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Segunda-feira, 09 de Maio de 2011

 

1. Muito se tem falado de mudança: da necessidade de mudar, da urgência de mudar e também da dificuldade em mudar.

 

 

Só que Portugal já mudou. E a mudança veio de fora, ainda por cima com a ameaça de um impacto draconiano na vida das pessoas.

 

 

Dir-se-ia que muito dinheiro vem para o país, mas só a factura chegará ao povo.

 

 

É praticamente impossível divisar neste auxílio monetário uma autêntica dimensão humanitária.

 

 

A mudança passou, pois, de desejada a temida. E a esperança tende a ceder o lugar ao medo.

 

 

Nesta altura, o que o povo quer saber é quem se dispõe a cumprir estritamente o plano da mudança e quem se revela disponível para atenuar os seus efeitos.

 

 

 

 

2. Um programa tecnocrático precisava de ser compensado com uma política humanista. Que atenuasse os danos da austeridade. Que impusesse algumas correcções. Que encurtasse a desigualdade. E que fomentasse uma efectiva rede de solidariedade que não deixasse ninguém sem acesso ao essencial.

 

 

 É claro que, nesta fase pré-eleitoral, o discurso humanista está presente. Mas a experiência demonstra que, no período pós-eleitoral, o mais provável é que ele dê lugar a uma prática contrária.

 

 

 O pretexto será o habitual: as dificuldades que o país atravessa. E as vítimas continuarão a ser as de sempre: os mais desfavorecidos.

 

 

 Os que se comprometeram com a troika não terão grande margem de manobra. Os que se demarcaram da troika não terão grande oportunidade de influência.

 

 

 Era bom, por isso, que houvesse verdade nas propostas e moderação nas acções. Alguma sobriedade, nesta fase, até seria mais esclarecedora.

 

 

 

Cada partido compendiaria as suas propostas e estas seriam remetidas aos cidadãos. Depois de reflexão atenta, fariam a sua opção.

 

 

 Salta à vista, porém, que a prioridade é a coreografia partidária e a encenação mediática.

 

 

Sem se aperceberem muito disso, os cidadãos olham para os líderes como actores e vêem-se a si mesmos como meros espectadores.

 

 

 

 

3. A representação é uma arte, mas o seu lugar é o palco. A política é outra coisa. O seu objectivo não é representar, mas apresentar. E, depois, executar. Sim, executar. Porque decidir já foi com outros.

 

 

 De facto, desta vez, vamos escolher quem executa e não quem decide. Porque quem decide são as entidades que nos vão emprestar dinheiro, ditando as condições em que ele será encaminhado.

 

 

 Todos parecem estar de acordo quanto à necessidade de não impor mais sacrifícios além daqueles que já foram anunciados.

 

 

As pessoas estão saturadas e receosas. Já se sabe que a mudança trará custos. Teme-se que não traga benefícios.

 

 

Precisamos de quem esteja à altura não só dos problemas que enfrentamos, mas também das soluções de que necessitamos. Só assim o medo voltará a ser suplantado pela esperança.

 

 

 

 

4. Mas como vencer o medo quando cada partido garante que, se o outro vencer, as dificuldades aumentarão e a crise se perpetuará?

 

 

Como criar um espírito de entendimento num ambiente de desconfiança?

 

 

Acontece que a política é um espelho do que se passa na sociedade. Estamos num tempo em que os lugares estão cada vez mais perto e as pessoas se sentem cada vez menos próximas.

 

 

Encurtamos distâncias entre lugares. Mas teimamos em cavar distâncias entre pessoas.

 

 

 Já não há fronteiras a delimitar países. Mas continua a haver muros a separar pessoas.

 

 

Necessitamos de dinheiro. Mas precisamos, ainda mais, de restaurar laços e de refazer pontes.

 

publicado por Theosfera às 11:57

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