O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

1. Confesso que despertou a minha atenção a perplexidade do poeta José Miguel Silva diante de uma certa iconografia: «Vês (nas igrejas) os santos vestidos como príncipes, quando toda a mensagem cristã defende o oposto».

 

Tem razão. Jesus foi pobre. Convida a um estilo de vida pautado pela pobreza e sobriedade. Muitas vezes, andamos empenhados em apontar a Sua doutrina. Esta é importante. Mas o decisivo é a Sua conduta. É viver como Ele viveu.

 

Para tal, não basta ser o eco das Suas palavras. É fundamental procurar ser a reprodução das Suas atitudes, dos Seus gestos. Daí que falar em nome de Jesus Cristo num ambiente de pompa crie uma profunda sensação de desconforto. A credibilidade fica, imediatamente, ferida.

 

 A este propósito, vem-me à lembrança a alusão que, entre o desapontamento e a ironia, faz Sören Kierkegaard ao bispo de Copenhaga.

 

Revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, avança o prelado pela catedral, com todo o seu séquito em esplendor. Senta-se, então, num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri! Se calhar, o melhor seria chorar. É que, sem a ressonância da vida, a palavra não passa de ornamento retórico.

 

 

2. Jesus foi pobre. Maria foi pobre. O Concílio Vaticano II afirma que Ela sobressai entre os pobres de Yahvé.

 

Formada na leitura orante dos livros do Antigo Testamento, Maria conhecia especialmente os Salmos, que surgiram no contexto dos pobres (anawin) de Yahvé.

 

Enquanto facto social e fenómeno presente no quotidiano de Israel, a pobreza era seguramente um tema de reflexão e meditação. Para uns, a pobreza é vista como castigo de Deus. Para outros, ela decorre da avareza dos ricos e da exploração dos poderosos. Os profetas denunciaram sempre esta pobreza como sendo não querida por Deus. Do mesmo modo, a riqueza que nasce da opressão dos outros não é por Deus desejada.

 

É neste contexto que Bento XVI explica que existe uma distinção entre uma pobreza evangélica e uma pobreza que Deus não deseja.

 

Em relação à primeira forma de pobreza, o Santo Padre atesta que Jesus, ao fazer-Se Homem, quis ser também pobre. «Eis a resposta: o amor por nós levou Jesus não somente a fazer-Se Homem, mas a fazer-Se Homem pobre». Contudo, «há uma pobreza, uma indigência, que Deus não quer e que é "combatida": uma pobreza que impede as pessoas e as famílias de viverem segundo a sua dignidade; uma pobreza que ofende a justiça e a igualdade e que, como tal, ameaça a convivência pacífica».

 

Uma coisa é, portanto, a pobreza como facto, outra coisa, bem diferente, é a pobreza como escolha. Trata-se, por assim dizer, da distinção entre a pobreza como condenação e a pobreza como opção. Os profetas procuraram espiritualizar a pobreza enquanto entrega confiante a Yahvé (cf. Sof 3, 12). Provavelmente, os judeus fiéis constituem aquele resto cuja vibração espiritual está contida em diversos Salmos.

 

Neste grupo, há um descentramento de si próprio e uma abertura total a Deus, sem qualquer resistência à Sua palavra. É um vazio com sabor a plenitude. Certifica-se, assim, a firmeza da sua fé. Como refere Alejandro Martínez, para esta gente, «vale mais a palavra de Yahvé que as luzes da própria razão ou o desmentido flagrante dos factos. Tudo é noite em seu redor, mas confiam no Deus que firmou aliança com seus pais. A fé que têm não é especulação, mas abandono, entrega e confiança sem limites».

 

Maria incorpora, no seu máximo grau, a fé como vazio de si mesma e entrega confiante a Deus. É, pois, uma pobreza iluminadora. Enquanto modelo da Igreja, «é a perfeita realização desta e, como primeira discípula de Cristo, caminha à frente de quantos fizeram do seu seguimento um lema de vida».

 

Em Maria, a Igreja verifica que «a fé só germina em corações pobres», em corações de criança. A fé faz que nunca deixemos de ser crianças. «Não há fé sem mistério e não há mistério sem obscuridade». Ela implica «um desprendimento da própria razão», o que, misteriosamente, contribui para obter uma racionalidade amadurecida. De facto, «silenciar o grito da razão e pôr-se de joelhos perante o mistério é uma atitude audaz e corajosa».

 

Esta pobreza não impede o reconhecimento do que Deus faz em cada um de nós. A humildade não é a anulação da pessoa, é o reconhecimento da verdade. «O verdadeiro crente há-de começar por reconhecer os dons que Deus lhe deu».

 

3. Para nós, cristãos, os pobres não são apenas destinatários da pastoral. Eles estão, desde logo e antes de mais, no centro da Igreja. Não fazemos parte somente de uma Igreja para os pobres, mas de uma Igreja de pobres e com os pobres.

 

Importa não esquecer que, como recorda Louis Châtellier, o Cristianismo é, verdadeiramente, uma «religião dos pobres». Pobre foi o seu fundador. Com efeito, Jesus, que nasceu num estábulo, não tinha, muitas vezes, «onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20). O Seu Evangelho — recorda o cardeal Schönborn — «foi feito sobretudo para os pequenos e para os pobres». E, no Seu código de felicidade, começou por declarar felizes os pobres que o são no seu íntimo (cf. Mt 5, 3).

 

Os pobres estiveram sempre entre os predilectos de Jesus. A Igreja, enquanto novo corpo de Cristo, era constituída, nos seus inícios, por pobres de facto (cf. Tgo 2, 5) ou por pessoas que se faziam voluntariamente pobres (cf. Act 4, 32-5, 11).

