O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 04 de Novembro de 2009

 

Na escatologia, importa não descartar esta possibilidade: o homem, no uso da liberdade, resolve instalar-se na sua auto-suficiência, negando-se a Deus e recusando a Sua oferta de salvação.
 
Ou seja, é Cristo quem nos salva, mas é sempre o homem que se pode (auto)condenar. É uma elementar decorrência da liberdade.
 
A situação decorrente desta decisão livre do homem contra Deus recebe o nome de inferno.
 
Esta é, sem dúvida, a suprema ousadia, a máxima insolência. Quem é o homem — perguntar-se-á — para dizer não a Deus? E sobretudo para pronunciar um não definitivo? Que, no fundo, traduz um não definitivo a si próprio?
 
Trata-se, no entanto, de uma possibilidade que resulta da liberdade humana. Possibilidade, de resto, claramente afirmada por Jesus (cf. Mt 25, 31ss.). Alguém se sentirá livre se só puder dizer sim?
 
Se o homem não pudesse recusar Deus, como poderia aceitá-Lo? O chamamento à salvação pressupõe, portanto, a possibilidade da perdição. Como diz Luis Ladaria, «as duas possibilidades estão intimamente relacionadas e só se sustentam uma com a outra».
 
Não se infira daqui, porém, que há uma simetria, na escatologia cristã, entre o céu e o inferno. Ou seja, não se conclua que as duas possibilidades estão no mesmo plano.
 
Não. É que, além de nos chamar à salvação, Deus proporciona-nos todos os meios para a alcançarmos. O maior dos quais é o Seu próprio Filho. Que Se ofereceu a Si mesmo por nosso amor. O caminho está aberto (Jo 14, 6).
 
Por conseguinte, só uma recusa deliberada e consciente do desígnio de Deus nos afastará d'Ele para sempre.
 
A vontade divina é que todos os homens se salvem (1 Tim 4, 10). Deus não destina ninguém para a condenação. Pois, como afirma Olegario González de Cardedal, «o juízo de Deus não inova nada, mas revela tudo».
 
Assim sendo, é a nossa existência terrena que se vai tornando construção de céu…ou de inferno.
 
publicado por Theosfera às 11:26

De António a 4 de Novembro de 2009 às 13:54
Gosto imenso,meu bom Amigo, de ler os seus textos,sempre plenos de grande elevação, sensibilidade e inteligência. Mas,neste aspecto,com a maior estima, discordo que " só uma recusa deliberada e consciente do desígnio de Deus nos afastará D´Ele para sempre". Jesus, no seu tempo, falou por metáforas. E só se assim se pode entender que Ele não se tenha enganado em relação ao momento da Parusia, que aparece nos Evangelhos como temporalmente próximo da vida dos apóstolos.Tomados à letra esses textos escatológicos, então Cristo ter-se-ia enganado,o que não é um concebível num Ser Divino.Por isso, também a questão do Inferno, merece, na minha modesta visão,outra interpretação.Eu não acreditaria em Deus se Ele actuasse nos termos que o meu bom Amigo situa.Ou seja, permitindo objectivamente que algum dos Seus filhos se perdesse para sempre no Inferno. Este lugar,que não é obviamente físico mas de mera consciência,será sempre transitório e nunca perpétuo. No fundo,embora a Igreja Católica distinga Inferno e Purgatório,o Inferno acaba por ser de facto um Purgatório transitório. Quererá isso dizer que,se assim for, Deus nos condenou a todos à Perfeição ? Sim. Mas Deus concedeu-nos a faculdade de sermos nós a determinar quanto tempo da Eternidade vamos necessitar para lá chegar...

De Maria da Paz a 4 de Novembro de 2009 às 13:56
Rev.mo Senhor Doutor:
Muito obrigada pela delicadeza!
Discreta e oportuna.

Deus me perdoe dizer isto: mas este Mundo parece-se tanto, com o Inferno! (Há tanto sofrimento! E de tantas maneiras!Há tanta degradação e tanta humilhação bárbara! E cada um de nós pode fazer tão pouco para aliviar tanto sofrimento! Às vezes, quase à nossa porta!)
Muito bem-haja!
Afectuosamente,
Maria da Paz

De Maria da Paz a 5 de Novembro de 2009 às 01:50
Rev.mo Senhor Doutor:
Acabo de ler, no jornal "Douro Hoje", o magnífico artigo de V. Rev.ª :«Algum ateu por causa de Saramago?» Quase tudo, neste texto, aponta para a infinita Bondade de Deus, mesmo se somos ateus ou infiéis.
Quando eu julgava que Deus era omnipotente, um pouco como um "mágico", não entendia por que razão Ele não consertava, de vez e instantaneamente, este Mundo que enlouqueceu. Bom, depois de algumas perguntas angustiadas, percebi, creio, que Deus é omnipotente no seu Amor infinito.
Pelo texto de V. Revª perpassa a solicitude amorosa do Bom Pastor.
No lugar do nome de Saramago, poderia estar o meu... o de muitos de nós.

