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Segunda-feira, 08 de Agosto de 2011

1. Não é fácil falar de assuntos difíceis. Mas acredito ser possível abordar de forma serena questões delicadas.

 

Em princípio, uma lei é para ser seguida e uma ordem é para ser obedecida.

 

É este o alicerce da convivência pacífica entre as pessoas, populações e povos.

 

Quando, porém, a lei contende com a justiça e quando a ordem conflitua com valores determinantes da consciência pessoal (o santuário secreto), a insubmissão pode ser necessária e a desobediência pode despontar como um imperativo.

 

É claro que aparece sempre o estigma. Umas vezes, a obediência é vista como sintoma de humildade. Outras vezes, é apontada como sinónimo de conformismo. Já a insubmissão tanto é descrita como filha da coragem como é lida como emanação da rebeldia e do orgulho.

 

O problema, neste caso, estriba sempre na tendência para julgar e para aferir as atitudes dos outros pelo preconceito próprio.

 

 

2. Há respeitáveis manuais de espiritualidade que garantem que quem obedece nunca se engana ainda que se engane quem manda.

 

Muitos de nós assimilaram este enunciado e, quase sempre, se dispõem a cumpri-lo. Só que, tendo Deus dotado todo o ser humano de discernimento, é preciso ter presente o que a consciência de cada um dita. Pois é aí que, ultimamente, ecoa a voz de Deus.

 

Ora, se quem manda se engana, quem obedece engana-se nesse mesmo momento. Pode o engano não ser detectado. Mas se houver percepção do engano, não é lícito aderir a uma ordem incorrecta. Sobretudo se esta versa valores tidos como fundamentais.

 

Aliás, Jesus foi bem o paradigma da decisão segundo a Sua consciência. Não foi um contestatário sistemático, mas também não foi um submisso acrítico.

 

Acima de tudo, era livre e, como assinala Paulo, foi para a liberdade que nos conduziu (cf. Gál 5, 1).

 

As grandes mudanças na história foram operadas dentro deste registo: insubmissão sem violência. Nos últimos tempos, o caso de Gandhi é o mais emblemático.

 

 

3. Henry David Thoreau terá sido, porventura, quem mais teorizou sobre o direito e o dever de resistir. A desobediência é um método pacífico de resistência. Trata-se de uma oposição não violenta a uma situação injusta.

 

Nos Estados Unidos, foi assim que se pôs fim à lei de segregação racial numa campanha heroicamente liderada por Martin Luther King.

 

A desobediência é legítima quando estão em causa a vida, a liberdade, a igualdade e a justiça.

 

Tal desobediência não significa desprezo pela lei ou pela ordem. Pelo contrário, trata-se de uma oportunidade para aperfeiçoar a lei e repensar a ordem.

 

Os direitos não podem vir apenas em sentido descendente (de cima para baixo) e os deveres não devem funcionar somente em linha ascendente (de baixo para cima).

 

Os direitos e os deveres terão de ocorrer sempre em interacção constante. O diálogo é o caminho e a escuta mútua surge como o método preferencial.

 

A norma a vigorar é a da confiança e da interferência mínima. Henry David Thoreau ilustrou esta base com um lema: «O melhor governo é o que menos governa».

 

Significa isto que, numa organização madura, há-de prevalecer o respeito pela pluralidade de pontos de vista e de formas de actuação.

 

 

4. O poder tende a nivelar e a impor. É importante que se habitue à diferença e à via propositiva. Na diferença, as pessoas rendem mais até porque não há pessoas iguais.

 

Por vezes, a desobediência pode equivaler a um grito pela identidade.

 

Não se trata de anarquismo. Trata-se de um alerta. Um dos sinais de pertinência da desobediência é o facto de esta se mover não por interesses mas por convicções. Para que ela possa ser eticamente lícita, nunca pode recorrer à violência.

 

De qualquer modo, a desobediência é uma excepção, ditada pela consciência, a instância suprema do ser humano. Como refere o Vaticano II, é sobretudo aí que Deus Se revela.

 

Por estranho que pareça, a insubmissão pode aparecer como um contributo para o melhoramento da autoridade e, desse modo, para o crescimento da comunidade.

 

De resto, a história está cheia de insubmissões que, mais tarde, se tornaram referências da ordem. Mas foi preciso que alguns alertassem para que muitos acordassem... 

publicado por Theosfera às 00:01

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