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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

1. Não são de agora as dissonâncias entre Jesus Cristo e a Igreja. Quando esta se encontrava em gestação na missão de Jesus, já se notavam algumas clivagens. Estas centram-se especialmente em dois níveis: quanto à mensagem e quanto à estrutura.

 

O relato joanino da multiplicação dos pães apresenta-nos um desencontro entre Cristo e o Seu corpo, a Igreja, sinalizada nos Seus discípulos. Depois de ter saciado a fome à multidão, não faltava quem quisesse aclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Já quando explica o sentido profundo do milagre, muitos discípulos (que configuravam, por assim dizer, a Igreja emergente)contestam-No e abandonam-No (cf. Jo 6, 60-66). 

 

Não era, contudo, só a mensagem que não era percebida. A estrutura do grupo de Jesus também não estava a ser correctamente entendida. Jesus fala de serviço. Mas os Seus discípulos (pre)ocupam-se com o poder.

 

Jesus até tem o cuidado de apontar os pequenos como modelos. Todavia, os Seus discípulos entretêm-se a discutir sobre qual deles é o maior.

 

Sucede que este é um desencontro que nunca estará totalmente resolvido enquanto não incorporarmos a existência de Jesus de Nazaré na nossa vida.

 

Uma coisa não pode ser esquecida: Cristo é que é a cabeça da Igreja; não é a Igreja que é a cabeça de Cristo. 

 

A Igreja oferece-nos, sem dúvida, o critério para chegar até Jesus. Mas Jesus é que será sempre o definitivo critério para entendermos o que é a Igreja. É inevitável que cheguemos a Jesus a partir da Igreja. Mas é fundamental que saibamos olhar para a Igreja a partir de Jesus. 

 

 

2. Tendo em conta o modelo Jesus, a Igreja não tem poder para distribuir. Tem um projecto de amor para viver. Só que, em vinte séculos de história cristã, o amor tem sido uma proposta nem sempre acolhida e o poder aparece como uma tentação nem sempre rejeitada.

 

Também na Igreja, há a tentação de, ao arrepio do exemplo de Cristo, transformar o serviço em poder. É preciso reaprender, por isso, com Aquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20, 28).

 

É pelo serviço, e não pelo poder, que se afirma a missão da Igreja entre os homens. É algo que está, aliás, no seu código genético. O eclesiólogo Santos Sabugal invoca, neste sentido, o modelo fontal (Jesus) e o modelo paradigmático (Maria). Jesus é o que assume a condição de servo (cf. Fil 2, 7). Maria é a que Se apresenta como serva (cf. Lc 1, 38). A Igreja só pode ter, por isso, uma configuração totalmente serviçal.

 

Em Maria, a Igreja encontra um paradigma para toda a comunidade e para cada um dos seus membros. A Sua proximidade com Jesus faz com que d'Ela ecoe o mesmo que brotou de Seu Filho: a recusa do poder e a centralidade no serviço.

 

É poderosamente significativo que Maria Se conceba como «a serva do Senhor»(Lc 1, 38) e que bendiga a Deus por ter reparado na «humildade da Sua serva»(Lc 1, 48).

 

Estamos, pois, diante da autodesignação preferida de Maria, aquela que, de acordo com Santos Sabugal, «melhor caracteriza e sintetiza o Seu ser e a Sua missão».

 

 

3. Na Anunciação (cf. Lc 1, 26-38), Maria dá o Seu sim declarando-Se como serva e assegurando total disponibilidade: «Faça-se em Mim segundo a Tua palavra»(L 1, 38). O contraponto com Eva atinge a sua máxima expressão. Enquanto Eva recusa ser apenas mulher e pretende ser como Deus (cf. Gén 3, 5-7), Maria recusa ser somente «a mãe do Senhor»(Lc 1, 43), proclamando-Se Sua serva.

 

Com o Seu «faça-se em Mim», Maria torna-Se a Mãe do Filho de Deus, daquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20, 28). Ou seja, Ela participa «da condição serviçal do Seu Filho e, por isso, já previamente cheia do Espírito Santo, surge como a livre "co-serva" de Cristo, como também a humilde serva do Senhor».

 

É como serva que Maria Se apressa a visitar Isabel (cf. Lc 1, 39-40) e a prestar-lhe serviço. Não foi, portanto, uma mera visita de cortesia ou até de obediência ao anúncio da gravidez de Isabel (cf. Lc 1, 36). A visita de Maria «foi uma visita serviçal». Com ela permanece três meses (cf. Lc 1, 39.56), obsequiando-a com todos os cuidados. Foi, portanto, servir como doméstica. A Mãe do Senhor que Se faz servo começa cedo a exercer o Seu serviço e a antecipar o serviço de Seu Filho.

 

Em toda a missão de Jesus, aparece a intercessão serviçal de Sua Mãe. Basta olhar para as Bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-12). O ápice desta presença é a Cruz, onde «Maria Se associa activamente ao sacrifício redentor de Seu Filho, sendo também o instrumento serviçal pelo qual, na pessoa do "discípulo amado", Ele nos entregou a "Sua mãe" como nossa mãe e mãe da Igreja». Ou seja, desde o princípio até ao fim, «a serva do Senhor esteve associada serviçalmente ao messiânico Servo de Deus».

 

No dia de Pentecostes, Ela volta a ficar cheia do Espírito Santo na companhia de todos os fiéis. Também aí ela partiicipa na inauguração do eclesial «serviço da Palavra»(Act 6, 4), prestado pelos colaboradores de Deus e de Cristo na proclamação do Evangelho.

 

 

4. Deparamos, por conseguinte, em Maria com um paradigma serviçal para toda a Igreja. Como Ela, todos os Seus filhos são convidados a evangelizar com urgência, anunciando, com a palavra dos lábios e com a palavra da vida, a Boa Nova de Jesus.

 

A Igreja só existe para servir. Jacques Gaillot foi mesmo ao ponto de sustentar que «uma Igreja que não serve, não serve para nada». Como Jesus, que veio «para servir»(Mt 20, 28), também a Igreja, novo corpo de Cristo, está no mundo para servir. A sua multímoda missão condensa-se aqui: em servir, nunca em servir-se.

 

Compreende-se, portanto, que o Vaticano II use o verbo servir cerca de 20 vezes e o vocábulo serviço umas 34 vezes.

 

No passado, no presente e no futuro, a Igreja só tem uma finalidade: reproduzir o que Jesus fez. Aliás, foi esse o Seu apelo: «Como Eu fiz, fazei vós também»(Jo 13, 15). 

publicado por Theosfera às 16:18

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