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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

1. O crescimento económico foi o grande combate da nossa geração. O dinheiro funcionou como o cavalo de Tróia. Com ele, pensávamos ter removido todos os escolhos que se atravessavam no caminho.

 

Como Ulisses, achámos que era tempo de desfrutar. Só que o regresso a Ítaca também está a ser demorado. A austeridade é uma ferida difícil de cicatrizar. E, tal como Calipso, também hoje aparecem semeadores de ilusões que tentam desviar-nos do percurso.

 

Ulisses sabia, no entanto, para onde queria ir. Sabê-lo-emos nós? Sabê-lo-ão os que nos dirigem? Quem será o Polifemo que nos está a cegar?

 

Sempre confiei na ciência, no conhecimento. Mas creio que está a fazer muita falta uma sabedoria unificadora e sadiamente plural.

 

Será que a ortodoxia económica reinante é o melhor caminho? Mas porque é que impedem o afloramento de alternativas?

 

 

2. Ainda que, nas margens do pensamento único, vão emergindo alguns sinais alentadores.

 

Elena Lasida nasceu no Uruguai, vive em França e é professora de Economia em Paris.

 

Para ela, o importante não são melhoramentos. É fundamental introduzir uma mudança de fundo em todo o sistema.

 

Indo, desde logo, à etimologia de economia («gestão da casa»), apela para o pluralismo: «Haverá coisa mais subjectiva do que a gestão da casa?»

 

Não é a utilização da matemática que faz da economia uma ciência exacta, uma abstracção pura. A economia tem de ter em conta o meio, o ambiente, a situação. Ela não incide apenas sobre constantes. Ela trata, acima de tudo, de tantas variáveis.

 

É por isso que uma situação de crise pode ser importante se for possível ajustar não somente a realidade à economia, mas sobretudo a economia à realidade.

 

Elena Lasida entende que «a crise é sempre um momento em que somos confrontados com um problema de funcionamento dos sistemas e é justamente o momento de a questão se colocar para lá da sua reparação pontual».

 

Em tão poucos momentos, como este, terá sido tão pertinente a sábia anotação de Confúcio. Crise é um conceito que, em mandarim, é composto por dois ideogramas: um que significa perigo e outro que significa oportunidade.

 

Esta não é uma ocasião para introduzir mudanças no sistema, mas há-de ser vista como uma oportunidade para mudar de sistema. É que, «se ficarmos numa lógica unicamente reparadora, vamos limitar-nos a tapar buracos».

 

 

3. A actual situação pode ainda não ter mostrado qual é o caminho que serve. Mas já terá revelado qual é o caminho que, seguramente, não serve: precisamente aquele que temos vindo a seguir.

 

É notório «o desfasamento entre todo o sistema financeiro e a economia real». A prioridade, por isso, passa por «restabelecer a articulação entre a esfera financeira e a economia real». Para Elena Lasida, «é absolutamente indispensável uma maior ligação entre o sistema financeiro e o resto da economia».

 

A economia terá de ser repensada «não apenas com base na produção de riqueza, mas também como um lugar onde se constrói a vida em conjunto, a vida da sociedade».

 

De facto, o problema tem sido a sobreposição entre as finanças e a economia real e a subordinação da economia aos ditames das finanças. Estas raramente funcionam como estímulo e, frequentemente, pairam como ameaça, como freio.

 

O sistema financeiro não pode continuar desligado da economia real. Dois exemplos: muitas empresas priorizam não o investimento, mas a remuneração dos accionistas; nas bolsas, o critério é o aumento dos valores bolsistas e não a atenção à evolução da economia real.

 

Daí que seja necessário «controlar a especulação, criar maior relação entre o valor das acções e a economia real. É precisa uma maior relação entre o que o capital oferece e o que o trabalho oferece».

 

Outro aspecto importante é a aposta na denominada economia solidária. «Em vários bancos, há a possibilidade de escolher o sector em que se quer que se aplique o dinheiro, ou até escolher renunciar a parte do juro, para que esse juro possa ser investido em actividades de carácter social».

 

É claro que o impacto destas opções ainda é bastante limitado. «Mas, por exemplo, o respeito pelo ambiente e pelos direitos sociais são coisas cada vez mais exigidas no investimento».

 

Há que pensar não só na quantidade de produção, mas também na qualidade de vida. Esta não pode estribar unicamente «no rendimento ou no conforto material que se tem», embora isso tenha o seu lugar. Há que não descurar «todo o tecido relacional em que se está inscrito. Se temos trabalho, se vivemos num local onde se conhecem as outras pessoas, se estamos integrados na sociedade», existe relação.

 

Importante é, pois, certificar que, «com um modo de vida em que se partilha mais, em que há mais tempo para estar com os outros, em que a relação ocupa um lugar mais importante, pode-se viver melhor». No fundo, trata-se de perceber que «um outro modo de vida dá mais felicidade».

 

 

4. Uma coisa a experiência tem demonstrado. O rumo que temos seguido já provou que não resolve. É uma terapia que não erradica a doença.

 

Insistir no que tem vindo a ser feito desalenta e deprime. Que, ao menos, se diga o que vai ser conseguido com o fim da austeridade. E que não se bloqueiem dinamismos que ainda persistem.

 

Parafraseando o poeta, podemos não saber por onde devemos ir. Mas já sabemos que não é por aqui.

 

A austeridade tem de ser acompanha por incentivos à actividade, à produção, à partilha, à solidariedade.

 

O caminho que nos trouxe para a crise terá condições para nos fazer sair da crise?

publicado por Theosfera às 21:29

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