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Sexta-feira, 05 de Agosto de 2011

1. Foi o presidente eleito com a menor percentagem (o único que teve de disputar uma segunda volta), mas isso não obsta a que se tenha tornado a figura mais consensual do nosso regime.

 

A poucos meses de completar 88 anos, Mário Soares conseguiu ultrapassar as fronteiras do seu espaço político, sendo admirado praticamente por toda a gente.

 

O que é mais notável é que a idade não lhe subtraiu capacidades. Pelo contrário, a ancianidade parece que lhe acrescentou subtileza, intuição, acutilância.

 

Mário Soares deixou de ser um simples político. Ele posiciona-se como um sábio, uma espécie de oráculo.

 

Mais que a profundidade no tratamento dos temas, a sua arte preferida sempre foi a intuição.

 

Viu muita coisa antes de toda a gente e, em alguns casos, em sentido contrário ao de toda a gente.

 

Quando Henry Kissinger quis retê-lo nos Estados Unidos, advertindo-o de que poderia ser preso ou morto, ele veio combater pela liberdade.

 

Alguns viam-no como o Kerenski português, depreendendo que o nosso país se iria tornar uma nova Rússia. Até os intelectuais se espantaram com o desfecho. André Malraux escreveu que, afinal, «os mencheviques podem vencer os bolcheviques».

 

Quando, em 1985, anunciou a candidatura à presidência, as sondagens davam-lhe oito por cento e prenunciavam uma estrondosa derrota. Parecia que só ele acreditava. Acabou por levar muitos a acreditar nele.

 

 

2. Bastante hábil na gestão das emoções, impôs-se na esquerda e colheu simpatias à direita.

 

Foi sempre um destruidor de muros e um construtor de pontes.

 

O facto de ser agnóstico nunca o impediu de mostrar um especial interesse pela fé. Numa célebre entrevista publicada a 23 de Dezembro de 1996, confessou ser «talvez um místico que se desconhece». Não admira que se tenha tornado presidente da Comissão de Liberdade Religiosa.

 

 É, sem dúvida, um dos últimos representantes de uma escola que vai tendo cada vez menos cultores.

 

É um humanista. Tem um conhecimento amplo da história e da literatura. Tempera a análise dos assuntos mais concretos, como os da economia, com evocações dos clássicos.

 

Mostra-se pessimista sobre alguns aspectos da actualidade. Mas permanece, incorrigivelmente, optimista sobre o futuro.

 

Não é seguidista de nenhum líder. Mas tem referências. Willy Brandt parece ter sido uma inspiração. Já Tony Blair aparenta despontar como um antimodelo.

 

 

3. Num tempo marcado por uma certa iconoclastia, Mário Soares é um ícone. Sendo republicano, é tratado como um príncipe. Enfim, estamos perante um aristocrata na época da vulgaridade global.

 

 À Europa deixa um aviso: «Ou muda de modelo económico e consegue regulamentar a globalização e os mercados especulativos, ou caminhamos para a destruição da Europa e o fim do euro, com as consequência que resultam dessa tragédia».

 

As lideranças provocam-lhe suma apreensão: «A Europa perdeu o rumo e está a ser dirigida por líderes que são medíocres e que só se interessam por poder e dinheiro».

 

O esbatimento das definições ideológicas desiludem-no. Não se revê na «terceira via» de Blair, que afecta o socialismo, nem no «no esquecimento da doutrina social da Igreja», que transformou os partidos democratas-cristãos em partidos populares.

 

 

4. De forma um pouco visionária, insiste na defesa do federalismo: «Ou a Europa consegue estabelecer um governo económico e político para dirigir a moeda única ou acaba».

 

Defensor do Estado social, propugna um «mercado com regras éticas». Não se declara anticapitalista. Apenas se mostra contrário ao chamado «capitalismo de casino».

 

Sendo o político um agregador de vontades, às vezes corre o risco de se transfigurar num detonador de sentimentos contrastantes.

