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Sábado, 13 de Novembro de 2010

Não é só a crise que é preocupante. É-o também a falta de rumo perante a crise, a falta de confiança que é transmitida aos cidadãos.

 

E já não é só o presente que está comprometido. É também o futuro que já aparece ameaçado.

 

O orçamento foi aprovado, mas todos alvitram dificuldades na sua execução.

 

Há, em suma, uma sensação de impotência na classe política.

 

Estamos, portanto, numa situação de excepção. E situações de excepção requerem soluções de excepção.

 

É sobretudo em alturas como esta que há que esquecer interesses de partido e de grupo, para priorizar, de uma vez para sempre, o interesse nacional.

 

Já chega de instabilidade. Precisamos de estabilidade económica, de estabilidade social e de estabilidade política.

 

O interesse nacional reclama que os partidos se entendam. É impressionante como, numa hora tão crítica, não falta quem assuma esperar por novas eleições. Mas quem garante que de tal acto eleitoral saia uma solução consistente?

 

Nenhuma sondagem indica tal possibilidade. Nenhum partido se aproxima da maioria absoluta. E, depois, a poucos parece que o PSD seja substancialmente diferente do PS. Será uma alternância, mas não uma autêntica alternativa.

 

Penso que, na actual composição parlamentar, ainda é possível vislumbrar um caminho e tentar uma possibilidade. Mas, para isso, é fundamental um acto de humildade dos líderes.

 

Deviam pedir a personalidades que se destacassem pela maturidade, pela seriedade e pela sensatez que dessem um derradeiro contributo ao país neste momento crítico.

 

Como, em princípio, o PCP e o BE não pretenderão entrar num acordo de governo, o PS, o PSD e o CDS deviam ser chamados a abrir espaço a uma solução estável.

 

Antes de mais, deveriam entender-se quanto ao nome do primeiro-ministro. Tendo em conta a sua trajectória e as ligações aos três partidos (foi fundador do CDS, candidato presidencial apoiado pelo CDS e PSD e ministro de um governo PS), o Prof. Freitas do Amaral seria uma possibilidade a ter em conta.

 

Estou convencido de que esta é a última hora dos fundadores do regime. E Freitas do Amaral é o único sobrevivente, à excepção de Mário Soares, que aliás já desempenhou o cargo de presidente da república.

 

Recorde-se que Freitas do Amaral seria um nome respeitado lá fora até porque desempenhou, com êxito, o cargo de presidente da mesa da assembleia geral das Nações Unidas.

 

Fundamental seria, como é óbvio, a escolha do ministro das finanças. Os mercados estão agitados e, pelos vistos, desconfiados em relação a Portugal. É neste sentido que dois nomes me ocorrem: António Borges (que acaba de ser nomeado para a delegação europeia do FMI) e Carlos Horta-Osório (que acaba também de ser nomeado para o Lloyds Bank).

 

Numa fase em que a credibilidade é tão importante, o sinal que seria dado com qualquer um destes nomes está acima de todo o questionamento.

 

Se, entretanto, as finanças são importantes, a solidariedade social é decisiva. Num tempo em que tanta gente não tem o necessário para comer, precisamos de alguém com pensamento e dinamismo nesta área. O nome que, imediatamente, me salta à lembrança é o de Alfredo Bruto da Costa. Mas Eugénio da Fonseca também seria alguém a equacionar.  

 

A educação precisa não só de uma acção no curto prazo, mas de uma profunda reforma de médio e longo alcance. Aliás, aqui reside um dos problemas vitais do nosso país.

 

A educação, sem desdouro por quem tem dado o seu melhor, tem regredido enormemente. Há um excesso de intervencionismo e de controlo, uma insistência desmedida no conhecimento instrumental e um desguarnecimento confrangedor nas humanidades. Ninguém está contente: nem professores, nem alunos, nem famílias.

 

Nesta área, há dois nomes que fariam certamente um bom lugar. Têm pensamento estruturado e experiência acumulada: António Nóvoa e Nuno Crato.

 

O ministério da educação devia abranger igualmente a cultura e a investigação, até porque uma das prioridades de um governo em tempo de crise deveria ser a redução do número de ministérios.

 

Um governo mais pequeno, de resto, poderá ser um governo mais coeso e não menos eficaz.