Depois de tudo o que V. Rev.ª escreveu, e meditando na Paixão e Morte de Deus por mim, por nós, poderei não acreditar na omnipotência do Amor de Deus, mesmo se eu O abandonar, mesmo se eu O atraiçoar, mesmo se eu me autocondenar ? A única Pessoa, em todo o Universo, que morreu por mim foi o Filho de Deus. Creio que, mesmo às portas do Inferno, o Preciosíssimo Sangue de Jesus clamaria por mim, num brado de Amor - ainda que eu me autocondenasse .

Creio que, nos últimos segundos de vida, o deslumbramento da visão do Rosto de Deus nos arrebatará para Ele. Mesmo que tenhamos sido muito maus. Em Deus tudo se resolve, creio.
Se todas as Mães do Mundo perdoam tantos disparates ( e, às vezes, muito graves) a seus filhos, muito mais Deus nos perdoará, julgo. Ou será heresia o que acabo de dizer?

Quando era criança, e contra tudo o que me ensinavam, eu rezava também por Satanás e pelos pecadores caídos no Inferno - para que fossem perdoados e salvos. A minha Esperança e Fé em Deus iam até aí.

Não quero retirar a responsabilidade ao Homem. Mas julgo que a Misericórdia Divina é muito maior do que os nossos pecados negros.
É certo que Deus nos deu liberdade. Contudo, devido às vicissitudes da vida e a todos os condicionalismos que nos enleiam, julgo que nem todas as pessoas têm o mesmo grau de liberdade e a mesma consciência dos seus actos. Maus ou mesmo bons.
Peço desculpa de todas estas perplexidades e interrogações.
Prefiro, às vezes, não pensar muito e acreditar em Deus, só. Não em mim.

«O problema é se nós, em Igreja, não aproximamos ninguém de Deus.»
Esta frase de V. Rev.ª tão pertinente, faz-me pensar na responsabilidade que temos de sermos portadores de Cristo. Temos de ser mais coerentes, mais atentos e mais solícitos para com os Irmãos. Todos. Mas do fundo da alma. Penso que a cortesia de que devemos usar, como uma das marcas do respeito e da Caridade que devemos aos Outros, é também, uma atitude de apostolado. E não é uma atitude menor.
«Sou humano e nada do que é humano me é estranho» - dizia Terêncio, ainda antes de Cristo .
Se nós, Cristãos, seguíssemos esta máxima de Terêncio (um pagão) , no quotidiano, nas pequeninas coisas, em ordem ao Amor pelo Próximo, na preocupação da Felicidade alheia, o Mundo seria bem melhor - e (penso eu) haveria muito menos ateus. Mas falta-nos, muitas vezes, o sorriso carinhoso e caloroso, sincero; a atenção cuidada e delicada, sincera; o empenhamento honesto na ajuda aos Outros. Muitas vezes seria preciso escutarmos os Outros. Ajudá-los a encontrar-se e, sobretudo a encontrar-se com Deus.
As caras pouco acolhedoras de alguns Cristãos , o seu egoísmo (já inconsciente de tão empedernido), os maus exemplos, a vaidade da própria piedade e a presunção da própria santidade - num afastamento, falsamente santo, dos "outros", "os pecadores" - tudo isto é matriz de ateus e de pessoas revoltadas. Como muito bem diz V. Revª (e cito um pouco livremente) «Deus é mais vítima daqueles que cá dentro [da Igreja] se comportam como ateus e obscurecem Deus.» Que faltas de Amor terá Saramago sentido da parte dos Cristãos (baptizados) que farisaicamente frequentam a Igreja (e as Igrejas) de Cristo?
Há "Cristãos" que "riscam", do Decálogo, o 2º Mandamento da Lei de Deus. Entendem, decerto, que os outros nove são suficientes...
O ateísmo de muitos pode ser da minha responsabilidade de Cristã sem verdadeira e sentida Caridade. Demonstrada na Vida (na Vida do meu Próximo) e não só dentro de mim - às vezes num 'autismo' que é mais egoísmo e arrogância do que Amor a Deus.
Maria da Paz

De Anónimo a 5 de Novembro de 2009 às 12:51
Parabéns, Maria da Paz, por este texto magnífico. Qualquer pessoa gostaria de o ter escrito, ma o essencial seria que consegíssemos, no nosso quotidiano. vivenciar o que nele vem explícito.Muito bom, continue-

De Maria da Paz a 5 de Novembro de 2009 às 23:37
Ex.mo Senhor:
Muito bem-haja.
Que Dues o abençoe.
Os meus cumprimentos.
Maria da Paz


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