O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 22 de Março de 2011

1. É, sem dúvida, o livro do Papa um esforço meritório na captação do mistério de Jesus.

 

A demarcação do método histórico-crítico, que Ratzinger (talvez apressadamente) diz ter dado «o que de essencial tinha para dar», reside neste ponto. Como teólogo sistemático, quer oferecer mais do que um enquadramento exegético da vida e das palavras de Jesus no espaço e no tempo.

 

Para ele, o «Jesus real» é mais que o «Jesus histórico» e uma «hermenêutica da fé» não empobrece (antes enriquece) o tratamento dos dados fornecidos pelo sobredito «método histórico-crítico».

 

A fé, com efeito, não é uma inibição até porque os textos essenciais (os Evangelhos) são, eles mesmos, emanações da fé.

 

Daí que se perceba a preocupação de se manter fora «das controvérsias sobre muitos elementos particulares», colocando o enfoque na «reflexão sobre as palavras e as acções essenciais de Jesus».

 

Talvez por isso não fosse despropositado que o título da obra (a que falta um prometido terceiro volume sobre os Evangelhos da infância) fosse «Jesus Cristo». É que «Jesus Cristo» compendia a história (Jesus) e a confissão de fé (Cristo).

 

Em Teologia, a expressão «Jesus de Nazaré» costuma realçar, precisamente, a história de Jesus sem considerações de fé. É o que ocorre, por exemplo, com a vasta bibliografia em torno da figura de Jesus dentro do Judaísmo.

 

 

2. Apesar de Ratzinger se recolocar na posição de teólogo, ninguém ignora que estamos também na presença do Papa Bento XVI. Isto afere-se, desde logo, na (dupla) autoria do livro: Joseph Ratzinger/Bento XVI.

 

O que temos, portanto, diante de nós acaba por ser mais a visão eclesial de Jesus do que uma visão jesuânica da Igreja.

 

Trata-se de uma opção perfeitamente compreensível e legítima, mas que levanta alguns condicionamentos.

 

Numa obra desta dimensão e com a responsabilidade do pastor da Igreja universal, era de esperar uma abordagem mais explícita da interacção entre Jesus e a Igreja.

 

É claro que os pressupostos de tal relação aparecem, nomeadamente quando se refere a Última Ceia e o novo culto aí inaugurado.

 

Mas seria bom que a análise tivesse sido mais directa.

 

Há uma tendência para reportar praticamente toda a estrutura da Igreja ao próprio Jesus.

 

E, de facto, só faz sentido haver Igreja para assegurar, no tempo, a presença salvífica de Jesus.

 

Será, porém, que essa presença é automática?

 

Costuma distinguir-se (e Jurgen Moltmann precisou bem os termos) entre uma «cristologia da identidade» e uma «cristologia da significação».

 

 A primeira procura fixar-se prioritariamente na pessoa de Jesus. A segunda visa extrair o máximo de ilações para a vida da Igreja e até da sociedade.

 

 

3. Em princípio, há uma continuidade entre Jesus, a Igreja e a estrutura eclesiástica. Será, porém, que tal continuidade se verifica?

 

A instituição é necessária. Mas não será que ela, por vezes, ofusca o mistério?

 

Não haverá o risco (embora involuntário) de uma certa domesticação do próprio Jesus?

 

Teologicamente, não se há-de separar Cristo da Igreja, mas na prática há uma dissociação que tende a crescer. E, como nota Martín Velasco, parece que «o Cristianismo rejuvenesce» enquanto «a Igreja envelhece». Ora, antes de mais, isto deveria preocupar-nos.

 

O peso da estrutura (resultante de um eclesiocentrismo assolapado) não ajuda a que a Igreja presencialize devidamente Jesus Cristo.

 

Aliás, foi o próprio Ratzinger que, nos idos de 1970, chamava a atenção para o seguinte. A Igreja é anúncio de Cristo, mas, às vezes, parece ser obstáculo para Cristo.

 

Costuma advertir-se para o perigo de uma Igreja excessivamente carismática, que quase dispensaria a estrutura. Os nomes mais representativos desta tendência seriam, no passado, Joaquim de Fiore e, na actualidade, Hans Kung e Leonardo Boff.

 

Mas não deveríamos estar atentos aos riscos de uma Igreja demasiado institucional, onde a espiritualidade pouco se respira e o amor quase não se vê?

 

Ora, se uma instituição não deixa transparecer devidamente a figura que a inspira, é preciso fazer algo.

 

A reforma está inscrita na génese da Igreja. Importa nunca perdê-la de vista.

 

O peso da estrutura pode ofuscar a leveza transfiguradora da mensagem de Jesus.

 

Com todo o respeito pelo traçado decidido pelo autor, penso que o corolário destes dois primeiros volumes (sobre a figura e a mensagem e sobre a entrada em Jerusalém até à Ressurreição) seria, precisamente, o tempo da Igreja.

 

Não é que os Evangelhos da infância não encerrem especial relevância. Só que a Eclesiologia é uma decorrência (diria) epidérmica da Cristologia.

 

 

4. Nota-se também uma preocupação em descartar uma interpretação política da mensagem de Jesus.

 

Percebe-se que, em fundo, pretende evitar-se questões de ideologia e de poder.

 

Na verdade, não é por aí que Jesus vai.

 

Só que, dado o carácter totalizante da missão de Jesus, creio que não se pode excluir a implicação política da Sua proposta.

 

Tudo é político, tudo está na polis, na cidade, no mundo, na vida.

 

Se não é curial ideologizar a mensagem de Jesus, também não me parece correcto despolitizá-la completamente.

 

Tão perniciosa é uma funcionalização excessiva como uma indiferença total.

 

Jesus configura uma opção preferencial pelos mais pequenos (cf. Mt 25, 40).

 

Tentar aplicar este princípio na vida pública é um desígnio oferecido a todos e um imperativo colocado a cada um.

 

Pretender Jesus fora da política seria presumi-lo distante da vida.

 

Não se trata de instrumentalizar a Sua mensagem, mas de integrar a Sua presença.

 

 

5. Há que saudar, em síntese, o empreendimento do autor e a percepção que nos oferece acerca de Jesus.

 

Os nove capítulos deste segundo volume constituem nove traços de uma presença que não terminou com o fim.

 

O drama da paixão não é menorizado e a crueza da morte não é amortecida. O grito de abandono é considerado com toda a intensidade.

 

Mas a ressurreição é o começo depois do fim. Sinal de que há sempre uma esperança por muito apertada que seja a tormenta.

 

Nestes tempos de penumbra, em que a esperança parece ter entrado em pousio, subjaz no livro a convicção agostiniana de Ratzinger: é quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente começa.

 

Crer é, no fundo, nunca desistir de (re)começar.

publicado por Theosfera às 00:00

mais sobre mim
pesquisar
 
Março 2011
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10

13
19

20



Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...

blogs SAPO


Universidade de Aveiro