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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

1. Ancorados no exemplo de Jesus, o Servo, e de Maria, a Serva, os primeiros membros da Igreja assumiram integralmente a sua identidade de servos. O serviço está no mais profundo do seu ser e na superfície dos seus actos.

 

Os que dirigem as comunidades cristãs fazem questão de se apresentarem sempre como servos. Paulo e Tiago (Tt 1, 1; Tgo 1, 1) é assim que se denonimam, tal como Paulo e Silas (Act 16, 17).

 

Esta condição de servo não contende, entretanto, com a liberdade. Quando mais se serve, maior é a sensação de liberdade. Por isso, surge também a expressão «servo livre» (Act 2, 18; 4, 25; Ap 2, 20). Sto. Agostinho assinala, por sua vez, que os cristãos são, ao mesmo tempo, «servos e libertos».

 

Por aqui se vê como o serviço é um requisito não secundário, mas essencial da constituição da Igreja; não marginal, mas central, não acidental, mas substancial. O Bispo de Hipona não hesita, pois, em proclamar enfaticamente que «servo de Deus é o Povo de Deus, é a Igreja de Deus».

 

Não admira, por conseguinte, que pastores e fiéis, consagrados e monges se designem a si mesmos como servos. Muitos bispos ilustres da Igreja antiga, como Sto. Agostinho, colocavam-se na missão como «servos dos servos de Deus». Desde S. Gregório Magno, foi assim que até os Papas começaram a ser definir-se a si próprios.

 

Quanto maior é a responsabilidade e mais alta é a missão, mais vincada é a consciência de que se é servidor. Trata-se, aliás, de uma ressonância epifânica do convite imperativo de Jesus: «Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos» (Mc 10, 43).

 

 

2. A Igreja dos começos era conhecida pelo serviço mútuo entre os seus membros (cf. Mc 10, 43-44), entre aqueles que devem lavar os pés uns aos outros como sinal de amor e estima (cf. Jo 13, 13).

 

O «vede como eles [os cristãos] se amam», de que fala Tertuliano, fez mais pela difusão credível do Evangelho do que muitos tratados e sermões. A vivência é mais eloquente que o conceito. Já no princípio, havia a percepção de que «o mundo ouve mais as testemunhas do que os mestres».

 

A centralidade do serviço afere-se inclusive pela denominação dos seus dirigentes. Eles são conhecidos como diáconos ou como ministros, designações que remetem imediatamente para a ideia de serviço. De resto, na raiz de ministro está minus, o menor, o mais pequeno. Sto. Agostinho vertia o desejo de que os pastores falassem «como ministros e não como mestres»!

 

Não se tratava de um ornamento retórico, mas de uma convicção profundamente arreigada. S. Paulo dá conta de que os cristãos tendiam a considerar os outros superiores a si mesmos (cf. Fil 2, 3). Desde logo, porque se sentiam seguidores daquele que se apresentara como «quem serve»(Lc 22, 27).

 

Como sintetiza Santos Sabugal, «o ministério eclesial é, essencialmente, um serviço ao Senhor glorificado que, através dele, continua a exercer a Sua presença salvífica em e para a Igreja». Toda a existência da Igreja pode ser descrita como uma diaconia prestada a Jesus Cristo.

 

Os membros da Igreja são convidados a consumar este ministério «servindo-se mutuamente com amor»(Gál 5, 13), apoiando-se uns aos outros. Trata-se de uma concretização do Mandamento Novo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei»(Jo 13, 14).

 

Uma vez que o amor é difusivo e sumamente abrangente, os cristãos são motivados para estenderem a todos os seres humanos aquilo que partilham entre si. Trata-se de um amor que não é selectivo nem limitado. É para todos e é para sempre. A evangelização nunca pode ser feita através da via impositiva, mas apenas (e sempre) pela via propositiva. Quem ama propõe, nunca impõe.

 

 

3. O amor leva à repartição dos bens e à luta pela justiça. A denúncia das injustiças faz parte do serviço da Igreja e do seu amor pela humanidade. Calar perante a injustiça é um pecado. A indiferença nunca é possibilidade a encarar ante o sofrimento e a opressão. Jesus e Maria ensinam a Igreja a não ser imparcial, mas a tomar partido: não por partidos, mas por pessoas, por causas, por projectos de mudança e renovação.

 

A doutrina e a acção social têm uma dimensão serviçal muito notória. O preço, muitas vezes, é a incompreensão e até a hostilidade. Mas a profecia acarreta, quase sempre, a oposição. O Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 1-7, 28) é um programa que está escrito em forma de texto para ser permanentemente reescrito em forma de vida.

 

Esta disponibilidade há-de ser alimentada por uma espiritualidade também ela serviçal. A primeira fonte do serviço é, sem dúvida, a escuta orante da Palavra de Deus. Também os sacramentos podem ser vistos como - diz Santos Sabugal - «sinais serviçais da graça comunicada pelo Espírito do Senhor».

 

Tudo isto faz com que a comunidade cristã prolongue a missão serviçal pré-anunciada por Jesus, o Servo, e corporizada belamente por Maria, a Serva.

 

 

4. Este serviço não está condicionado pelo resultado imediato. A sua fecundidade pode até passar pelo fracasso no curto prazo. A Igreja, enquanto serva, «deve aceitar o fracasso serviçal de "perder a própria vida" ou "morrer" para "dar a vida" ao mundo. Chegar à ressurreição implica passar pelo fracasso da Cruz. O Cristianismo é a religião do triunfo através do fracasso, do senhorio através do serviço».

 

Às vezes, o êxito imediato pode até ser um sintoma pouco estimulante. A dialéctica do Evangelho aponta para a morte como passo para a vida e defende o descer à terra como condição para dar fruto. Daí que Eberhard Jungel tenha notado que, cristologicamente falando, «quanto maiores são as dificuldades, maiores são também as possibilidades».

 

Por estranho que possa parecer, é pelas adversidades que se consegue realizar a missão.    

publicado por Theosfera às 00:12

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