O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

1. Preocupante é a crise. Mas a pior crise não é a crise. É a falta de rumo perante a crise.

 

É o desnorte cívico, o descarrilamento político e a desnatação ética. É a incerteza que se abate sobre o futuro. É a descrença que tolhe os espíritos. É a desmotivação que esgana a vontade. É o deslaçamento afectivo que entorpece a convivência.

 

 

Andamos abatidos. Vemo-nos desmobilizados. Não descortinamos uma direcção. Somos cada vez mais tentados pelo torpor e pela desesperança.

 

É, no limite, esta crise que provoca a outra crise, a crise económica. E que dificulta (ou impede) o seu tratamento e a sua superação.

 

Tenho, por isso, para mim que concentrarmo-nos apenas na resolução da crise económica é um logro que só acaba por prolongá-la.

 

 

2. Passamos o tempo (e gastamos a vida) com variações em torno do mesmo: mais impostos, aumento do custo de vida.

 

O imediato sufoca-nos. A pressa oprime-nos. A serenidade escasseia. A situação agrava-se.

 

Sem tempo (nem disponibilidade) para reflectir, atolamo-nos no mais perturbador labirinto.

 

O Estado controla a vida dos cidadãos. Os cidadãos tentam escapar ao controlo do Estado.

 

As restrições não param. E já se acena com a recessão.

 

Tudo isto para quê? Quem sai beneficiado? Os pobres não são com certeza.

 

Mas será que a solução passará também por estigmatizar os ricos?

 

Ficou célebre uma resposta que Margaret Thatcher terá dado há décadas: «Sem os ricos não haverá esperança para os pobres».

 

Com efeito, para que os que têm menos possam vir a ter mais, impõe-se que os que têm mais aceitem ter menos.

 

Nesse sentido, é preciso deixar que a sociedade funcione. Ao Estado cabe regular, mas não asfixiar.

 

Se os mais ricos são hostilizados, que estímulo poderão sentir na promoção de empregos para os mais desfavorecidos?

 

A riqueza tem de ser repartida por todos. Não pode ser tutelada.

 

O Estado não pode estar no centro. No centro tem de estar a pessoa.

 

 

3. Há que ter presente que por cada ganho que se obtém, há uma perda que se averba.

 

Costumo fixar-me, desde há muito, numa máxima de Edgar Morin. Cada progresso acarreta sempre um retrocesso.

 

O progresso tecnológico, que é notório, não tem evitado um retrocesso humanista, que é igualmente visível.

 

Como notava o Padre Manuel Antunes, «no oceano da abundância, da riqueza em maré cada vez mais cheia, mesmo que o oceano pareça inesgotável — não o sendo, de facto —, continua a haver ilhas de miséria, rochedos desolados batidos pelas ondas da adversidade».

 

E o problema é ditado não somente pela indigência de muitos, mas também pela ausência de horizontes.

 

Muitos de nós sentem-se caminhantes de uma viagem incerta, em que vão contabilizando sobretudo perdas e angústias.

 

A desmotivação parece que se apoderou da comunidade, pairando sobre os nossos espíritos fatigados.

 

 

4. O país carece de um desígnio. Os cidadãos precisam de uma esperança. A sociedade necessita de voltar a acreditar.

 

É fundamental não fechar janelas nem tapar caminhos. É urgente dar oportunidade a outros. As ideias são indispensáveis, mas as pessoas são imprescindíveis.

 

Não se trata de suspirar por explosões sebastiânicas, mas de dar um rosto à esperança.

 

A comunicação não pode circunscrever-se à propaganda ou ser reduzida ao ruído da intriga, da insinuação e da calúnia.

 

Todos são bem-vindos. Ninguém pode ser desperdiçado. Há que puxar pelas energias do nosso povo.

 

Há quem tema que a falência não esteja longe. Importante é sentir que a capacidade de a evitar está perto, dentro de cada um de nós.

 

Se fomos capazes no passado, por que haveríamos de ser incapazes no presente?

 

Eterna não será a recessão. Perene tem de ser a esperança.

