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Terça-feira, 09 de Agosto de 2011

Não é para afastar totalmente os receios, mas pode ajudar a temperar alguns ânimos.

 

Não é de agora a crise na Europa. Em finais do século XIX, mais propriamente a 2 de Abril de 1888, Eça de Queirós publicava um artigo em que se fazia eco do pessimismo reinante.

 

A Europa aparecia como uma «sala de hospital, onde arquejam e se agitam nos seus catres, estreitos ou largos, os grandes enfermos da civilização».

 

Por várias vezes se verte o lamento: «A situação da Europa é medonha. Sob as crises que a sacodem, já a máquina se desconjunta. Nada pode suster o incomparável desastre».

 

As crises acumulavam-se, «mais numerosas que as chagas no corpo clássico de Job».

 

Já naquela altura, a crise chegava à agricultura, à indústria, à religião. Já naquele tempo, a crise atingia todos os países. Por toda a parte, «sempre a dissipação dos estados, sempre a miséria das plebes!».

 

O exemplo da Rússia daquela época não é nada que nos surpreenda: «As despesas do governo subiram, sem que os rendimentos aumentassem».

 

A reacção portuguesa não difere muito da actualidade. E o curioso é que, já naquele tempo, a proximidade com a Grécia era evocada: «É que, enquanto contra as tormentas sociais nas outras naus se trabalha, na nossa rota e rasa caravela tagarela-se».

 

E o problema é que «o desalabado fluxo labial, cuja qualidade, desde 1820, não tem deixado de decair, da eloquência degenerando na loquacidade - da verbosidade descambando na verborreia!».

 

Mas Eça, no fundo, achava que tudo isto era normal. «A "crise" é a condição quase regular da Europa».

 

Aquele final de Novecentos era visto como «o Outubro fusco que anuncia um dos grandes Dezembros do mundo».

 

Curiosamente, o escritor vislumbrava para o século XX, quase a começar, «mais saber espalhado, e mais justiça realizada». Os males daquela altura dariam lugar, «na floresta humana, a uma mais viva e mais rica vegetação de liberdades e de noções».

 

Mas também já se vaticinava o «surgimento de novas dificuldades na sociedade e de incertezas novas no espírito. Outra vez voltará Dezembro».

 

E outra vez há-de regressar Março em que se reconhecerá que «a humanidade deu outro passo decidido para a frente, no caminho da justiça e no caminho do saber. E assim, aos tombos e aos socos, ora destroçado, ora reflorido, o mundo avança irresistivelmente».

 

Assim se esperava há mais de cem anos. Assim não desesperemos hoje.

 

Estamos numa fase de invernia, é certo. Há-de sobrevir uma nova Primavera. Não por inércia. Mas pela cooperação entre todos.

 

A crise não é de agora. A esperança é que tem de ficar para sempre!

publicado por Theosfera às 00:01

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