O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

1. A vida de um teólogo raramente é acontecimento. A morte de um teólogo dificilmente será notícia.

 

É por isso que Raimon Panikkar é um nome que dirá pouco, ou quase nada, à maioria das pessoas.

 

E, no entanto, é alguém com uma trajectória muito interessante em vários domínios do pensamento com destaque para a filosofia e a teologia.

 

A sua vida foi longa e a sua obra extensa. Faleceu no passado dia 26 de Agosto aos 91 anos de idade.

 

 

2. Raimon Panikkar especializou-se bastante no diálogo inter-religioso extraindo as maiores ilações da experiência que acumulou na Índia.

 

Acentuou, particularmente, a religião como religação.

 

Esta acepção, sendo genuína, corre o risco de ser perigosamente subestimada. O facto religioso é, não poucas vezes, indissociável de um ensimesmamento que, radicalizado, conduz à violência e à desintegração.

 

Não deixa de ser sintomático que uma religião, para se afirmar, acabe por se desintegrar.

 

É que, quando ela pretende afirmar-se excluindo as outras, esbate-se a si mesma.

 

A essência da religião é o que liga, não o que afasta, não o que exclui.

 

Raimon Panikkar dispensou sempre uma grande atenção a esta dimensão.

 

A religião, para ele, era essencialmente religação não apenas do Homem a Deus, mas religação do universo consigo mesmo descobrindo-lhe a sua coesão e sentido.

 

Daí a pertinência da sua intuição cosmoteândrica, propugnando uma interacção entre Deus, o Mundo e o Homem.

 

Este não possui uma dupla cidadania, uma na sociedade e outra na religião. Está tudo implicado a partir do acto de existir.

 

 

3. O religioso não surge como um fenómeno sobreposto ao humano.

 

O religioso é mais que religioso. É, autenticamente, humano. São, de facto, seres humanos que optam pela fé, por uma vivência pessoal e por uma articulação comunitária da sua ligação ao divino.

 

Nas mais diversas experiências, há uma unidade que subjaz. No fundo, «o Ser está escondido em todos os seres».

 

As diferenças não podem ser vistas como separações. As diferenças são legítimas, as separações são sempre prejudiciais.

 

O religioso certifica o Homem como um ser no qual late algo mais que o tempo e o espaço. Este mais não tem limites: é infinito, é misterioso e é relacional.

 

Raimon Panikkar ajuda-nos a perceber que «a realidade «não está formada nem por um bloco único — seja este divino, espiritual ou material — nem por três blocos — o mundo dos deuses, o mundo dos homens e o mundo da física —, como se de um edifício de três pisos se tratasse».

 

Acima de tudo, «a realidade está constituída por três dimensões entrelaçadas umas nas outras, de maneira que não só uma não existe sem a outra, mas também que estão dispostas inter-in-dependentemente».

 

Esta implicação estende-se à concepção do tempo e da eternidade. O tempo não é o que está antes e a eternidade não é o que vem depois.

 

Cada momento «é habitado pela outra face “eterna”, formando assim a tempiternidade».

 

 

4. Esta visão integradora cura o abismo que se cavou, a certa altura, entre o material e o espiritual e, mais vastamente, entre o secular e o sagrado, entre o interior e o exterior, entre o temporal e o eterno.

 

Como é óbvio, não se trata de desvalorizar as diferenças, mas de termos presente a trama de relações e de nos tornarmos conscientes das interdependências e conexões.

 

Muitas vezes, os teólogos são incompreendidos porque trazem para o centro aquilo que está na periferia, no esquecimento.

 

A Raimon Panikkar devemos a superação de uma matriz dualista entre o religioso e o humano.

 

A fé não se esgota na celebração no templo. «O serviço à terra é também um serviço divino, tal como o amor a Deus é também um amor humano».

 

O que existe é uma realidade que «tem muitas moradas e apresenta diversas dimensões, mas que não divide a vida em secções».

 

Tudo pode resumir-se nisto: «se eu subir à montanha, lá encontrarei Deus, mas se, igualmente, penetrar no coração da divindade, aí encontrarei o mundo».

 

Tudo tem a ver com tudo.

publicado por Theosfera às 17:45

De António a 31 de Agosto de 2010 às 20:50
Religião e Espiritualidade são sinónimos ? Se eu ler a Bíblia e, na minha sincera e livre apreciação crítica, não reconhecer, por exemplo, o Levítico e o Deuterónimo como livros sagrados, devo acatar a cega obediência à dogmática instituída, que os insere na Bíblia Sagrada ou devo repudiá-los por contrários ao Deus que nos fala ao coração ? Não vejo como a religião possa religar enquanto,em nome de Deus, se invocar " livros sagrados" para lapidar mulheres.Depois,em torno destas questões há muito silêncio comodista e cúmplice, a que o Nazareno não se permitiria....