 

Joseph Ratzinger percebeu muito bem esta identificação de Deus com a pobreza quando escreveu: «A pobreza é a autêntica aparição divina da verdade». Jesus, na pauta que nos dá para o juízo final, assevera: «Tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos Meus irmãos, é a Mim que o fazeis» (Mt 25, 40).

 

Não admira, portanto, que S. Francisco tratasse a pobreza por senhora e Bossuet chamasse aos pobres senhores. A Igreja tem uma obra assistencial muito difundida. Não basta, porém, tal obra assistencial, por muito meritória que seja. É fundamental que, no espírito de Jesus, porfie, em todos os seus gestos, por uma opção preferencial pelos pobres. Essa opção levá-la-á a pugnar pela erradicação da injustiça que, arbitrariamente, atribui tudo a alguns e condena outros a pouco ou quase nada.

 

 

Erguer a voz é determinante. Tomar partido é decisivo, embora traga custos. É que o poder, que gosta de distribuir sobras, não admite ser interpelado. É missão da Igreja ser a voz dos sem voz, urgindo uma mais equânime repartição dos recursos. De facto, não há volta a dar: para que os pobres fiquem menos pobres é preciso que os ricos fiquem menos ricos.

 

Os preferidos de Jesus têm de ser os preferidos da Igreja de Jesus. Cristo era para todos, mas privilegiava a companhia dos pobres, dos simples e dos pequenos. Foi, aliás, em conformidade com este espírito que S. Gregório Magno revelou, no século VI, uma preocupação social que atingia o escrúpulo. Fazia questão de ter uma lista dos pobres de Roma, enviando-lhes alimento e outras provisões. Mas o mais tocante é, sem dúvida, saber que, todos os dias, doze pobres da cidade comiam à sua mesa, à mesa do Papa!

 

Um século mais tarde, um bispo de Alexandria espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada: «Quantos são aqui os meus senhores?» Como ninguém percebera o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino». Fizeram o apuramento. Havia 7500 pobres, que ficaram a receber, todos os dias, uma boa esmola!

 

 

4. Toda a razão tem, assim, S. Gregório: «Quanto mais se desce ao encontro das fragilidades dos pobres, mais se sobe ao cume das virtudes». Não esqueçamos jamais o pobre. É imperioso estar com ele para estar em Cristo. Se Ele nos enriqueceu com a Sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9), amemos o Senhor no Sacramento do Pobre (sacramentum Pauperis). Deus está vivo nos pobres, nos esquecidos, nos explorados, nas vítimas da injustiça.

 

É preciso descer as escadas. É urgente viver a vida das pessoas. É imperioso estar onde está Deus. E alguém pode negar que Deus (também) está na rua? Deus emerge dos escombros desta sociedade que clama por justiça. É aí que, como observou Fernando Urbina, podemos acolher «a grande voz silenciosa de Deus, esse rumor imenso de que fala S. João da Cruz». Muitas vezes, é preciso sujar as mãos para manter limpo o coração.

 

A Igreja tem de procurar ser espelho e jamais pode ser muro. Deus não está no mundo pela pompa. Deus vem pela simplicidade e pela pobreza. Uma Igreja pobre será (sempre) a maior riqueza que teremos para oferecer.

 

publicado por Theosfera às 16:14

De António a 13 de Outubro de 2011 às 19:08
Não há coincidências. Acabo de chegar a casa e o meu primeiro acto foi vir aqui ao seu maravilhoso blogue, estimado padre João António, para dar testemunho deste acontecimento: Há dias abeirou-se de mim uma jovem toxicodependente e pediu-me que lhe pagasse o almoço, pois estava com fome. Fiquei arrepiado com o seu pedido. A palavra " fome" teve em mim um efeito devastador. Depois de almoçar pediu-me se lhe pagava um quarto de uma pensão, asseverando-me que esse dinheiro não seria destinado para comprar droga. Que estava na rua há dois anos, depois de ter sido abandonada por toda a sua família, mãe e irmã incluídas. Que tinha os pés gretados, que gostava de dormir numa cama asseada e de tomar um banho. E que,se eu duvidasse da sua palavra, poderia ir com ela à referida pensão pagar directamente esse quarto. Tinha um encontro aprazado e, apesar da minha dúvida quanto ao destino do dinheiro, acabei por também lhe entregar esse dinheiro. Hoje, voltou a abeirar-se de mim.E disse-me: " vi que duvidou de mim, mas pode acreditar que aquele dinheiro foi mesmo para pagar o quarto da pensão. Nem imagina como me senti feliz por ter dormido numa cama limpa, de ter tomado banho e de ter podido ver televisão".Perguntei-lhe a idade, na casa dos 20 anos, e as razões que a levaram à vida marginal. Tem um ar doce e sofrido, modos deveras gentis e é muito bonita.Depois revelou-me muito contente que vai fazer o programa da metadona e ingressar na comunidade terapêutica de Emaús.
Que isso lhe causava muita alegria.Continuamos a percorrer a rua da cidade e, antes de me afastar, perguntei-lhe: " acreditas em Deus ?". Respondeu-me: " apesar de, às vezes, duvidar, acredito". Por último, olhou para mim com um especial brilho nos olhos, confidenciou-me: " sim, acredito em Jesus"...

De Theosfera a 13 de Outubro de 2011 às 20:38
Obrigado, bom Amigo, pelo seu maravilhoso testemunho, muito superior às palavras mais eloquentes. O sacramento do Pobre é o mais transparente. Nele resplandece Deus. Nele está Jesus. Tenho pena de que, às vezes, só na Igreja seja difícil perceber isso. Abraço amigo no Senhor Jesus.

De José Alencar a 14 de Outubro de 2011 às 07:14
Que estória comovedora.


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