O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2010

 1. Bem gostaríamos que o Natal nos transformasse, a nós. Mas verificamos, cada vez mais, que somos nós que estamos a transformar o Natal. A transformar e, o que é pior, a transtornar.

 

Continuamos a celebrar o Natal nas datas de sempre, mas vivemo-lo de um modo cada vez mais distante da sua génese, da sua identidade.

 

O Natal está, crescentemente, marcado pela cadência das propostas comerciais e condicionado pelo volume das carteiras.

 

Tornou-se, assim, o Natal a época em que o consumo atinge proporções descontroladas. A crise pode inabilitar um pouco as despesas, mas não altera significativamente os gastos.

 

Dir-se-á que tudo isto é inevitável, o que não quer dizer que seja aceitável, humanizante.

 

Até partilhamos bastante do que é nosso. Mas será que damos o suficiente de nós?

 

O excesso de coisas contrasta, flagrantemente, com o défice de presença, de afecto, de amor.

 

2. Se repararmos bem, é o Natal uma das épocas em que mais corremos, quando o Natal é, todo ele, um convite ao recolhimento.

 

É certo que a azáfama do Natal nos leva ao encontro das pessoas que estimamos. Mas, mesmo aí, sentimo-nos sobressaltados, envolvidos pelas agruras e devorados pela ansiedade.

 

Há muita partilha nesta altura. A solidariedade é excitada de forma acrescida por estes dias. Pena é que, depois, tudo se esbata.

 

As necessidades não terminam no Natal. Há gente que sofre e geme durante todo o ano. Ainda bem que, ao menos, o nosso altruísmo consegue ser despertado.

 

Mas, apesar de tudo, há qualquer coisa que nos deixa descompensados.

 

Toda esta onda de solidariedade, em si um bem precioso, não consegue extinguir as chamas de egoísmo que alastram no nosso coração.

 

Esta é a quadra em que o dou para que me dês parece ter mais aplicação.

 

É claro que há momentos de convívio que perduram na lembrança, mas é tudo tão formatado que mal há lugar para a surpresa e para o encanto.

 

 

3. Apesar dos constrangimentos, ainda sobejam sinais de Natal no exterior. O que parece é escassear sinais de Natal no interior.

 

O Natal está cada vez mais perto no tempo. Mas não é seguro que esteja mais perto da vida, da nossa vida.

 

Há cada vez menos Natal no espírito e é por isso que há também cada vez menos espírito de Natal.

 

A impressão que mais flutua é a de que, por esta altura, todos andamos a representar um papel.

 

Procuramos figurar aquilo que devíamos ser mas que, na realidade, não somos.

 

Tentamos mostrar que somos bons, tolerantes e dadivosos. A vida, porém, documenta, com extremos de crueldade, que continuamos bem longe da bondade e da tolerância.

 

É por isso que, nestes momentos, a falsidade é ainda mais dolorosa.

 

O mal não é o clima destes dias. O mal é ele não corresponder à verdade. O mal é que ele rapidamente se apaga.

 

Para António Gedeão, Natal é o dia de ser bom. Só que o dia de Natal não devia ter umas meras vinte e quatro horas. O dia de Natal devia ser esticado, alongado.

 

É por isso que encontro muitas lágrimas neste tempo. Há quem sofra ainda mais pelo Natal.

 

Porque sabe que não há Natal nem sequer no Natal. Porque sente que, nesta altura, a hipocrisia é ainda mais difícil de suportar.

 

 

4. O mais curioso é que não precisávamos de tanta coisa para reaprendremos o verdadeiro espírito de Natal.

 

Bastava que nos olhássemos de maneira diferente. Bastava que pautássemos a nossa existência por padrões de verdade, autenticidade, franqueza e justiça.

 

Bastava que nos lembrássemos não apenas dos nossos direitos, mas também dos nossos deveres.

 

Bastava que fizéssemos tudo para não magoar ninguém. Bastava que honrássemos a palavra dada e que não faltássemos aos nossos compromissos.

 

Bastava, no fundo, que não nos colocássemos no centro. Bastava que percebêssemos que não somos nada sem os outros.

 

Bastava que compreendêssemos que a maior riqueza é um coração puro.

 

Só um coração que chora e sorri, que abarca e abraça, que se comove e encanta, é capaz de nos reconduzir a Jesus.

 

É no coração habitado pela bondade que brilha a mais reluzente estrela de Natal.

 

publicado por Theosfera às 11:41

De Theosfera a 6 de Dezembro de 2010 às 15:23
Do fundo do coração, muito obrigado aos dois.
Abraço amigo no Senhor.


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