O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

1. A verdade está na adequação.

 

Eis uma verdade antiga sobre a verdade. Não será, contudo, apenas uma parcela da verdade?

 

Não será tempo de perceber que a verdade se encontra, também e acima de tudo, na transformação?

 

É sabido que a verdade sempre nos surgiu ungida com o selo do imutável, do perene, do definitivo.

 

Sucede que, não raramente, se confundia verdade com simples percepção. E não obstante, faziam-se juízos, proferiam-se sentenças e matavam-se condenados.

 

Quantas não têm sido as vítimas de verdades que, no fundo, não passavam de erros?

 

O problema maior nem sequer estava no erro. Estava na presunção de o referido erro ser uma verdade de tal importância que seria legítimo eliminar quem a não afirmasse.

 

Acontece que a verdade não autoriza a condenar. Como pode estar na verdade quem condena?

 

Como pode estar na verdade quem não percebe que a dignidade da pessoa está acima das posições que possa tomar?

 

Entre uma afirmação, por muito segura que nos pareça, e um ser humano, poderá haver a mais leve hesitação?

 

 

2. O perigo da verdade como adequação reside neste ponto.

 

É que, ao contrário do que preceituava Aristóteles, a verdade pode deixar de ser encontrada na realidade para ficar ao puro arbítrio da autoridade.

 

Será que a verdade deverá depender da autoridade? Não deverá ser, antes, a autoridade a depender da verdade?

 

Xavier Zubiri mostrou que a primeira grande tarefa da sabedoria é discernir. E esta é uma missão que radica na consciência. Não é um ditame imposto por uma qualquer autoridade.

 

Ainda assim, aceita-se que, no plano lógico, a verdade como adequação tenha a sua pertinência. Se uma parede é branca, não posso dizer que é preta.

 

Não obstante, há que ressalvar que, mesmo neste plano, é preciso ter cuidado com possíveis distorções.

 

A mesma realidade desponta, por vezes, emoldurada em diferentes leituras sem que seja lícito pôr em causa a seriedade de quem as faz.

 

O mesmo sintoma pode desaguar em diagnósticos diversos. As mesmas pessoas numa multidão podem dar lugar a números distantes. O mesmo texto pode oferecer interpretações totalmente díspares.

 

É caso para deduzir, parafraseando Napoleão, que olhar para a mesma realidade não quer dizer que, nela, se veja a mesma coisa.

 

 

3. Estas cautelas impõem que, no âmbito existencial, a verdade não possa ser vista como mera adequação. Na vida, a verdade está sobretudo na transformação.

 

Também aqui a ajuda de Zubiri é preciosa. O desígnio de cada um não há-se ser possuir a verdade, mas deixar-se possuir pela verdade.

 

Não pensemos que a verdade é monocolor ou que se presenteia apenas a alguns iluminados.

 

É preciso ter presente que a verdade tem muitas aparições. Mais que possuí-la (pretensão, aliás, inviável) ou impô-la (ambição totalmente descabida), do que se trata é de procurá-la.

 

Para quem procura, cada encontro não é termo, mas etapa e alento para nova busca.

 

Facilmente notaremos que não é a verdade que tem de se adequar a nós. Nós é que temos de nos adequar à verdade. É ela que nos molda, que nos configura.

 

Daí que a verdade esteja do lado da abertura, da mudança. Ela nunca pode ser aprisionada.

 

A história atesta que a verdade não está na conformidade nem, muito menos, na resignação.

 

 

 Próximo da verdade não está, pois, quem se conforma, quem se resigna. Próximo da verdade está quem se transforma.

 

 

4. Sobra, entretanto, uma pergunta. Em que consiste a transformação proporcionada pela verdade?

 

As surpresas são incontáveis, mas uma certeza é indesmentível. A verdade aparece-nos sob todas as formas, mas nunca fora da bondade.

 

Sem bondade, até a verdade é menos verdadeira. Sem bondade, aliás, nem a beleza seria bela.

 

Só quando nos transformarmos pela bondade, encontraremos o acesso à verdade.

 

Daí que, segundo Agostinho da Silva, o cume do conhecimento não esteja na verdade. «O supremo entender é mesmo a bondade»!   

publicado por Theosfera às 11:59

De António a 29 de Novembro de 2010 às 13:49
Quando Eduardo Lourenço se encontrou com Agostinho da Silva e o considerou um dos mais extraordinários homens que tinha conhecido, igualmente corroborado por Fernando Nobre, que também foi amigo desse Mestre,ficou estupefacto quando Agostinho da Silva lhe apareceu sorrindo, com uma tarântula na palma da mão. Eduardo Lourenço disse, num dos livros que prefaciou, que presenciou essa cena como manifestação simbólica do domínio do Mal. Há poucos anos fui também com o meu filho a uma pequena reserva de animais. À saída o meu filho fez festas no bico de uma ave selvagem, cujo nome não me recordo. O tratador ficou em pânico, dizendo que era muito perigoso o meu filho ter acariciado essa ave. Mas a Bondade tudo pode: até dominar o Mal...


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