O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 03 de Novembro de 2009

 

Parece que foi ontem e já vai fazer vinte anos. O muro que se afigurava inderrubável afinal desmoronou-se.
 
O poder da vontade finalmente levou a melhor sobre a vontade de poder.
 
Naquele dia 9 de Novembro de 1989, sentimo-nos todos, uma vez mais, berlinenses.
 
Não era apenas um povo, o alemão, que se reunificava. Eram civilizações, desavindas, que se reaproximavam. Eram sonhos, distantes, que se materializavam.
 
O futuro estava ali. Tinha-nos visitado e mostrara vontade de ficar. Se o fim da História é a reconciliação e a paz, a História dava a impressão de ter encontrado o seu fim: o seu fim sonhado, o seu fim chorado, o seu fim sofrido, o seu fim conseguido e celebrado…
 
Mas, ao contrário do que pensavam muitos como Francis Fukuyama, o fim da História não se decreta em momentos de deslumbramento.
 
Depressa nos apercebemos de que a queda do muro constituiu uma realidade que não foi totalmente integrada e um sinal que não foi plenamente acolhido.
 
O muro caiu no exterior. Mas rapidamente outros muros se ergueram no interior: no interior da humanidade, no interior dos povos, no interior das comunidades, no interior das famílias, no interior das pessoas.
 
O adversário, quiçá o inimigo, já não é apenas o outro país. É, muitas vezes, a outra pessoa.
 
Se repararmos, os noticiários inundam-nos tanto com a pequena criminalidade como com os grandes conflitos.
 
O homicídio do vizinho (e, não raramente, do próprio familiar) ocupa tanto espaço como os ataques no Iraque ou os atentados no Paquistão.
 
 
2. O mundo está diferente e, por estranho que pareça, está também mais indiferente.
 
Há um muro crescente — e cada vez menos invisível — entre as pessoas, entre cada pessoa e o resto da sociedade, entre cada pessoa e o resto da humanidade.
 
Que elos de ligação subsistem? Que projectos comuns se mantêm?
 
Sem nos apercebermos, fomo-nos habituando a olhar para o outro como aquele que nos pode passar à frente na escola, como aquele que pode ficar com o nosso emprego, como aquele que pode remover-nos do nosso lugar, da nossa posição.
 
Como escreve Daniel Innerarity, «o estudo da sociedade dá-nos, hoje, a imagem de um campo desestruturado».
 
A sociedade está a deixar de ser uma agregação de pessoas que interagem para passar a ser, cada vez mais, uma federação de interesses que conflituam e, inevitavelmente, colidem.
 
O que há de comum não é um pensamento, um projecto ou um ideal, mas a exclusão, o risco e a simulação. Para Daniel Innerarity, «a centralidade destas dimensões ainda não converteu a sociedade numa coisa irreal, embora o pareça, mas impõe-nos a necessidade de modificar o nosso conceito de realidade».
 
 
3. Mudar sempre foi uma necessidade e impõe-se, crescentemente, como uma urgência.
 
Também este mês faz dois anos que o Papa Bento XVI alertou para esta prioridade.
 
«É preciso mudar!» Foram as palavras que saíram dos lábios do Santo Padre no dia 10 de Novembro de 2007.
 
O desígnio da mudança é transportado pela Igreja de Cristo desde sempre. Não se trata só de reconhecer a mudança. Trata-se, acima de tudo, de corporizar e de oferecer a mudança.
 
A Igreja não pode limitar-se a analisar as mudanças que se operam na realidade do mundo. Ela mesma tem de ser uma proposta de mudança dentro dessa mesma realidade.
 
4. Causa perplexidade verificar que, em Igreja, há quem prefira as mudanças operadas na realidade à mudança trazida pelo Evangelho.
 
Existe uma espécie de resignação perante as mudanças em curso no mundo e uma resistência à mudança proporcionada por Cristo.
 
Só que, ao invés do que se possa julgar, não é assim que melhor se serve as pessoas.
 
O mundo espera da Igreja algo diferente porque sente que a Igreja é portadora de uma diferença. Para dizer o que toda a gente diz e fazer o que toda a gente faz não é preciso haver Igreja.
 
Sucede que, na própria Igreja, se erguem muros. Nem o Papa está livre. Tantas vezes ele é aplaudido. Mas quantas vezes será seguido?
publicado por Theosfera às 16:31

De António a 3 de Novembro de 2009 às 17:04
O Muro de Berlim caiu. Mas foi apenas a queda de um Muro entre milhões que se mantêm erguidos. Com a Queda desse Muro e com o desabar do Império Soviético, muitos terão pensado que se teria cumprido a profecia da Senhora de Fátima em relação à " Conversão da Rússia". Mas que especial " Conversão" foi essa ? A substituição de uma nomenclatura ditatorial pelas ditaduras das Mafias de Leste e pela opressão que ainda se faz sentir sobre, por exemplo, as pretensões independentistas da Tchétchénia ou da Geórgia ? Os regimes ditos comunistas tinham muitos defeitos, por certo. Mas não é Cuba um dos países com maior índice de educação e de cultura e um dos que está mais avançado na luta contra a mortalidade infantil? Não é a Cuba que se dirigem muitos doentes que padecem de problemas de foro neurológico ? E o que é que se passa com os milhões de seres que dormem ao relento nas ruas dos países ditos desenvolvidos? Não há neles também tantos muros para cair? E porque é que, agora que Fátima está aparentemente cumprida, não desce Nossa Senhora dos céus à Terra para censurar todos essas iniquidades e muros que falta tombar ? Façamos a Justiça de acreditar que Nossa Senhora é imparcial no que tange às injustiças e que não enferma de nenhum preconceito exclusivamente anticomunista. Então porque é que agora não vem ?...

De Anónimo a 4 de Novembro de 2009 às 10:56
Caro António, Nossa Senhora não tem que vir, sabe porquê? Porque Ela nunca nos deixou. Ela está, como sempre esteve, junto de nós e connnosco. Nós, humanos, distraídos o ocupados com tudo o que é material (como a opulência, vaidade, orgulho, inveja, etc, etc, é que não nos apercdebemos da Sua presença entre nós.


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