O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

1. A Páscoa é sempre na Primavera, muitas vezes em Abril e, este ano, na véspera do 25 de Abril.

 

Nada disto é por acaso. Nada, aliás, acontece por acaso. Tudo isto tem um sentido. Poderemos captá-lo?

 

Para já, até o sol está a ajudar, conseguindo romper o negrume da crise.

 

Esta luminosidade primaveril deixa-nos entrever melhor o liame entre os dois acontecimentos.

 

A Páscoa é, antes de mais, libertação. E o 25 de Abril é, acima de tudo, liberdade.

 

Sem liberdade, ainda que se tenha tudo, subsiste a sensação de não se ter nada. Daí a confidência de Miguel Torga: «Só presto para ser livre».

 

O povo judeu prosperava no Egipto. Era admirado pela sua capacidade empreendedora. Tinha tudo. Só não tinha liberdade.

 

Apesar das vicissitudes, preferiu a inclemência do deserto à pretensa tranquilidade da escravidão. A Terra Prometida é, no fundo, o chão da liberdade.

 

Esta, porém, teve de ser conquistada com suor, com persistência, com altos e baixos, avanços e recuos.

 

Páscoa vem de peshah e significa passagem. A liberdade é um percurso que se trilha, uma estrada em que se corre.

 

Tudo é oferecido à partida. Mas nada está garantido sem caminhada. É necessário ter muita energia para não perder o caminho da liberdade.

 

 

2. Jesus Cristo é, todo Ele, um evento de liberdade.

 

S. Paulo percebeu isso e não se esqueceu de anotar que «foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou» (Gál 5, 1).

 

A libertação é abrangente e não deixa de lado a própria liberdade. Também a liberdade precisa de ser libertada.

 

É que a liberdade tende a ser conectada com mera ilusão de fruição pessoal. No limite, tal liberdade pode contender com a liberdade dos outros.

 

A liberdade, segundo Jesus, é a mais poderosa vacina contra a pior das doenças: o egoísmo.

 

O vértice da liberdade não está em fazer o que me apetece. O vértice da liberdade consiste na entrega voluntária da minha vida pelos outros.

 

De resto, Jesus teve o cuidado de advertir que, antes de ser alguém a tirar-Lhe a vida, era Ele que dava a Sua vida (cf. Jo 10, 18).

 

Jesus instaura, assim, um paradigma de existência radicalmente inovador.

 

 

3. Deste modo, toda a opressão é profundamente anticristã.

 

Em nome de Cristo, não pode haver a menor conivência com a exploração, com a escravização seja de quem for.

 

A mensagem de Cristo também reclama a libertação da ordem social injusta.

 

Não se pode ser cristão e, a pretexto de uma suposta neutralidade, patentear indiferença em relação às pessoas exploradas e aos povos oprimidos.

 

Muitas vezes, esta dimensão da liberdade foi esquecida e até contrariada.

 

Os seguidores de Cristo terão de ser paladinos da liberdade. Da liberdade integral.

 

 

4. Neste mês, em que até a natureza se liberta da prolongada sonolência do Inverno, há sobejos motivos para celebrar a liberdade.

 

Tal celebração não dispensa, entretanto, uma cuidada atenção e uma constante vigilância.

 

A liberdade, que é um dom e uma conquista, pode ficar em perigo quando a desligamos da justiça.

 

No nosso país, que reencontrou a liberdade há trinta e sete anos, há quem não se sinta livre.

 

Os constrangimentos à liberdade começam a alastrar. Há muitas condicionantes que entravam a sobrevivência e a auto-realização de cada um.

 

Quando se tolera que poucos possuam muito e muitos tenham pouco (ou quase nada), não é a liberdade que está a funcionar. É a liberdade que está a definhar.

 

Só há liberdade quando o essencial está à disposição de todos: alimento, habitação, saúde, educação.

 

A liberdade não obriga a que sejamos todos iguais. A liberdade é o que nos oferece a possibilidade de sermos diferentes. E o que garante que ninguém será prejudicado por essa diferença!

 

 

publicado por Theosfera às 14:41

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