 

publicado por Theosfera às 11:54

De António a 11 de Outubro de 2010 às 15:51
Pessoa muito próxima de mim vai hoje saber se irá ou não ser abrangida em processo de extinção de postos de trabalho ou de despedimento colectivo, depois de muitos anos de dedicação profissional exemplar.Hoje já não faço a pergunta que outrora fiz: " Onde estás meu Deus ?". Já não acredito na intervenção directa de Deus na realidade humana, beneficiando alguns dos Seus filhos em detrimento de outros. Não que acredite que Deus seja insensível ao Sofrimento Humano ou que não seja Aquele que mais sofre por nós. Mas Deus a intervir à medida de actos discriminatórios, em favor de uns, mas não de outros, não acredito. O conceito de aprimoramento de Deus é exigente. Não passa por rezas obsessivas, por intercessões, por promessas teologicamente orientadas ou por arrastamentos pungentes em Fátima. Deus permanece nos escombros da mediocridade humana e vai ser muito difícil retirá-Lo do soterramento a que tantos O conduziram. A Obra da Criação não está completa. Foi esse legado que Deus nos deixou. Também para construirmos sociedades assentes nos paradigmas económicos da cooperação e da partilha. Mas nós somos piores do que cegos. Somos loucos. E os piores são aqueles que, na sua loucura disfarçada de lucidez, vão arrastar a Humanidade ainda mais para o poço fundo do egoísmo e da injustiça impenitentes...

De Theosfera a 11 de Outubro de 2010 às 16:04
Pertinente o que diz, bom Amigo. Acerca da intervenção de Deus, tema realmente complexo, o Homem, como afirma Schillebeeckx, «é a palavra de que Ele Se serve para escrever a Sua História».
Mas há muito de insondável. Também penso que o importante é a bondade e a solidariedade entre todos.
Que tudo corra pelo melhor ao seu Amigo.
Abraço no Senhor.

De António a 11 de Outubro de 2010 às 16:26
Grato estimado Padre João António. Trata-se da minha querida mulher que, como sabe, é ateia. Se for despedida, o que,de momento, ainda não sei, porque se encontra a decorrer uma reunião alargada com a direcção do estabelecimento em que ela presta relevante apoio na área da intervenção social, não se insurgirá contra Deus. Não perguntará " Meu Deus Porque Me Abandonaste ?" Certamente dirá que nós, os humanos, ainda estamos muito longe de criar sociedades onde ninguém passe o martírio do desemprego ou da falta de adequada protecção estatal...

De Theosfera a 11 de Outubro de 2010 às 16:36
Sinto muito. É como diz. Dizem-nos que temos uma política para as pessoas e, afinal, as pessoas são permanentemente sacrificadas por causa da política. Ainda que atéia, a sua querida Esposa não será esquecida por Deus. Para muitos, seguramente, Ela fará resplandecer Deus.
Abraço amigo.

De Maria da Paz a 11 de Outubro de 2010 às 23:37
Ex.mo Senhor
Todo o meu respeito e a minha solidariedade para com sua Senhora.
O sofrimento é um mistério!
Permita-me que lhe responda com a sabedoria popular que nos diz que «Não há mal que sempre dure.»
De novo, creia na minha solidariedade e na minha compreensão. Desejo-lhes o melhor.
Respeitosamente,
Maria da Paz

De António a 12 de Outubro de 2010 às 13:11
Estimada Maria da Paz

Muito grato e sensibilizado pelas suas palavras gentis que tanto me tocaram. Bem haja...

De Licurgo a 13 de Outubro de 2010 às 11:59
Haja FÉ, Sr. António!
Partilho das vossas dificuldades e inquietações. Mas o Sr. António sabe que Deus não abandona os seus.
Permita citar (de cor) uma bela passagem do Evangelho: "Procurai antes de mais o Reino de Deus e a Sua Justiça, e tudo o mais vos será dado de acréscimo"
E de uma Carta (de São Paulo, creio): "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus".

Certos de que tudo se resolverá a contento, entreguem as vossas dificuldades e angústias ao Senhor, que Ele tudo encaminhará para o Bem.

De António a 13 de Outubro de 2010 às 19:36
Muito grato Sr. Licurgo pelas suas amáveis palavras. Bem haja...


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