O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

 

Sucede que uma Teologia da Libertação (que não é de agora, mas de sempre) pressupõe — e requer — uma libertação da própria Teologia.
 
Basicamente, a Teologia tem de se libertar da prisão do conceito e da tirania do preconceito.
 
O conceito é importante, mas não constitui o único nem o central. O conceito serve à Teologia para descrever, para apontar, para apelar, para arrotear. Mas nunca pode servir para comprimir, para esganar, para esgotar.
 
A missão do conceito é a transcorrência: da realidade da vida do Homem para a vida da realidade de Deus.
 
Quando a Teologia estaciona no conceito, pode ganhar em consistência, mas acaba por perder em pertinência. Torna-se um mero exercício diletante dos seus cultores.
 
Ora, a Teologia não se pode fazer apenas (nem principalmente) nas universidades. Tem de se fazer, primordialmente, na vida das pessoas.
 
A Teologia das universidades (e dos manuais) há-de ser ecóica relativamente à Teologia que se pratica na vida. Aquela tem de ser em eco desta. Se não, caímos no puro sebentismo.
 
Visa a Teologia não somente exercitar a análise, mas, acima de tudo, excitar a militância. A Teologia tem de apontar sempre para uma Teopraxia. O logos há-de desaguar no amor. Antes de mais e no fim de tudo, a Teologia está chamada a ser carta de amor.
 
O escopo da Teologia — volto a Gustavo Gutiérrez — não é uma simples metafísica religiosa, mas «o anúncio do Evangelho e o serviço da Igreja».
 
Aliás, já Paul Tillich afirmou, há décadas, que «a Teologia existe para servir a Igreja».
 
É, porém, na relação com a Igreja que a Teologia é chamada a superar um preconceito que, aqui e ali, se torna demasiado notório.
 
Trata-se do preconceito em relação ao Magistério. Como nota Ruiz de la Peña, parece que teólogo que não critique o Papa é falho de qualidade e destituído de prestígio.
 
Ainda recentemente, o Santo Padre advertiu que o debate teológico é, sem dúvida, sadio, mas «desde que procure a verdade e aceite que o Magistério tem sempre a última palavra».
 
O Magistério não é um entrave à Teologia. Pelo contrário, é o seu aliado, o seu interlocutor e, por assim dizer, a sua luz.
 
A Teologia é um serviço fundamental na Igreja, mas ela própria sabe que o carisma da interpretação válida da Revelação foi confiado a Pedro e aos Apóstolos em união com Pedro.
 
Em causa não está, pois, o poder ou a influência. Em causa está a fé. É aqui, aliás, que Joseph Ratzinger encontra a distinção entre Ciência da Religião e Teologia. Enquanto aquela se norteia primordialmente pela razão, esta guia-se sempre pela fé.
 
E é na fé que encontramos explicação para tudo. Especialmente para o (humanamente) inexplicável.
publicado por Theosfera às 14:31

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