O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

1. Confesso que também eu fiquei surpreendido com as declarações do Papa acerca do uso do preservativo.

 

Não se trata, como ressalva o porta-voz do Vaticano, de uma revolução. Mas é inquestionável que estamos perante uma mudança.

 

Tal mudança não ocorre no terreno dos princípios. No seu mais recente livro, uma prolongada entrevista com o jornalista Peter Seewald, Bento XVI mantém que «não considera a utilização de preservativos uma solução verdadeira e moral».

 

Neste sentido, reassume que «a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa».

 

Onde está, então, a mudança? No campo das situações concretas.

 

Recorde-se que, em Março de 2009, na primeira vez em que usou a palavra preservativo, o Santo Padre sustentou que «não se resolve o problema da SIDA com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o problema».

 

Actualmente, reconhece que «o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana».

 

Ou seja, onde antes o preservativo não era sequer admitido como último recurso, agora é equacionado como um primeiro passo. 

 

Mesmo assim, lembra «a chamada teoria ABC, que defende Abstinence – Be faithful – Condom (“Abstinência - Fidelidade - Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam».

 

Dá um exemplo: «Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por prostitutos, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade».

 

 

2. É importante notar que estas duas tomadas de posição aparecem não através de um acto formal do magistério, mas mediante a modalidade de entrevista. Isto não retira qualquer impacto ao respectivo conteúdo. Tanto mais que é a primeira vez que um Papa não recusa o uso de um anticonceptivo não natural ainda que visto como terapia e com as reservas apontadas.

 

As reacções que se fizeram ouvir certificam que muitos católicos já não aferem os seus comportamentos pelo magistério da Igreja. A utilização do preservativo é muito mais vasta do que aquela que, agora, se entrevê como residual.

 

Outro dado a reter é que o próprio magistério não é indiferente à realidade nem aos dramas que se vivem no mundo.

 

Na missão da Igreja, não cabem apenas princípios. Cabem também (e bastante) atitudes.

 

Ora, a atitude prioritária de quem se presume discípulo de Jesus Cristo é a misericórdia, a compaixão, a tolerância.

 

A mensagem deve ser continuamente anunciada. Os princípios hão-de ser sempre urgidos. Mas a compreensão nunca poderá ser esquecida nem sequer negligenciada.

 

Jesus foi sempre claro na doutrina. Mas não deixou de ser compassivo para com os que pensam e vivem de maneira diferente.

 

Tiago, aliás, percebeu isto muito bem quando disse que o juízo será sem misericórdia para quem não usa de misericórdia (cf. Tg 2, 13).

 

A Igreja, enquanto corpo de Cristo, é, ao mesmo tempo, a casa da verdade e a morada da misericórdia.

 

 

3. Acresce que a presença de Deus não pode ser deduzida somente da palavra revelada, pela linguagem. Ela ocorre também no segredo da consciência.

 

Tenhamos presente que, como avisa o próprio Jesus, Deus vê no segredo (cf. Mt 6, 1-6). E não é seguramente em vão que o Vaticano II chama à consciência o santuário secreto onde o Homem se encontra com Deus.

 

Como é sabido, a linguagem pública não é a mesma que a linguagem privada, íntima. «A palavra de Deus, como sublinha Simone Weil, é também a palavra secreta».

 

Uma pessoa não há-de ser estigmatizada por decisões que toma em consciência e, muitas vezes, no meio de condicionantes que chegam a ser dramáticas.

 

Mesmo quando não há sintonia, a alternativa nunca pode ser a exclusão. Ser católico (e, portanto, universal) é ser perito na arte na conjugação.

 

 

4. Simone Weil confidencia que o uso das palavras anathema sit foi o motivo que a «impediu de franquear as portas da Igreja». É igualmente esse a razão para que muitos a abandonem ou se desencantem com ela.

 

O legado de Jesus Cristo implica uma «solução harmoniosa entre indivíduos e comunidade». E esta harmonia passa, inevitavelmente, por um «justo equilíbrio de contrários».

 

A ética da responsabilidade, tão enfatizada por Bernhard Häring, não é um exclusivo de alguns. Deus distribuiu-a por todos.

 

Encaremos, pois, esta intervenção papal com serenidade de ânimo e como uma demonstração de sensibilidade por tanto sofrimento derramado pelo mundo.

 

 

publicado por Theosfera às 11:50

De Ferdinand a 22 de Novembro de 2010 às 09:58
Esta sensibilidade pelo sofrimento alheio que compromete a doutrina ainda vai nos arrastar todos ao inferno.

De António a 22 de Novembro de 2010 às 13:48
Todos não. Apenas aqueles que são insensíveis ao Sofrimento Humano...

De Mª Amélia a 22 de Novembro de 2010 às 14:35


Caro Ferdinand:

Com toda a serenidade e confiança no Senhor que, para além de tudo é Misericordioso poderemos reflectir melhor, neste tema.

Ao mesmo tempo, pessoas ligadas ao pontífice, tentaram minimizar o alcance da afirmação que foi feita e que gerou alguma polémica. Repare:

"A doutrina católica não muda, o uso do preservativo está proibido", afirmou Giovanni Maria Vian, editor do L'Osservatore Romano.

"O sumo pontífice refere-se a um acto de caridade e não à mudança da doutrina", destacou o escritor católico Vittorio Messori.

Estou a lembrar-me, por exemplo de um eventual casal, em que um dos cônjuges possa estar contaminado pelo HIV. Podem, ainda existir outras situações, igualmente dramáticas em que se "justifique" o uso do preservativo.

O Papa considerou uma "situação excepcional, na qual o exercício da sexualidade é um perigo real para a vida do outro", afirma Lombardi em comunicado.

Portanto, aqui o próprio "contaminado" tem caridade pelo outro, onde, revela alguma "responsabilidade"...lógico que é um mal menor.

Estamos a lidar com situações extremas e não com mudança de doutrina...digo eu...até porque Bento XVI já deu provas de grande "maturidade" Teológica e ideológica.

Além disso coloca o "dedo na ferida"...e vai facilitar o diálogo...com a convicção de que "o preservativo não é a solução"...é, pelo contrário, um meio inseguro muito precário, contra a contaminação do HIV...

Cordialmente em Cristo

Maria Amélia


De António a 22 de Novembro de 2010 às 20:35
Nós vivemos num mundo real, não ficcionado. Um mundo real onde a prostituição existe, o sexo desbragado também. A sida também. Os comportamentos de alto risco também. E ainda num mundo real onde tantos, que se casam e prometem recíproca fidelidade sexual, não cumprem. Um mundo real onde alguns padres católicos abusaram sexualmente de crianças. Mundo real, bem real. Num mundo ilusório é muito fácil traçarmos regras de conduta como quem pega numa régua e compasso e traça os destinos do mundo. Mas o mundo real não funciona assim. É mesmo real. Uma amiga minha dizia-me há uns anos com fina ironia: " educa-se muito bem os filhos dos outros". É verdade, falar sobre a educação dos outros é muito fácil. Mas o mundo real, esse, é bem real...

De Theosfera a 22 de Novembro de 2010 às 21:03
Mais uma vez, muito pertinentes as suas reflexões. Obrigado. Abraço amigo no Senhor.


mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9





Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
online
Number of online users in last 3 minutes
vacation rentals
citação do dia
citações variáveis
visitantes
hora
Relogio com Javascript
relógio
pela vida


petição

blogs SAPO


Universidade de Aveiro