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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

1. Para perceber a presente campanha eleitoral (e, mais vastamente, o actual momento político) não basta folhear os jornais nem consultar os manuais de Ciência Política.

 

É preciso recorrer a outros padrões de análise que irão desde a Filosofia à própria Psicologia.

 

Se repararmos bem, o que está em causa já não é apenas (nem principalmente) a aptidão para o exercício de um cargo que deveria ser mais de serviço do que de poder.

 

O que salta à vista é, antes de mais, o estado da sociedade e o carácter das pessoas.

 

É óbvio que não me repugna esta discussão. Compreender o estado da sociedade é fundamental e conhecer o carácter das pessoas é decisivo.

 

O problema não está, pois, no conteúdo da discussão, mas no seu rumo. Ou, melhor, na sua total falta de rumo.

 

 

2. Estamos a discutir o mais sagrado (o carácter) com base no que há de mais leviano: a pura suspeita.

 

Não se apresentam situações concretas ou dados irrefutáveis. Apenas se agitam suspeições envolvidas pela neblina do rumor.

 

A insinuação repetida deixa o seu rasto e cumpre os objectivos para alguns aprendizes de Maquiavel. Os fins acabam por justificar (e explicar) os meios, todos os meios.

 

Se o argumento não convence, espera-se que a suspeita ajude a vencer.

 

A violência emocional não fere menos que a violência física. Chega até a magoar mais, imensamente mais…

 

Nem sequer damos conta de que não estamos em condições de julgar. Os actores políticos acabam por funcionar como um espelho dos cidadãos.

 

Os políticos não estão isentos de defeitos. Mas será que nós, cidadãos, seremos modelos de virtudes?

 

 

3. Os políticos são filhos de um tempo que, por sinal, também é o nosso. Trata-se de um tempo que Lipovetsky descreveu como sendo vazio e, nessa medida, dominado pelo efémero.

 

Sem opções galvanizadoras, a tendência é para deixar de acreditar.

 

Acreditar já não é a regra. A regra é desconfiar, é suspeitar.

 

Acresce, como agravante, que, num quadro de esvaziamento de valores, os limites são ignorados e largamente ultrapassados.

 

É certo que quem aspira a liderar devia destacar-se pela diferença. Esquecemos, no entanto, que não vivemos numa época de homens excepcionais. Os historiadores são os primeiros a descrever a nossa época como sendo a dos homens comuns.

 

Sucede que, como são os homens comuns a escolher os líderes, é natural que se inclinem para aqueles que mais se assemelham a eles e não para aqueles que mais se distinguem deles.

 

O panorama que, actualmente, nos é oferecido é, sem dúvida, desolador, mas está longe de ser novo.

 

Ele confirma uma tendência que, há muito, se vem desenhando e infirma qualquer vontade de acreditar que, afinal, o melhor ainda é possível.

 

É penoso, mas é verdade: a suspeita vende, a suspeita rende. Se a suspeita não fosse consumida, talvez não a usassem tanto.

 

Uma vez mais se reforça o cenário. Atravessamos uma crise que, antes de ser política, é cívica, é nossa.

 

O político que grita e que fala de dedo em riste é constantemente abafado em aplausos. Já aquele que se mantém moderado é imediatamente acusado de não ter jeito para a política.

 

Não são estes os comentários que tecemos?

 

 

4. A comunicação social, que podia (e devia) exercer um papel terapêutico, excita-se com tudo isto. Parece mesmo (sobre)viver bem neste terreno lamacento.

 

Tudo isto é muito pós-moderno, muito resignado ao fragmento, ao incidente, à insinuação difundida e à frase gritada.

 

Falta uma visão global, um pensamento sustentado e um horizonte de esperança.

 

Precisamos de uma revolução não só nas estruturas, mas que parta das mentalidades.

 

Creio que essa revolução silenciosa já está a fermentar. A longo prazo, dará os seus frutos.

 

 O bem não se compadece com pressas. É pena. Mas o importante é que ele venha.

publicado por Theosfera às 11:57

De António a 11 de Janeiro de 2011 às 23:46
Hoje, ouvi a administradora do Banco de Portugal, Teodora Carodo, tecer o pior cenário económico sobre Portugal, sustentando que era inevitável a vinda do FMI.

Afinal, a referida administradora em Maio de 2008 dizia isto:


"A economista afirmou durante a sua intervenção na conferência anual da AECOPS, que a crise financeira que atingiu os mercados "é capaz de demorar menos do que se esperava e que "se as coisas melhorarem no sector financeiro, talvez daqui a seis meses possamos vir a melhorar".

Segundo a economista, há vários indicadores que apontam para uma atenuação da crise financeira como o regresso dos investidores ao mercado e o aumento de capital dos bancos para empréstimos.

"O problema dos bancos não conseguirem dar crédito é um cenário que está praticamente afastado", afirmou.

A economista diz que não faz previsões sobre a evolução do crescimento económico português, mas "como tendência é possível que no segundo semestre deste ano comecemos a melhorar".

Mais palavras para quê ?...

De Theosfera a 11 de Janeiro de 2011 às 23:58
Obrigado, bom Amigo, por mais esta notável e perspicaz análise. A falta de substância e a ausência de rumo está a levar-nos por um descaminho perigoso. Precisamos de atalaias que nos reencaminhem para o essencial. Pesa-me não ver uma instituição ou uma figura que desponte como um referencial de esperança nesta hora difícil. Abraço amigo no Senhor Jesus.

De António a 12 de Janeiro de 2011 às 13:33
Rectifico, estimado padre João António, o nome da economista em causa, que é Teodora Cardoso. A qual também sustentou em 15/7/2010, que " os bancos portugueses têm uma situação perfeitamenteb sólida". O BPN é que parece que ainda não está totalmente solidificado, mas mais 500 milhões de euros hão-de ajudar.A mesma pessoa que, em 20/5/2008 afirmava que " a situação económica poderá melhorar dentro de seis meses,se houver, como se espera, uma evolução positiva da crise financeira mundial". Em Maio de 2009, a referida economista também sustentou: ""faz todo o sentido o comboio de alta velocidade entre Lisboa e o Porto", afirmou a economista na conferência "novas respostas de política económica", organizada pela Fundação Inatel e pela Fundação Mário Soares.
Afinal, se somos um "país rico" porque não haveremos de gastar mais uns biliões de euros com o TGV, entre Lisboa e Porto ? O Alfa já anda a "passo de caracol" e não há nada mais importante em Portugal do que percorrer Lisboa e Porto a super-velocidade porque "o resto do país é paisagem"...
"Parece-me que o comboio é um meio de transporte a estimular, mas acho que há uma falta de visão global do que queremos para o País. Gostava de perceber qual é a visão logística do País enquanto parte integrante da Europa e do mundo", reforçou Teodora Cardoso.
Eu também gostava muito que houvesse em Portugal economistas que fizessem previsões certeiras e que não fizessem" prognósticos" depois dos factos consumados.
Teodorra Cardoso, administradora do Banco de Portugal...
A falar assim, ainda conseguirá ser " promovida" para qualquer bem remunerada instância europeia, como aconteceu com o previdente e visionário Vítor Constâncio...

De Theosfera a 12 de Janeiro de 2011 às 13:58
Muito pertinente esta sua reflexão, bom Amigo. Muito obrigado. Abraço amigo no Senhor Jesus.


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