 

Mário Soares, tão próximo de quem lhe era politicamente distante, foi-se distanciando de alguns de quem era politicamente próximo. Os casos mais conhecidos são as rupturas com Salgado Zenha e Manuel Alegre.

 

Neste campo, confessa duas coisas. Por um lado, assegura que nem estes desencontros lhe instalaram qualquer ressentimento. Isso não impede que siga, como regra de vida, o princípio de que «se tenho confiança numa pessoa e se ela me falha, não me falha segunda vez; só me falha uma».

 

 Confiança em Portugal é o que não lhe falta. Acredita nas novas gerações e nas suas ideias.

 

Numa hora tão propensa à depressão, é salutar ouvir alguém tão convictamente optimista: «Sou um português que adora Portugal»!

publicado por Theosfera às 00:21

De António a 5 de Agosto de 2011 às 13:14
Nunca apreciei os constantes ziguezagues políticos de Mário Soares após o 25 de Abril, mas reconheço-lhe grande coragem no período conturbado do PREC. Porém, prefiro homens de uma só coerência, embora ela se possa, por vezes, confundir com o fanatismo. Francisco de Sá Carneiro e Álvaro Cunhal tinham essa coerência ideológica que me agrada.O primeiro não se fez à politica para enriquecer, o segundo muito menos. Lamento, no caso de Cunhal, que tenha enveredado por uma visão sectária, de pendor notoriamente totalitário, mas sempre o escutei com admiração.Muito do que ele disse em relação a aspectos perversos do Capitalismo está confirmadamente certo.Quanto a Mário Soares,não querer comparecer à tomada de posse de Cavaco Silva, enquanto presidente democraticamente eleito, e as atitudes revanchistas que assumiu contra Zenha e Manuel Alegre, falam por ele...

De Theosfera a 5 de Agosto de 2011 às 14:02
Obrigado, bom Amigo, pelo seu precioso contributo. Tem muita pertinência no que diz. O que relevo é que, neste tempo de «maré baixa» no discurso, Mário Soares quase resplandece como uma luz. Até nas contradições. Pelo que me apercebi, ele terá estado na cerimónia de posse do PR, mas recusou-se ficar na sessão de cumprimentos por...não ter gostado do discurso! Obrigado por tudo. Abraço amigo no Senhor Jesus.

De Evágrio Pôntico a 5 de Agosto de 2011 às 15:37
Com todo o respeito, devo dizer que Mário Soares é, consabidamente, um dos principais responsáveis pela hecatombe daquilo a que os políticos no poder então apelidaram de "descolonização exemplar", que tantos problemas causou (e continuará a causar) aos Portugueses e aos autóctones do ex-Ultramar português...

O que me parece é que é um homem frio, calculista, que visa apenas os seus objectivos pessoais (e os do partido?) sem olhar a mais nada...
A forma como tratou uma figura de excepcional craveira, homem de princípios, como Salgado Zenha, revela bem a sua forma de estar na vida e na política... Aliás é conhecida a forma como "despacha" amigos e correligionários quando já deles não consegue tirar proveito...
O socialista, "compagnon de route", Rui Mateus, explicava bem quem era Soares, num famoso livro, que, por contar verdades inconvenientes, foi rapidamente mandado retirar da circulação...

Sempre achei que Mário Soares era (e é) um homem fingido, cabotino e oportunista, que diz apenas o que lhe interessa na ocasião, seja verdade ou mentira...

Reconheço contudo a sua luta contra Cunhal e sectários quando foi preciso travar a implantação do regime comunista soviético em Portugal. Mas para isso teve a fortíssima ajuda dos americanos, especialmente de F. Carlucci, embaixador dos USA em Portugal, na altura.

De Soares tenho a opinião que é pessoa sem qualquer riqueza interior.
O que lhe vale, porém, é ter a seu lado uma mulher de qualidade espiritual, e que lhe é muito superior...

De Theosfera a 5 de Agosto de 2011 às 15:52
Aqui fica anotado o seu ponto de vista. Obrigado pela participação. Abraço amigo no Senhor Jesus.


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