O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
1. Com Maria a Igreja aprende não apenas a conhecer a realidade, mas, acima de tudo, a envolver-se na sua transformação. Essa transformação é preparada e realizada em chave libertadora.
 
A Igreja, à luz do seu modelo jesuânico e do seu paradigma mariano, nunca pode caucionar a opressão. Ela tem de ser uma força libertadora e um apoio à libertação.
 
Como sublinha Alejandro Martínez, o Magnificat é «um cântico de libertação». A Encarnação é um acontecimento libertador. Maria inclui, no âmbito da acção libertadora de Deus, não apenas os aspectos espirituais, mas também os sócio-políticos. A libertação é autenticamente integral.
 
Percebe-se, então, que o vocabulário ligado à liberdade (eleuthería) esteja profundamente entranhado na história bíblica. Se, por absurdo, amputássemos a Escritura da temática atinente à liberdade, arriscaria dizer que ficávamos privados de mais de metade do texto sagrado.
 
Já no Antigo Testamento, Deus é apresentado como libertador-redentor (goel), não hesitando mesmo em tomar partido pelos oprimidos e explorados. O povo de Israel tem consciência de que a libertação do Egipto foi mais dom de Deus que conquista sua (Ex 15).
 
Em pleno Novo Testamento, S. Paulo contrapõe enfaticamente a escravatura à liberdade não hesitando em proclamar (com recurso a uma linguagem intencionalmente redundante) que «foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gál 5, 1).
 
 Daí que se compreenda mal que tenha havido — e quiçá continue a haver — cristãos envolvidos na repressão, na violência e na supressão dos mais elementares direitos humanos. No fundo, mais um sinal do pecado que nos afecta e da conversão de que carecemos…
 
De facto, a ninguém como aos cristãos assiste o direito e (sobretudo) o dever de militar na causa da liberdade. Se assim não tem sido, não nos resta senão fazer um sincero mea culpa e uma decidida inflexão de rumo. Aliás, a existência demonstra à saciedade a falta que faz uma perspectiva cristã da liberdade.  
 
 
2. Haja em vista que a liberdade, entendida à luz da Bíblia, não se esgota na fruição. O seu conteúdo passa, acima de tudo, pela decisão de nos darmos inteiramente aos outros: «Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos» (Jo 15, 13). Por estranho que pareça, a soberana expressão da liberdade de Cristo é a Cruz, onde Ele Se oferece completamente pela humanidade.
 
A plenitude da liberdade é, pois, dádiva, entrega, doação. É a liberdade que se dá para (melhor) se reencontrar. É dar guarida ao «princípio da empatia»(Edith Stein). É sentir o outro como fazendo parte de nós. Caso para perguntar: que temos feito da liberdade? Como pedia Miguel Torga, «não deixemos sem argumentos a nossa esperança».
 
 Jesus descarregou-nos (cf. Mt 11, 28-30). Às vezes, na Igreja que se pretende de Jesus, sobrecarrega-se a vida das pessoas. Ele veio aliviar-nos de todas as cargas. Tudo condensou num mandamento: o amor. Impressiona, por isso, que, ao longo dos tempos, haja a tendência para multiplicar tantas cargas que, no limite, podem obscurecer a lei suprema: o amor.
 
Jesus quer as pessoas felizes na eternidade e no tempo. Basta, aliás, olhar para as Bem-Aventuranças.  Jesus disse que a Sua carga era leve. E, por vezes, impomos cargas tão pesadas. A própria lei (importante, sem dúvida) não era um absoluto. Diante do bem da pessoa, caía a lei para sobressair a pessoa. Curiosamente, Jesus, que Se sacrificou por nós, assumiu não querer os nossos sacrifícios. Ele quer, sim, a nossa misericórdia, a nossa compaixão, a nossa bondade (cf. Mt 9, 13).
 
Há, em tudo isto, um dado muito positivo. Temos tanto a aprender com o Mestre. Habitualmente, apelamos para a doutrina que achamos vir d'Ele. Mas o mais importante é a Sua conduta, as Suas atitudes, a Sua simplicidade, a Sua humildade, a Sua opção pelos pobres.
 
O que sempre marcou Jesus com os outros foi a largueza de horizontes. O que sempre demarcou Jesus em relação a outros foi a misericórdia, a tolerância, a compaixão. Ele não condenou quem pecava, franqueou as portas do paraíso a um ladrão e deu a comunhão a quem O entregou.
 
Severo foi apenas (mas de modo muito contundente) para com a hipocrisia, a duplicidade. Jesus foi assertivo na Sua mensagem. Mas nunca estigmatizou ninguém. O Seu coração rasgava-Se para todos. É fundamental que o coração da Igreja de Jesus seja magnânimo como foi o coração de Jesus. Deus não castiga. Deus não condena. Deus abraça. Deus festeja.
 
Deus não é um polícia a escrutinar os nossos erros. Deus é o Pai que Se alegra com o nosso bem. Deus é misericórdia. A maior festa não é quando se dá o encontro. É quando ocorre o reencontro após o desencontro.
 
Porque é que, ainda hoje, continua a prevalecer a linguagem do castigo sobre a cultura da bondade, da compaixão e do amor? A misericórdia está no coração de Deus e, por isso, no centro da mensagem de Seu Filho Jesus. Pertencer à Igreja só faz sentido a partir de um deliberado compromisso com a compaixão, o amor e o perdão.
 
3. A santidade de Deus não O torna distante. A Sua transcendência não contende com a Sua imanência. Como reconhecia Xavier Zubiri, Deus não é transcendente ao mundo, é transcendente no mundo. Por isso, Ele não Se desinteressa da vida do Seu povo. Pelo contrário, está no meio dele e oferece-lhe um suplemento de esperança e de ânimo. Crer em Deus santo - nota Alejandro Martínez - significa «crer em Deus transcendente e imanente, longínquo e próximo, que estimula a confiança das pessoas».
 
A Igreja acolhe de Maria a capacidade para perceber que Deus intervém na história para salvar, para libertar. Não estamos, pois, diante de um Deus a-pático, mas de um Deus supremamente sim-pático. É um Deus que sente o sofrimento do povo. É um Deus compassivo e, nessa medida, misericordioso. Ou seja e como decorre da etimologia, tem o Seu coração voltado para a miséria da humanidade.
 
É uma misericórdia inexaurível, que se estende de geração em geração (cf. Lc 1, 50). De resto, já no Antigo Testamento se sabia que «a graça do Senhor permanece para sempre» (Sal 103, 17). A chamada parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32) ilustra belamente a natureza divina. Deus acolhe não porque nós mereçamos, mas porque é Deus, isto é, bondoso, magnânimo.
 
 
4. A salvação não é reclamação humana. Ela tem origem no coração de Deus. O Seu amor jamais se afasta do povo, por muito que este recalcitre e se revolte (cf. Is 54, 10). Esta fidelidade ecoa no final do Magnificat: «Acolheu Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia» (Lc 1, 54).
 
Maria fala-nos de um Deus que nunca deixa de ser o que é: misericordioso, sensível ao sofrimento e à injustiça. A Igreja nunca pode transigir neste preceito. Se, nela, falta a misericórdia, mesmo que resplandeça em tudo o resto, falha no essencial.
 
Só através da misericórdia, ela será capaz de corresponder à sua natureza e à sua missão: constituir a transparência de Deus no mundo!

 

 

publicado por Theosfera às 22:36

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