livro: O último segredo.

 

A urdidura que percorre estas páginas já preencheu outras páginas. Existe fluidez no discurso e o leitor (identificado na inspectora policial Valentina Ferro) tenderá a ficar suspenso do talento argumentativo do narrador (figurado no investigador Tomás Noronha).

 

As semelhanças com O Código da Vinci, de Dan Brown, são notórias. O filão aparenta transportar uma via rápida (e uma garantia segura) para o êxito. Afinal, Jesus continua, dois mil anos depois, a despertar paixões e a suscitar curiosidade.

 

 

2. Apresentando-se a obra como um romance, seria de esperar, à partida, que estivéssemos diante de uma construção literária. 

 

Acontece que esta é uma construção que, no fundo, visa uma desconstrução: a desconstrução do Jesus que nos é apresentado pelos Evangelhos e transmitido pela catequese e pela teologia.

 

Numa nota final, o Autor dá conta, aliás, da sua opção, pondo em causa a afinidade entre Jesus e o Cristianismo.

 

As suas referências movem-se no âmbito da procura do Jesus da história, que se pretende separado do Cristo da fé. A atenção maior terá sido dispensada às teses difundidas por Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte (EUA).

 

O ponto de partida (e o permanente pano de fundo) é que a Igreja, sabendo a verdadeira identidade de Jesus, não está interessada em que ela seja conhecida: «Se Jesus voltasse à Terra, a Igreja declará-Lo-ia herege!».

 

O mais surpreendente, porém, não é esta fractura. Já Dostoiévsky, entre outros, aludiram a ela. O mais surpreendente, para muitos, será o horizonte dessa clivagem.

 

Para José Rodrigues dos Santos, Jesus não seria um reformador do Judaísmo, mas um judeu ultra-ortodoxo, ainda mais rigorista que os fariseus! Estes consideravam que «os gentios eram imundos. Por isso, Jesus nem Se misturava com eles! Na verdade, discriminava-os»!

 

De acordo com o Autor, as frases que revelam abertura a todos os povos e atestam compaixão e misericórdia não passarão de acrescentos posteriores.

 

Jesus estaria convencido da chegada iminente do Reino de Deus, tema muito caro da apocalíptica judaica. Ante a Sua morte, os discípulos reescreveram o Seu ensinamento, dando-lhe uma moldura mais universal.

 

 

 

3. A abordagem dos textos bíblicos não prima pela coerência. Por um lado, são descredibilizados, como sendo tardios, para demonstrar que não nos permitem ter um acesso fiável a Jesus. Por outro lado, são seleccionadas cirurgicamente algumas passagens para provar determinadas posições.

 

Acresce que, se o critério é a data, não se entende que dê maior crédito a textos que são ainda mais tardios que os do Novo Testamento. No entanto, o livro invoca vários apócrifos para falar, por exemplo, de Maria Madalena.

 

Se «os Evangelhos são reconstituições teologicamente orientadas», quem nos afiança que outras fontes não sejam ideologicamente tuteladas?

 

A ausência de originais de textos bíblicos não põe necessariamente em causa o essencial acerca da figura de Jesus.

 

Detectar oscilações entre os textos é um exercício legítimo de crítica literária. Já qualificar globalmente os Evangelhos como sendo «falsificações» é um julgamento sumário que, além do mais, está longe de ser consensual entre os investigadores.

 

 

4. O mais sintomático é que aquele que é visto como o ápice da Revelação esteja a ser submetido ao escrutínio do oculto. Quem nos garante que o sentido (pretensamente) escondido seja mais consistente que o sentido revelado?

 

Sucede que a hermenêutica da suspeita tende a esventrar a nossa predisposição para a confiança. Que os autores do Novo Testamento sejam pessoas de fé é uma coisa. Que, por tal motivo, sejam uns falsificadores deliberados da realidade histórica é outra coisa, completamente diferente.

 

Eis, pois, um livro que, estando longe de ser original, aposta, na linha de outros, na via provocationis (via da provocação). Questiona a verdade em que muitos crêem, sem nos dar certezas definitivas sobre uma alternativa.  

