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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

1. Entre Buda e Cristo há cinco séculos de distância e muitos pontos de diferença. Mas o mais espantoso é poder coligir vários traços semelhantes e surpreendentes aproximações comuns.

 

Tais afinidades fazem com que se torne habitual ver figuras como o Dalai Lama (que lidera o Budismo tibetano) a comentar o Evangelho e teólogos como Hans Kung ou Odon Vallet a estudar textos budistas.

 

 Buda e Cristo foram reconhecidos como mestres: Buda era visto como um guru e Cristo como um rabi.

 

Para Karl Jaspers, ambos são, a par de Sócrates e Confúcio, os maiores mestres da humanidade. Acima de tudo, porque foram enormes mestres de humanidade.

 

Foram mestres que iluminaram o seu ensinamento com a sua conduta.

 

Não foram escritores. Foram testemunhas. E, como notava Paulo VI em 1974, as pessoas seguem os mestres quando são testemunhas. Ou seja, quando dizem o que fazem e quando fazem o que dizem.

 

 

2. Curiosamente, Buda e Cristo não são nomes; são títulos. Buda (que significa iluminado ou desperto) é o cognome de Siddharta Gautama. Cristo (ungido em grego e que corresponde a Messias em hebraico) é o epíteto de Jesus.

 

Os dois inserem-se nas tradições religiosas do povo a que pertencem: Buda no hinduísmo e Cristo no judaísmo.

 

Ambos começam as suas intervenções decisivas por volta dos trinta anos. É por essa altura que Buda tem a sua iluminação e é com essa idade que Cristo inicia a sua pregação.

 

Os dois são grandes caminhantes. Jesus percorre a Judeia e a Samaria, prosseguindo na Galileia até terminar em Jerusalém. Buda peregrina pela bacia do rio Ganges e começa a sua vida pública com uma longa caminhada a partir do Terai, junto do Himalaia.

 

Na doutrina, há uma dissonância que salta à vista. Para Buda, o objectivo supremo é o nirvana enquanto libertação do ciclo dos renascimentos e extinção de todo o desejo. Para Cristo, o paraíso é a vida eterna, a pura felicidade, ou seja, a realização máxima do desejo. 

 

 

3. Jesus apresenta-Se como o caminho. Buda apresenta o caminho, a via que evita os extremos do rigorismo e do relaxamento. Essa via tem que ver com a rectidão: a recta fé, a recta decisão, o recto discurso, a recta acção, a recta vida, o recto esforço, o recto pensamento e a recta concentração.

 

Como Jesus, também Buda se mostra preocupado com o sofrimento humano. Também ele se dispõe a «carregar todos os sofrimentos de todos os seres vivos». Movido pela compaixão, «está decidido a ficar em qualquer condição de desconforto por séculos infinitos para alcançar a salvação de todos os seres».

 

Jesus proclama: «Ama o próximo como a ti mesmo». Buda exorta: «Não magoeis os outros com aquilo que vos magoa a vós».

 

 

4. Se, entretanto, a similitude entre Buda e Cristo é impressionante (sobretudo quanto à conduta), há muitas dissemelhanças entre as tradições budistas e cristãs.

 

Enquanto o Budismo se organiza à volta da comunidade dos monges, o Cristianismo cedo se concentrou em torno de uma autoridade.

 

Como anota Huston Smith, «Buda pregou uma religião destituída de autoridade». Cada um deve fazer a sua procura. A recomendação é assertiva: «Não aceiteis o que ouvis, não aceiteis uma ideia só porque é o que o vosso professor afirma. Sede as vossas próprias candeias».

 

O Budismo também não avulta pela especulação teológica e pelo desenvolvimento doutrinal. Pelo contrário, pauta-se por uma forte sobriedade: «Se o mundo é eterno ou não, se o mundo é finito ou não, se a alma é o mesmo que o corpo, estas coisas - disse Buda - o Senhor não me explica». Para ele, «a avidez de explicações não ajuda à edificação». O importante é o caminho, a rectidão, a prática do bem. O resto virá por acréscimo.

 

Apesar de haver desentendimentos no universo budista, é inquestionável que existe uma intensa procura da serenidade. A prioridade está em fazer o bem agora. O futuro permanece em aberto.

 

 

5. Aqui radica o encantamento que o Budismo exerce sobre muitos. E que está a fazer dele uma religião implantada num espaço cada vez maior. Trata-se, como refere Karl Jaspers, «do amor enquanto compaixão por tudo o que vive numa atitude de não agressão».

 

Aos olhos de muitos, «o Budismo tornou-se a única religião do mundo que não conhece qualquer violência, qualquer perseguição, qualquer inquisição ou quaisquer cruzadas».

 

E não reluz, em tudo isto, o espírito de Jesus?

 

 

publicado por Theosfera às 09:36

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