O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Sábado, 16 de Outubro de 2010

Num mundo em mudança, nem as línguas passam ao lado das transformações.

 

É natural. É inevitável. Mas não será possível introduzir algum critério de qualidade?

 

Como é sabido, uma língua não é um fóssil. Tem o seu dinamismo.

 

O português actual é muito diferente do português escrito e falado há séculos e até há décadas.

 

Se atendermos à oralidade, verificaremos que há bastantes cambiantes entre o português beirão e o português lisboeta, entre o português nortenho e o português alentejano, entre o português de Mirandela e o português das ilhas, entre o português de Portugal e o português do Brasil e dos PALOP. Até entre o português de Lamego e o português de Resende ou de Foz Côa há diferenças notórias.

 

O recente acordo ortográfico parece consagrar a oralidade como critério dominante. A Profª Maria Helena Rocha Pereira assume claramente esta opção.

 

Segundo ela, a língua portuguesa está a afastar-se do critério etimológico para se centrar cada vez mais no critério sónico.

 

É isso que explica que, por exemplo, as consoantes mudas desapareçam. Jornais de referência como o Expresso já se anteciparam e adotaram a nova ortografia. Confesso que é difícil ocultar um sentimento de surpresa e deceção!

 

Sucede que este distanciamento da etimologia afasta as palavras da sua fonte, da sua origem e, portanto, da sua percepção (ou perceção).

 

É certo que esta tendência vem de trás. Também houve estranheza quando Pharmácia passou a Farmácia. Só que, desta vez, propende-se para uma tal radicalização em torno da oralidade que não sabemos qual será o limite.

 

É que, se repararmos bem, a aprendizagem da língua faz-se, regra geral, por uma superação da mera oralidade.

 

Quando uma criança faz os primeiros ditados, escreverá ora em vez de hora, pansa em vez de pança, istá em vez de está ou tiatro em vez de teatro

 

É a sonoridade a prevalecer. O ensino faz o que deve: oferece-lhe outros critérios.

 

De facto, se a oralidade predominar, ficaremos numa anarquia total. E o certo é que, por incrível que possa parecer, já não falta quem escreva plumenos em vez de pelo menos ou nabo cadele em vez de na boca dele!

 

A diferença entre o porque e o por que está igualmente a esbater-se mesmo nas publicações de maior impacto. Isto para não falar da ausência de vírgula antes do vocativo.

 

Bom dia Portugal é o título de um programa da nossa televisão pública. O mais sintomático é que o provedor do telespectador já alertou para a falha. E, no entanto, ela mantém-se. 

 

Como a oralidade não assinala estas situações, o resultado é linear: escreve-se como se fala e não se fala como se escreve. Ou devia escrever-se.

 

É assim que os livros e os jornais acolhem, crescentemente, uma linguagem mais pobre, que se resigna a reproduzir a oralidade.

 

 

Não estou a defender o uso de uma linguagem barroca ou o regresso a peças de teor gongórico com nula substância. Mas convenhamos que há uma dificuldade cada vez maior em encontrar, no que se ouve e no que se lê, um pensamento reflexivo minimamente sustentado. É que este não se limita a uma sequência de interjeições desconexas.

 

Até a classe política padece desta decadência. Tempos houve em que as piores decisões eram comunicadas de um modo brilhante!

 

É claro que qualquer pessoa pode errar, mas há erros que um dirigente político está impedido de cometer. Quem não se lembra de, há uns anos atrás, um ministro da educação ter pronunciado o estafado interviu em vez do correcto interveio

 

Acresce um factor nada despiciendo no meio disto tudo. O ensino deve levar a pessoa a subir ao nível da escola e não devia levar a escola a descer ao nível da rua.

 

Aprender é um movimento que vai do menos para o mais.

 

Um pouco de elegância é sempre importante, benfazejo e salutar.

 

Que não se imponha o falar erudito é uma coisa. Que se pretenda estagnar no falar mais primário é outra coisa, bem diferente. Que não ajuda a crescer.

 

O caminho do crescimento faz-se da mediocridade para a excelência. Quedar-se pelo elementar, pelo que assoma de imediato à superfície não é o melhor sintoma.

 

Receio que o acordo ortográfico não se limite a introduzir alterações na nossa língua. Temo que a desfigure.