 

É uma ficção que, sibilinamente, pretende reconfigurar uma realidade. Convida à discussão. Mas nada prova. Cada um fica no que lhe parece.

 

Pode, entretanto, ter um efeito positivo: aproximar-nos ainda mais da (incomparável) figura de Jesus.

 

Hoje, como ontem e como sempre, Ele mantém-Se como um sinal de contradição (cf. Lc 2, 34)! 

 

    

 

publicado por Theosfera às 07:20

De António a 27 de Outubro de 2011 às 03:50
Algumas afirmações de José Rodrigues dos Santos apontam no sentido de que Jesus Cristo seria um fanático ultra-religioso e insensível. Essa posição do referido escritor visa afectar de forma irreparável a figura ímpar de Jesus de Nazaré. Tem natural direito à sua opinião. Mas esta vale apenas o que vale.

De Theosfera a 27 de Outubro de 2011 às 06:10
Tem toda a razão, bom Amigo. O que mais surpreende é que ele apresenta Jesus como um ultra-conservador judaico, ao contrário da maioria das visões que acerca d'Ele existem. É uma opinião. Não abala a fé nem a admiração por Jesus. Muita paz. Abraço amigo.

De António a 27 de Outubro de 2011 às 09:52
José Rodrigues dos Santos entrou,a meu ver, numa censurável deriva propagandística, mas em relação aos seus próprios livros, usando inteligentemente os meios de comunicação para promover a venda dos seus livros. A sua estratégia mercantilista é por demais evidente. Para alcançar esse desiderato, nada " melhor" do que apresentar uma tese " nova" e polemizante sobre Jesus de Nazaré. Daí a invenção de um Jesus ultra-conservador judaico. Mas isso é não ter a menor intenção do conteúdo dos próprios evangelhos, que apontam no sentido de uma caracterização de Jesus de Nazaré completamente oposta a essa ficção de ultra-conservadorismo.No entanto, penso que o debate sobre a pessoa de Cristo é importante. Rodrigues dos Santos retomou Saramago, agora na vertente do NT.Daí não vem mal nenhum ao mundo. Jesus de Nazaré resistiu a 2011 anos de História. Não será Santos quem O vai destruir.Abraço amigo.

De Theosfera a 27 de Outubro de 2011 às 10:13
Penso exactamente o mesmo. Marx, Freud e Nietzsche são «os mestres da suspeita», mas é hoje que não lhes faltam seguidores. O tempo é favorável. Depois, trata-se de uma opção. A escolha de muitos é pela credibilidade das fontes, com as devidas achegas vindas da ciência. Outros seguem apenas determinada crítica das referidas fontes. José Rodrigues dos Santos tem como pressuposto que os evangelhos são falsificações. Mas, mesmo aqui, introduz uma «nuance». O que eles mostram acerca do pretenso conservadorismo de Jesus é tido como credível. Já o que é apresentado como misericórdia, tolerância e abertura é apontado como acrescento tardio e efabulação. Se tudo isto contribuir para intensificar o debate em torno de Jesus, óptimo. A «via da provocação» tem o raro sortilégio de ser eficaz. Obrigado por tudo. Abraço amigo no Senhor Jesus.

De Evágrio Pôntico a 27 de Outubro de 2011 às 15:22
J.Rodrigues dos Santos, como profissional, é um sofrível "pivot" da tv pública, e esteve para ser despedido não há muito tempo…

Ultimamente, anda a dedicar-se à escrita "a metro", copiando temas e lançando ideias "novas", que já estão mais que repisadas por muitos… na esteira de uma moda que parece haver assentado arraiais no mundo ocidental...

Agora deu-lhe para se "meter" com Jesus Cristo, Deus humanado. Penso que o fez por qualquer das seguintes razões: tem zanga aos católicos, é espírito ressabiado, porventura será comunista e perfilha todas as teses diabólicas dos teóricos e expoentes do ateísmo; ou, então, aliado a tais motivações, serve-se da sua exposição de figura conhecida do público para investir na "galinha dos ovos de ouro", contando com a propensão que muita gente tem para acreditar e ir atrás do fantástico e do esotérico...

