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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

1. Também na Igreja o verbo que cada vez mais se conjuga é o fazer.

 

No início de cada ano pastoral, a pergunta que, invariavelmente, se formula é: «Que vamos fazer?».

 

No decurso das várias etapas e nos balanços retrospectivos de fim de ano, a pergunta a que, inevitavelmente, se pretende responder é: «Como avaliar o que acabámos de fazer?».

 

A missão vai-se, assim, circunscrevendo a uma interminável sequência de realizações que, apesar de estimáveis, nos desgastam muito e preenchem pouco. E todos nos vemos, à força de participar em tantas actividades, a resvalar perigosamente para o activismo.

 

Uma insatisfação percorre os espíritos. Sentimos que a dimensão operativa de Marta é necessária, mas notamos que nos falta a dimensão contemplativa de Maria, sua irmã. Jesus não diz que Marta estava errada. Mas não deixou de afirmar que Maria escolheu a melhor parte (cf. Lc 10, 42).

 

O fazer é, pois, importante. O doutor da lei que interpela Jesus sobre o acesso à vida eterna sabe que ele passa pelo fazer: «Que hei-de fazer para possuir a vida eterna?»(Lc 10, 25). E, depois de contar a parábola do Bom Samaritano, Jesus também responde dentro do fazer: ««Faz tu também do mesmo modo»(Lc 10, 37). 

 

Como se compreende, não se trata de um fazer pelo fazer. Trata-se, sim, de um fazer completamente habitado pelo ser, neste caso, por um ser habitado pela bondade e pela compaixão.

 

Fazer pelo fazer não passa de obreirismo. Só um fazer inundado pelo ser é portador de uma mensagem, de uma proposta, de um projecto de vida. Daí a advertência de João Paulo II quando, na Novo Millennio Ineunte, ressalvava que o ser prevalece sobre o fazer. O fazer é chamado a ser uma epifania do ser.

 

Damos conta, hoje em dia, de que o nosso ser está desabitado, ferido e continuamente atordoado por uma espiral de coisas sem fim que temos de fazer.

 

A Igreja não é imune a esta propensão. Fazemos acções para as pessoas, mas estamos pouco com as pessoas.

 

Vamos ao encontro com assiduidade, mas não nos deixamos encontrar com frequência. Faz muita falta, na missão, o estar. Desde logo, porque, como alertava Xavier Zubiri, «estar é ser em sentido forte».

 

 

2. É certo que a desambientação das pessoas (fixam-se cada vez menos num único lugar) acarreta, quase automaticamente, a despersonalização dos ambientes (crescentemente mais frios). Mas isso só reforça a urgência de imitar Jesus, que, não descurando o contacto com as multidões, singularizava cada pessoa. Veja-se o caso de Nicodemos ou da Samaritana.

 

Actualmente, se é necessário ter disponibilidade para fazer, é preciso cada vez mais tempo para estar: para estar com as pessoas, para estar com cada pessoa.

 

Eis, pois, o desafio do presente e, simultaneamente, a lição das origens: partir da pessoa, centrar na pessoa, orientar para a pessoa. Isto não contende com a expressão comunitária da fé, já que a comunidade é a (comum) unidade entre os seus membros. Quanto mais na pessoa, mais na comunidade.

 

Não se trata apenas, nem principalmente, de um estar físico, quase passivo, meramente reactivo, como quem se limita a esperar que as coisas aconteçam e que as pessoas venham. Trata-se, sim, de um estar presencial, vivencial e testemunhal, próprio de quem não se desencontra do momento que vive nem desatende as situações que nele ocorrem.

 

O fazer, só por si, enche: a agenda, os dias, a vida. Mas apenas o estar preenche. Basta olhar, de resto, para Maria, aquela que está. Ela está quando Jesus realiza o primeiro dos Seus sinais, em Caná (cf. Jo 2, 1). E está junto à Cruz (cf. Jo 19, 25).

 

Curiosamente, o quarto Evangelho, nas duas únicas vezes que se refere a Maria, enquadra tais referências com o verbo estar, o que lhe confere uma reconhecida ênfase: «Houve um casamento em Caná da Galileia e a Mãe de Jesus estava presente»(Jo 2, 1); «Junto da cruz de Jesus estavam Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe...»(Jo 19, 25).

 

Nas duas situações, a mensagem deste estar é igualmente relevante: a profunda união com Jesus, desde o início da missão até aos confins da entrega. É este estar que revela o que se é. Quando se está unido a alguém, é porque o ser está totalmente vinculado a esse alguém. É porque a vida não faz sentido sem esse alguém.

