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Sábado, 17 de Setembro de 2011

1. De há uns tempos para cá, abundam os diagnósticos acerca da Igreja.

 

À força da sua recorrência,  os estudos começam a suscitar o mesmo efeito das questões estudadas: saturação.

 

É que, apesar dos diagnósticos, os problemas não só não são superados como até se alargam. 

 

O desencanto vai-se apoderando, assim, de muitos membros do Povo de Deus.

 

Nesta altura, mais análises estão a ser feitas e outras pesquisas estão a ser preparadas.

 

Os dados podem sofrer alguma variação, mas o registo permanece invariável. As pessoas vão-se afastando. A militância é cada vez mais ocasional. A linguagem continua a ser um ponto frágil. E alguns elementos doutrinais são crescentemente discutidos.

  

 

2. Qual será, então, o verdadeiro problema da Igreja?

 

Por estranho que pareça, o problema começa logo aqui. Começa quando a Igreja se volta para o seu problema.

 

Esse é, de facto, o núcleo do problema: debruçar-se sobre si.

 

Se alguma coisa a Igreja recebe de Jesus (e, a bem dizer, recebe tudo), é, desde logo, a identidade.

 

Como a Igreja - assim referiu Henri Schilier - é Cristo no Seu novo corpo, então é de Cristo que recolhe a sua natureza e a sua missão.

 

Neste sentido, salta à vista que o problema da Igreja (se quisermos inistir nesta expresão) é um problema de transparência. Ou, melhor, de falta de transparência.

 

Jesus Cristo, enquanto modelo fontal da Igreja (para Santos Sabugal, Maria é o seu modelo paradigmático), apresenta-Se como servo.

 

Ora, o servo é aquele que não tem existência própria. Tudo nele é derivado. Tudo nele é remetido.

 

Jesus constitui, como ninguém, a referência suprema do centramento...descentrado. O centro de Jesus não é Jesus. O Seu centro é Deus e o Homem.

 

Ele não é apenas totalmente Deus e totalmente Homem. Ele é também (e bastante) totalmente para Deus e totalmente para o Homem.

 

Quando a Igreja insiste muito nos aspectos institucionais acaba por ofuscar a sua dimensão constitutiva.

 

 

3. O Concílio Vaticano II teve o cuidado de advertir, ao falar da Igreja, que a luz dos povos não é ela, a Igreja. É Cristo.

 

O que há-de, pois, resplandecer na Igreja é o que transpareceu em Cristo: Deus e o Homem.

 

O importante não é o aparato organizativo. É o mistério. É a experiência de Deus.

 

Este dado de sempre desponta, entretanto, como uma prioridade para este início de século.

 

A um tempo que se pensava irremediavelmente «pós-teísta» sucede uma época que se perfila surpreendentemente como «pós-secularista».

 

Até um ateu como André Comte-Sponville assinala ser a espiritualidade o decisivo na nossa era. E um não crente como Albert Einstein tinha noção de que «a mais bela experiência que podemos fazer é a do misterioso».

 

Se foi a experiência do mistério que «deu origem à religião», como compreender que ela seja desvalorizada no interior da Igreja?

 

Karl Rahner percebeu que passava por aqui a sobrevivência do Cristianismo. Neste século XXI, o Cristianismo «será místico ou não será».

 

Ao mesmo tempo e porque Deus está voltado para o Homem (Jesus é, para nós, o Deus-Homem), a Igreja é chamada a envolver-se em tudo quanto é humano. Não apenas apoiando as vítimas da injustiça, mas questionando as causas da injustiça.

 

Trata-se, afinal, de uma reprodução da vivência primordial, da mística. O amor ao próximo configura aquilo que Johannes Baptist Metz chamava «misticismo de olhos abertos».

 

 

4. A Igreja tem, portanto, de se descentrar constantemente para se recentrar permanentemente: em Deus e no Homem.

 

Ela há-de constituir uma comunidade orante e, simultaneamente, uma comunidade fraterna.

 

Tem de ser uma Igreja «intro-vertida» e «extro-vertida»: voltada para Deus na oração e voltada para a Humanidade na acção.

 

Precisamos, com efeito, de uma Igreja que se ajoelhe (diante de Deus) e que caminhe (ao lado dos homens).

 

Para isso, não são necessários especiais recursos organizativos. Até é bom que eles sejam mínimos para não nos desviarem do essencial.

 

Às vezes, uma grande dispersão por legislações e textos consome energias requeridas para o fundamental.

 

 

5. Basta que nos detenhamos num discurso: o Sermão da Montanha. O programa de Jesus está aí.

 

Basta que nos mobilizemos em torno de um mandamento: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei».

 

Basta que não hesitemos acerca de quem é Deus. Jesus mostra tudo com a Sua vida. João resume tudo numa palavra: amor. Deus é amor.

 

É pela solidariedade, pela misericórdia e pela compaixão que a Igreja mostra o acolhimento do amor divino.

 

Jesus ofereceu-nos um Deus que não castiga nem condena. Obsequiou-nos com um Deus que ama entranhadamente o ser humano.

 

Deus só quer uma coisa: que o Homem seja feliz. Não apenas depois. Mas agora. Já.

 

Sebastião da Gama entendeu isto belamente: «Tenho muito que fazer? Não. Tenho muito que amar»!

 

Quanto mais a Igreja se voltar para fora, melhor se reencontrará dentro de si. Quanto mais a Igreja se despojar, melhor se redescobrirá.

 

Não é à Igreja que compete dar a resposta sobre ela mesma. É a Deus. É à Humanidade.

 

A ela cabe estar à escuta. De forma humilde, disponível, serviçal. E nunca de uma maneira impositiva ou senhorial.

 

publicado por Theosfera às 00:05

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