 

A economia poderia, neste espírito, envolver a indústria e a agricultura. Julgo que Daniel Bessa não ficaria mal.

 

Para a saúde, João Lobo Antunes seria uma opção acertada.

 

No que toca à justiça, António Pinto Leite, um homem íntegro e uma personalidade consistente, poderia espoletar as reformas necessárias.

 

Já agora, Mota Amaral poderia figurar nos Negócios Estrangeiros, dada a sua reconhecida ponderação. Mas Luís Amado poderia continuar. Um verdadeiro senhor e uma agradável surpresa neste tempo imponderado. 

 

Estes e outros nomes, pela força que têm, estariam em condições de racionalizar a administração central e local, tão heterogénea, ineficaz e dispendiosa.

 

Tenho, porém, noção de que tudo isto não passa de ficção. Dificilmente os partidos se porão de acordo. E, mesmo que se ponham, as lideranças não quererão ficar de fora.

 

Com todo o respeito, não creio que as actuais lideranças do PS (a actual e as que já se perfilam), do PSD e do CDS disponham de maturidade suficiente para fazer o que tem de ser feito.

 

Prestariam um serviço de enorme relevância se abrissem caminho a alguns dos nossos senadores.

 

Aqueles terão, no futuro, novas oportunidades de mostrar o que valem. Estes dispõem, talvez, do derradeiro ensejo de servir o país. Será derradeiro para eles. Será decisivo para todos nós.

 

Se soubermos aliar a humildade à inteligência, poderemos ser capazes. Mas receio, sinceramente, que, uma vez mais, falte esse ingrediente: a humildade. A única que nos torna verdadeiramente grandes. «Mais alta que a grandeza - dizia Levinas - é a humildade».  

publicado por Theosfera às 20:03

De António a 13 de Novembro de 2010 às 22:29
Por mim, não acredito que seja possível conduzir Portugal a um futuro próspero com os parâmetros económicos que regem o funcionamento do nosso sistema económico e com a desastrosa forma de delapidar recursos públicos. Talvez valesse a pena à classe política tentar perceber porque é que a Noruega é considerado o país mais rico do mundo e a coroa norueguesa uma das mais sólidas a nível mundial. Os noruegueses são apenas 4,9 milhões e o seu território similar ao português. Não pertencem à UE. A Noruega só tem 664 km de auto-estradas. Os supermercados só térreos e de pequenas dimensões.É também um país com um enorme acervo museológico. Nós não temos frota pesqueira sequer digna embora possuamos enormes potencialidades agrícolas. Talvez fosse oportuno perguntar a Cavaco Silva em que é redundou a política de abate de embarcações e de subsidiação de terrenos rurais ao abandono. Porventura seria também bom perguntar aos nossos autarcas porque consentiram na degradação da paisagem pública. Inquirir porque se matou no Algarve a galinha de ovos de ouro do Turismo com a excessiva concentração urbana na orla costeira. Porque se permitiu o novo riquismo bacoco de Vilamoura e tantas outras bizarrices à má maneira lusitana. Há uns anos, uma amiga minha alemã dizia-me que devíamos ser um país muito rico porque nunca tinha visto tantos BMW novos como cá. Ao fim de uma semana de estadia em Portugal, perguntou-me porque já estavam parados há sete dias as obras de um pequeno arruamento quando, na Alemanha, elas seriam feitas numa só noite. Não lhe cheguei a dizer que essas obras iriam estar pendentes pelo menos durante um mês. Nessa altura, não senti vergonha de ser português, mas não consegui evitar uma certa contenção de decoro. Depois, Portugal também não progride porque, ao nível geral da população, ainda existe muita incultura. Fomos criados, durante séculos, numa atitude de subserviência aos poderes instituídos. E, no plano da instrução escolar, fomos habituados a memorizar e a repetir acriticamente o que vinha debitado nas diversas cartilhas e manuais. Resultado: um enorme desastre intelectual que faz que em Portugal ainda seja possível reeleger para cargos públicos pessoas como Valentim Loureiro, Isaltino de Morais e Fátima Felgueiras, criminalmente pronunciados. O mesmo país onde Sócrates passou também incólume aos mais diversos escândalos e o povo entendeu que também devia ser reeleito. O resultado também está à vista: dívida pública perto dos 10%. Os portugueses, no fundo, têm aquilo que não merecem, mas que consentem. Porém, isto vai continuar. Quando começarmos a comer pedras, talvez aí consigamos perceber o quão passivos e coniventes fomos com esta mediocridade e letargia reinantes...