 

A nossa língua é um dos nossos melhores patrimónios. Nela mora a alma da nossa pátria.

publicado por Theosfera às 20:59

De António a 16 de Outubro de 2010 às 22:54
A língua portuguesa não é de fácil apreensão e é de difícil domínio lexical. Normalmente, costuma-se dizer que é um idioma rico, de diferentes variações etimológicas. Mas, sinceramente, por mim, preferiria que fosse menos pleonástico. Alguém consegue descortinar porque razão se deve dizer que um dia de sol é " soalheiro" quando o adjectivo " solar" caracteriza a luz do Sol ? É comum o erro de escrita "solarengo" quando se devia utilizar " soalheiro", mas faria muito mais sentido que um dia radioso de Sol pudesse ser referenciado por " solarengo" e não por " soalheiro". Há uns anos, li uma entrevista de Eugénio de Andrade que muito me impressionou. A jornalista do " Jornal de Letras" perguntou ao ilustre poeta o que é que ele ainda buscava quanto ao eventual aprimoramento da sua poesia. E ele respondeu: " conseguir desadjectivá-la o mais possível". Depois dessa entrevista, tive necessidade de ler um maçador livro de estudo, com um título muito pomposo e petulante. Pela amostra da capa, vi logo que iria ter uma matéria densa para analisar. E acertei. Era tão densa, tão densa, tão enigmática e intelectualmente densificada que talvez nem o próprio autor conseguisse perceber o que tinha escrito. Pudera, eram mais as notas de rodapé do que o texto principal que o autor se deve ter perdido na explanação das ideias, embora toda a prosa estivesse redigida num português etimológica e semanticamente escorreito.
Há muita desta inteligência jactanciosa, que habita neste luso território. Será também por isso que não conseguimos descolar da cauda da Europa, nos mais diversos domínios do saber e do desenvolvimento económico ? Meu querido e falecido pai era um homem muito observador. Não devorava tratados de economia herméticos mas aprendeu a olhar para a organização harmoniosa das sociedades das abelhas e das formigas. E nunca mais esqueci a lição que ele, com palavras simples e despretensiosas, me deu: " sabes meu filho, não há nenhuma abelha ou formiga que passe privações alimentares.Todas trabalham para o Bem comum. Todas têm tecto para se abrigarem. E nenhuma delas sabe o que seja a propriedade privada". Eu acrescento: nenhum delas domina a linguagem humana, nem se eleva ao exercício de cátedras, mas sabem muito mais de economia do que qualquer dos reputados prémios Nobel do sector.E, além do mais, sem nada conhecerem do Cristianismo, cooperam e partilham bem mais do que muitos que andam sempre com o credo na boca, mas com a incoerência dos princípios escondida no seu farisaísmo impenitente...

De Theosfera a 16 de Outubro de 2010 às 23:05
Obrigado, bom Amigo, por este belíssimo comentário!
Abraço grande no Senhor.

De Maria da Paz a 17 de Outubro de 2010 às 00:28
Parece que tendemos para o grunhido pré-histórico ou para o grunhido ... animalesco!

E que dizer quando uma destacada (proeminente, mesmo) figura política diz: «...não sabem o que hadem " fazer.»? Isto, na Assembleia da República!!!
E quando a mesma figura trata Sua Santidade o Papa por "Sua Eminência"?!!!
Estamos conversados!

De Evágrio Pôntico a 17 de Outubro de 2010 às 01:26
Senhor Padre João,
mais uma vez um belo texto seu, que merece a atenção costumada.

Fico muito admirado ao ler que a Sra. Profª Maria Helena Rocha Pereira - insigne docente e investigadora, conhecedora profunda das línguas e culturas grega e latina - "assume claramente", no recente acordo (ainda não está oficializado, segundo creio) ortográfico, a opção da oralidade, em detrimento da opção etimológica…

Já agora, devo dizer que nunca aderirei ao chamado "acordo ortográfico", que considero uma bestialidade sem nome, arquitectada por uns quantos (creio que não muitos…) académicos, sem consulta aos falantes portugueses.

P.S. Sobre a questão da ortografia infantil, no exemplo de "pança" e "pansa", creio que, decerto por pressa na redacção, foi invertida a conclusão... É bem de ver que a ortografia correcta do étimo é "pança".

Santo fim-de-semana para todos.


mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9






Últ. comentários
Sublimes palavras Dr. João Teixeira. Maravilhosa h...
E como iremos sentir a sua falta... Alguém tão bom...
Profundo e belo!
Simplesmente sublime!
Só o bem faz bem! Concordo.
Sem o que fomos não somos nem seremos.
Nunca nos renovaremos interiormente,sem aperfeiçoa...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
Sem corrigirmos o que esteve menos bem naquilo que...
online
Number of online users in last 3 minutes
vacation rentals
citação do dia
citações variáveis
visitantes
hora
Relogio com Javascript
relógio
pela vida


petição

blogs SAPO


Universidade de Aveiro