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Sábado, 17 de Outubro de 2009

Sobre a participação dos cristãos na política em Portugal, há um factor que explica a situação embora não a justifique.

 

A situação, diga-se, é de grande desconforto.

 

A explicação vem desde a implantação da república. O clima de hostilidade, que conduziu à Lei da Separação (a qual, segundo João Seabra, mais não foi que uma submissão da Igreja ao Estado), conduziu a uma necessidade de protecção.

 

No Estado Novo, houve um ambiente de distensão. Assinou-se a Concordata e o Acordo Missionário. O Estado ofereceu protecção e a Igreja devolveu silêncio.

 

Não havia concordância total. Mas as discordâncias tratavam-se em privado. As poucas vozes da Igreja que se fizeram ouvir (Padre Abel Varzim ou D. António Ferreira Gomes) foram bastante incomodadas. Chegou a haver padres deputados na Assembleia Nacional!

 

Chegados à democracia, houve cidadãos que pensaram na constituição de um partido democrata-cristão.

 

Ouvida a hierarquia, esta disse que não contassem com o seu apoio. Trata-se de uma posição sensata.

 

O carisma da intervenção político-partidária não pertence aos bispos nem aos padres. Mas não lhes cabe tutelar a intervenção cívica dos cristãos.

 

O Concílio Vaticano II é, a este respeito, muito claro.

 

Na Gaudium et Spes, diz-se que nenhum partido (nem um eventual partido democrata-cristão) pode reclamar o exclusivo da mensagem evangélica.

 

E a Lumen Gentium assinala que cabe aos fiéis leigos a intervenção secular, incluindo, portanto, a política.

 

Concretizando, os cristãos não podem reclamar um apoio formal dos padres e dos bispos a um (ou mais) partido(s) que constituam. Mas também não precisam de pedir autorização para se organizarem politicamente.

 

A experiência europeia, neste campo, teve os seus limites. A chamada democracia cristã também colecciona falhanços. Mas nem isso desmerece o esforço de quem arriscou.

 

A União Europeia ficou a dever-se, por exemplo, a políticos desta área: Robert Schuman, De Gasperi ou Adenauer.

 

Em Portugal, optou-se pelo híbrido.

 

Sá Carneiro dizia inspirar-se na doutrina social da Igreja e fundou um Partido Social-Democrata, embora social-democrata se diga também o Partido Socialista.

 

E Amaro da Costa e Freitas do Amaral, que se assumiam como democrata-cristãos, fundaram um Partido do Centro Democrático-Social.

 

Com cada vez mais abstencionistas, há um espaço da nossa democracia que nunca foi preenchido. Hoje, talvez, já seja tarde.

 

Mas porque é que, por fas ou por nefas, nunca nos definimos completamente?

 

Não é muito curial ver o cristianismo adjectivado, quando ele é estruturalmente substantivo.

 

Mas é indiscutível que ele pode constituir um apport para o debate e para a acção.

 

Há cristãos em muitos partidos. Se puder haver cristãos em mais um partido, qual é o problema?

publicado por Theosfera às 12:01

De António a 17 de Outubro de 2009 às 13:06
Em todos os partidos políticos sem excepção militam católicos e cristãos, incluindo no PCP. Conheço pessoalmente uma pessoa, destacada dirigente do Partido Comunista, que se afirma como católica. Por isso,nenhum partido político se pode arrogar a prerrogativa de representar a Doutrina de Cristo.Considero o nome Democracia Cristã infeliz. Em termos político-ideológicos nada diz.E do que hoje precisamos é de menos pântano e de mais clareza programática, que se defina a partir de dois pontos essenciais:a forma de organização do Estado e a caracterização do sistema económico. Em Portugal, dos partidos mais eleitoralmente representativos, só dois têm definições programáticas claras. O PP e o BE. Os outros navegam no pântano das indefinições ideológicas. Mário Soares, não só meteu o socialismo na gaveta,como o enterrou definitivamente. Manuel Alegre, pelos vistos, discorda. Sócrates concorda.O PSD é um saco de gatos selvagens a esgadanharem-se reciprocamente,à procura do Poder.Definição ideológica do PSD ? Dá para tudo.Mas, no fundo, é um partido liberal,com o convertido Pacheco Pereira à cabeça. Aliás, não deixa de ser curioso que, sendo o ex-comunista Pacheco Pereira um dos homens mais inteligentes e brilhantes da política nacional,nada diga sobre a questão de fundo ideológico do PSD. Quanto ao PC, enferma do mesmo mal. Muito fala em " nova política" e "política de esquerda", mas também não se define em termos ideológicos concretos. Quem vota PC sabe se, este partido ganhasse as eleições, nacionalizaria os hipermercados de Belmiro de Azevedo, transformando-as em lojas do Povo ? Se estatizaria a economia como acontece em Cuba ? Se eu poderia continuar a cortar o cabelo num barbeiro privado ou se o meu barbeiro passaria a ser funcionário do Estado ? Pessoalmente, nutro simpatia por Jerónimo de Sousa,com o qual nenhuma afinidade político-ideológica tenho. Mas é, para mim, o politico mais amável e simpático que conheço.Agora,ninguém sabe que programa aplicaria o PCP se fosse Governo. Assim vai a pequena política portuguesa. À portuguesa...


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