O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

O caso WikiLeaks não é o vendaval tempestuoso que se antecipava, mas não deixa de provocar estragos em todo o planeta. Trata-se de uma vaga de chuva que se fez sentir um pouco por toda a parte.

 

O Vaticano terá sido descrito, nas escutas interceptadas, com um estado ou um poder «fechado, provinciano e antiquado».

 

Não me vou deter sequer nos (des)qualificativos.

 

A questão coloca-se, desde logo, no substantivo.

 

Sabemos que, sem entrar em polémicas, o facto de a Igreja ser dirigida a partir de um estado encerra um considerável índice de problematicidade.

 

É certo que, hoje em dia, não estão em jogo as pretensões de outrora. Trata-se-á de uma forma de agilizar uma presença que se deseja universal, junto de todos.

 

Mas não há dúvida de que a figura de um estado é difícil de articular com o princípio bíblico-teológico que alicerça a Igreja.

 

Não esqueçamos que o Fundador (e perene Fundamento) da Igreja deixou bem claro que recusava qualquer reino deste mundo.

 

No seu propósito de presença em todos os espaços, a Igreja foi assimilando as formas de ser e estar de cada ambiente. Em Roma, assimilou o império.

 

Daí que tenha pertinência a observação do Prof. Juan Laboa Gallego, reputado historiador, quando dá voz «à impressão de que em Jerusalém ficou a coroa de espínhos e em Roma a tiara». Já agora, também em Belém terá ficado a manjedoura.

 

É claro que há sempre o risco de subsistir algum simplismo nestas sínteses. Elas valem sobretudo pela sua dimensão simbólica. É sabido que Pedro e Paulo não foram para Roma à procura de qualquer poder. Eles mantiveram-se sempre pobres e foram até martirizados. O problema veio depois.

 

Talvez impressione que, volvidos tantos séculos e atenta a vontade de refontalização, ainda não se tenha optado por um despojamento maior.

 

Ninguém estará à espera de que, nos próximos tempos, apareça um papa Cirilo (personagem central de As sandálias do pescador, de Morris West) a desfazer-se por completo do Vaticano.

 

Mas não há dúvida de que era tempo de, também neste ponto, nos aproximarmos mais de Jesus. Não convencemos apenas pelas palavras. Aliás, ninguém será convencido pelas palavras se os gestos não estiverem em conformidade com elas.

 

Reitero que não valerá a pena criar polémicas. Mas é indiscutível que o estado do Vaticano é mais filho do tempo do que emanação de Cristo.

 

Uma Igreja pobre será a maior riqueza que teremos para oferecer.

publicado por Theosfera às 11:06

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