Este pseudo-escritor (será mais um escrevinhador…) revela um desconhecimento absoluto (atroz, mesmo), do(s) tema(s) que pretende tratar, julgando-se alguém capaz de desvendar mistérios e trazer algo de novo ao mundo das letras (e da religião?)…!

Acho que se tem dado demasiada importância a este sr., que não passa de um narcisista verdadeiramente ignorante…

De Theosfera a 27 de Outubro de 2011 às 15:26
Bom Amigo, confesso que também não aprecio a prolixidade deste escritor. No caso vertente, cerio tratar-se de um leitor de última hora de algumas investigações sobre Jesus. E, depois, fica a meio caminho entre a ficção e o ensaio. Se nos ajudar a crescer no conhecimento e no amor a Jesus Cristo, terá prestado, ainda que involuntariamente, um serviço à fé. Tudo segue o seu caminho. Muita paz no Senhor Jesus.

De Miguel Côrte-Real a 7 de Novembro de 2011 às 10:43
Caros Amigos,

Admirável tempo o nosso, sem dúvida! Pelo bom e pelo mau que nos dá. A verdade humana é assim mesmo. Reflexo simultaneo do ser e do não ser, do mal e do bem.
O que falta em tudo isto é um ingrediente básico que deveria estar sempre presente em qualquer vida humana minimamente atenta e observadora da realidade: a sã consciência da nossa sempre humilde e precária condição.
Este senhor jornalista, que até é reputado como bom profissional, escreve sobre tudo mas principalmente sobre o que desconhece. Um dia sonha ser célebre historiador, e eis que pare um conjunto de estultices sobre Cristóvão Colombo. Por isso vende que se farta. Outro dia dá-lhe para teologar, e eis que escrevinha um conjunto de banalidades. Vende mais e mais sem parar...
Queira Deus que na sua próxima aventura ele encarne a figura do bom missionário. E assim possa servir uma das muitas comunidades que (só para sobreviver) tanto necessitam das avultadas verbas que ele encaixou vendendo gato por lebre...

Rezemos para que por intercessão de Nossa Senhora, a sempre Virgem Maria, Jesus Cristo feito Deus ilumine o nosso caminho e nos desvie das trevas.

Miguel Côrte-Real

De Ivani Medina a 26 de Agosto de 2015 às 23:47
Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo eu já tinha uma ideia formada: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não gosta de indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não”, de Bart D. Ehrman, respondo a essas perguntas.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

De Anónimo a 27 de Agosto de 2015 às 23:26
Um escritor sério, não consegue escrever tanto, em tão pouco tempo, como faz José Rodrigues dos Santos, a não ser que se baseie em documentos apócrifos e fantasiosos. Ele não faz uma pesquisa honesta e aturada acerca do que escreve. Pelo pouco que li dele, e não gostei, fiquei com a sensação de que é pouco criterioso na escolha das suas fontes de informação. E se faz alguma pesquisa, que duvido, é muito superficial e leviana. Ele pretende, essencialmente, fazer da escrita uma actividade grandemente lucrativa e nada mais. Então ficciona e deturpa. Os seus livros têm muita ficção e deturpação da realidade dos factos. Esta é a minha modesta opinião .

De Alano de La Roche a 29 de Agosto de 2015 às 17:26
Concordo com todos os comentadores no que diz respeito ao "escritor" Rodrigues dos Santos.
Sempre o considerei, para além de vaidoso e convencido, um verdadeiro "bluff". Ponto final.

Nunca comprei um livro deste Sr. jornalista (que pensa que é muito engraçado ao piscar o olho, no fim do telejornal... em gesto ridículo, para não dizer patético...!), pois apercebi-me, desde logo, que o homem não passava de um mero oportunista que valia... zero!


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