 

Não é certamente anódina a menção do evangelista, no relato das Bodas de Caná, a Maria como «a Mãe de Jesus»(Jo 2, 1). A vinculação fica, desde logo, acentuada. Este estar de Maria com Jesus é também um estar com os noivos no apuro por que passaram ao faltar o vinho (cf. Jo 2, 3).

 

 

3. Uma Igreja de perfil mariano sabe que, ao estar em Jesus, está, imediatamente, com aqueles que se encontram em dificuldade, em provação.

 

Uma Igreja de perfil mariano não se queda pela analítica. Intervém em prol dos que precisam. Maria intercede pelos noivos. E fá-lo de uma maneira confiante. Faz-Se eco das necessidades dos homens junto de Jesus e torna-Se portadora da atitude de Jesus junto dos homens.

 

Como destaca Max Thurian, «no Seu acto de fé e na Sua oração, Maria apresenta-Se como a representante da humanidade em situação difícil. Ela é a figura da humanidade que espera a libertação».

 

Maria nem sequer precisa de uma resposta directa. Até a aparente admoestação de Jesus — «Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou»(Jo 2, 4) — funciona como estímulo para depreender que o pedido tinha sido atendido.

 

Uma Igreja de perfil mariano sabe que a única resposta perenemente válida é a mesma de sempre: «Fazei o que Ele [Jesus] vos disser»(Jo 2, 5).

 

A Igreja não aponta caminhos próprios nem transporta soluções inventadas. Ela é o eco da presença libertadora de Jesus. Ela sabe que Jesus conduz a história e que, na hora certa, faz emitir os Seus sinais.

 

Uma Igreja de perfil mariano não deixa de estar nas horas difíceis. Aliás, é sobretudo nas horas difíceis que ela está.

 

E se, nas Bodas de Caná, essa presença já se encontra assegurada, junto à Cruz torna-se irreversível.

 

Uma Igreja de perfil mariano existe especialmente para os momentos de aperto. Faz sua a cruz de todos os que sofrem, de quantos são injustiçados e oprimidos.

 

A sua voz é a ressonância do grito de todos os condenados. É na Cruz que Maria é dada como Mãe ao discípulo e, nele, a toda a Igreja e a toda a humanidade (cf. Jo 19, 27).

 

De acordo com Aristide Serra, «a Mãe de Jesus é a Mãe universal dos filhos dispersos de Deus, unificados na pessoa de Jesus, que Ela revestiu da nossa carne no Seu seio materno».

 

Uma Igreja de perfil mariano não foge nas horas de dor. Pelo contrário, é uma Igreja que está, de uma forma ainda mais envolvente, nesses instantes de suplício.

 

A palavra de uma Igreja de perfil mariano não é uma dissertação em nome próprio. Ela faz-se porta-voz de tantas ânsias reprimidas e tantos sonhos esmagados.

 

 

4. A Igreja não é representante de si mesma. Ela dá a sua voz. O silêncio de uma Igreja de perfil mariano é uma escuta solidária, de quem está.

 

Sob este padrão, importa conceber a pastoral não tanto em função do território, mas em função do ser humano. A pessoa é o campo, o terreno, a prioridade.

 

 Não propugno uma Igreja parada, na mera expectativa. Ao invés, porfio por uma Igreja atenta, activa e interveniente, que se faça eco de tantos silêncios impostos e que se torne voz de tantos anseios torturados.

 

Como diz Hans Urs von Balthasar, «a Igreja não pode apontar nunca para si mesma, nem administrar, nem dispor do princípio sobre o qual está fundamentada. Ela é o que é transcendendo-se a si mesma».

 

 Ela não pode ver-se como estrutura de poder, mas como povo de orantes e como comunidade de serviço.

 

Cabe-nos, por conseguinte, redescobrir uma espiritualidade que desemboque permanentemente na caridade. Tal é o preceito recordado por S. João: «Quem ama a Deus ame também a seu irmão (1Jo 4, 21).

 

Quanto mais voltada estiver a Igreja para fora de si mesma, mais identificada estará consigo mesma.

 

Foi este o procedimento do Fundador e perene Fundamento. Sendo a nova corporeidade de Cristo (daí que Johannes Möller lhe chame a «encarnação permanente»), a Igreja é chamada a reproduzir incessantemente o perfil de actuação de Jesus. Ele deu o exemplo: «Como Eu fiz, fazei vós também» (Jo 13, 15).

 

 

5. Na nossa época, praticamos muito o andar, o correr. É fundamental reaprender a estar, a acolher, a escutar. Nos tempos que correm, somos eco do que colhemos no andar. Importa ser,  sobretudo, ressonância do que recolhemos no estar.

publicado por Theosfera às 16:01

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