O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

1. A Jornada Mundial da Juventude, nos tempos videocêntricos em que vivemos, funcionou não só como acontecimento, mas também como sintoma.

 

Não há dúvida de que há algo que permanece intacto: a força agregadora da fé. Mas, em simultâneo, existe uma tendência que vai emergindo: é cada vez mais difícil lidar com quem tem uma visão diferente e um comportamento discrepante.

 

Foi mais fácil transpor uma distância grande para chegar a Madrid do que vencer uma distância pequena para, em Madrid, fazer encontro entre os manifestantes da Praça Cibeles e os contramanifestantes da Puerta del Sol.

 

É claro que não me revejo no espírito, nas palavras e nas atitudes dos chamados «indignados». Mas, como toda a gente, não posso ser insensível às interpelações que eles nos fazem chegar.

 

Estará Deus em eclipse nestes protestos? Ou não estará presente ainda que sob a forma de uma aparente ausência?

 

Não disse Lutero, na sua famosa dialéctica do Deus revelatus e do Deus absconditus, que Deus, quanto mais Se esconde, mais Se revela?

 

 

2. Martin Buber ofereceu o enquadramento essencial para esta discussão: «Um eclipse do sol é algo que tem lugar entre o sol e os nossos olhos, não no sol em si mesmo».

 

 É natural que a Igreja tenda a ver um eclipse de Deus no resto do mundo. Mas também não falta quem, no mundo, entenda haver um eclipse de Deus na própria Igreja.

 

 O Papa recorda que não é possível separar Cristo e a Igreja: «Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele». O eclipse estará, pois, na sociedade.

 

 No entanto, há muitos que alegam a necessidade de se afastarem da Igreja para melhor se aproximarem de Jesus. Nesta óptica, o eclipse encontrar-se-á na própria Igreja.

 

 

3. O mais curioso é que, na década de 1970, até Joseph Ratzinger reconhecia a possibilidade deste eclipse de Deus na Igreja: «Se, antigamente, a Igreja era a medida e o lugar do anúncio, agora apresenta-se quase como o seu impedimento».

 

 Tudo isto só mostra que o caminho da Igreja tem de ser a mudança profunda e a reforma constante.

 

Na génese da Igreja, encontra-se a universalidade da presença de Deus. Há que não descurar a Sua presença explícita. Mas há que estar cada vez mais atento à Sua pluriforme presença implícita.

 

Os jovens contestatários da Puerta del Sol não constituem, como à primeira vista se pode pensar, um obstáculo. Eles configuram, cada vez mais, uma oportunidade para o diálogo.

 

 

4. Creio cada vez mais na presença discreta de Deus neste mundo. E não será onde Ele parece estar mais ausente que teremos de O tornar mais presente?

 

 Em Madrid, tivemos uma vibrante expressão de uma Igreja alegre, que consegue ser exuberante e que se mostra cheia de iniciativa.

 

É necessário que, em toda a parte, apareça também uma Igreja confidente, acolhedora e genuinamente solidária.

publicado por Theosfera às 00:36

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