De António a 13 de Novembro de 2010 às 23:25
Errata:

Onde consta"nós não temos frota pesqueira sequer digna embora possuamos enormes potencialidades agrícolas" deve ler-se "...enormes potencialidades piscícolas e também agrícolas".

De Theosfera a 13 de Novembro de 2010 às 23:26
Uma vez mais, muito pertinente este seu texto. Aliás, estava a pensar publicar um post sobre a possibilidade de Portugal estudar atentamente dois casos de sucesso: um é um país com quem temos afinidade emocional (Brasil) e outro é um país com uma dimensão semelhante à nossa e com menos população (precisamente a Noruega). A percepção das prioridades penso que faz toda a diferença. É o que nos falta. A par da instrução, que continua deslocada do essencial. A nossa incultura e o nosso definhamento ético-moral deviam preocupar-nos. Numa hora de emrgência, devíamos dar lugar aos melhores. Falou-se muito, ao longo deste dia, de uma coligação. Pensou-se apenas em partidos. Deviam pensar os partidos em convidar os mais capazes. Mas não tenho ilusões. Ninguém gosta de ser pessimista. Mas temos alternativa?

Abraço amigo no Senhor.

De António a 14 de Novembro de 2010 às 00:31
Estimado Padre João António:

A Noruega e o Brasil são países que, de facto, merecem ser estudados. Mas, do meu ponto de vista, nós, portugueses, temos que fazer uma enorme reflexão sobre as razões que nos deprimem, económica e socialmente,há pelo menos, um século, tomando por referência a implantação da República, mas sem nenhum preconceito ideológico contra o sistema republicano de governação. A crise financeira mundial tinha inevitavelmente que nos atingir, como aconteceu em todo o mundo. Mas, na Noruega, ela não se faz sentir, pelo menos com a gravidade que noutros países. Porquê? Os noruegueses possuem o segundo maior PIB per capita nominal,depois de Luxemburgo, e o terceiro maior PIB per capita do mundo. A Noruega também manteve o primeiro lugar entre todos os países do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano por seis anos consecutivos (2001-2006) e depois recuperou essa posição em 2009.A economia norueguesa é um exemplo de uma economia mista, um estado de bem-estar social capitalista próspero, com uma combinação de actividades de mercado livre e de grandes propriedades estatais em determinados sectores-chave. A Noruega é considerado o país mais rico do mundo, com a maior reserva de capital per capita. Ou seja, a Noruega tempera a actividade privada com elevada propriedade pública. E funciona bem.Possui 6 submarinos de grande porte, mas, pelo que estive a estudar, não tão super- sofisticados como os nossos 2 e alguns até são movidos a energia diesel- eléctrica. Nós desbaratamos os escassos recursos que temos. E, os fundos que recebemos da CEE, hoje UE, o que fizemos deles ? Alguns compraram ferraris. A alternativa que temos, em minha opinião, é que,com " grande coligação" ou sem ela, precisamos de ser muito rigorosos na gestão dos dinheiros públicos e desenvolvermos os sectores prioritários das pescas,da agricultura e da indústria de forma verdadeiramente séria. Quando ouço falar no TGV e no novo aeroporto de Lisboa fico estarrecido com os custos envolvidos e pergunto-me onde é que um país falido vai arranjar os fundos necessários a essas aventuras. E a terra ? E o mar ? E a nossa indústria ? Onde ficam ? Fico chocado quando olho para os barcos dos nossos pescadores e só vejo embarcações medievais. E Portugal com uma enorme ZEE. Penso, estimado Padre João António, que deve ter passado um vírus qualquer por esta parte da Jangada de Pedra e que nos trouxe uma especial doença endémica:o entorpecimento mental.E é tão forte que não se vê na nossa classe política um qualquer grupo de estudiosos que apontem metas económicas estratégicas de desenvolvimento futuristas, claras, bem definidas e sustentadas. Vivemos permanentemente nas tácticas cíclicas do desenrascanço e o resultado está à vista. Portugal a cair na miséria...


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