De Theosfera a 31 de Agosto de 2010 às 21:30
Questão pertinente, bom Amigo. A prática demonstra que nem sempre são sinónimos e há cada vez mais gente a procurar a espiritualidade fora da religião. Mas a religião existe para articular a fome de espiritualidade. Raimon Panikkar porfiava por isto. Se não aposta na espiritualidade, a religião fenece.
Abraço amigo ni Senhor Jesus.

De Mª Amélia a 1 de Setembro de 2010 às 12:38
Meu irmão vou colocar, neste espaço algumas “normas” interessantes para ler a Sagrada Escritura! Espero que lhe dê o mesmo apoio que me tem dado a mim! Abraço amigo, no Senhor Jesus!

Decálogo para ler a Bíblia com proveito:

1. Nunca achar que somos os primeiros que leram a Santa Escritura. Muitos, muitíssimos, através dos séculos, a leram, meditaram, viveram e transmitiram. Os melhores intérpretes da Bíblia são os santos.

2. A Escritura é o livro da comunidade eclesial. A nossa leitura, ainda que seja em solidão, jamais poderá ser solitária. Para lê-la com proveito, é preciso inserir-se na grande corrente eclesial, que é conduzida e guiada pelo Espírito Santo. Conheçamos a interpretação que a Igreja, no seu Magistério e nos seus santos, fez daquela passagem bíblica…

3. A Bíblia é "Alguém". Por isso, é lida e celebrada ao mesmo tempo. A melhor leitura da Bíblia é a que se faz na Liturgia, destinada a favorecer o encontro com Cristo.

4. O centro da Sagrada Escritura é Cristo; por isso, tudo deve ser lido sob o olhar de Cristo e buscando n'Ele o seu cumprimento. Cristo é a chave interpretativa da Sagrada Escritura.

5. Nunca esquecer de que na Bíblia encontramos factos e frases, obras e palavras intimamente unidos uns aos outros; as palavras anunciam e iluminam os factos, e os factos realizam e confirmam as palavras.

6. Uma maneira prática e proveitosa de ler a Escritura é começar com os Santos Evangelhos, continuar com os Actos dos Apóstolos e Cartas e ir misturando com algum livro do Antigo Testamento: Génesis, Êxodo, Juízes, Samuel etc. Não querer ler o livro do Levítico de uma só vez, por exemplo. Os Salmos devem ser o livro de oração dos grupos bíblicos. Os profetas são a "alma" do Antigo Testamento: é preciso dedicar-lhes um estudo especial.

7. A Bíblia é conquistada como a cidade de Jericó: "dando voltas". Por isso, é bom ler os lugares paralelos. É um método interessante e muito proveitoso. Um texto esclarece o outro, segundo o que diz Santo Agostinho: "O Antigo Testamento fica patente no Novo e o Novo está latente no Antigo".

8. A Bíblia deve ser lida e meditada com o mesmo espírito com que foi escrita. O Espírito Santo é o seu principal autor e intérprete. É preciso invocá-lo sempre antes de começar a lê-la e, no final, agradecer-lhe.
9. A Santa Bíblia nunca deve ser utilizada para criticar e condenar os demais.

10. Todo o texto bíblico tem um contexto histórico em que se originou e um contexto literário em que foi escrito. Um texto bíblico, fora do seu contexto histórico e literário, é um pretexto para manipular a Palavra de Deus. Isso é invocar o santo nome de Deus em vão.
(Mario de Gasperín Gasperín Bispo de Querétaro. "Decálogo para ler a Bíblia com proveito")

De Mª Amélia a 1 de Setembro de 2010 às 14:39
Querido António
O meu post anterior "Decálogo...."fora dirigido a si, especialmente, pese embora o facto de que todos possam beneficiar da sua leitura.

Fiquem na Paz!

De António a 2 de Setembro de 2010 às 00:32
Estimada Maria Amélia:

Reivindico para mim próprio o sagrado direito à minha liberdade de expressão de pensamento. E também a mesma humana prerrogativa ao exercício da minha liberdade de interpretação religiosa .Abraço amigo...

De Mª Amélia a 3 de Setembro de 2010 às 15:11
Querido irmão António
Ao colocar este “Decálogo” quis, apenas dar seguimento ao que proferiu Jesus: "Dai de graça o que, de graça recebestes..." Como, para mim foi útil achei que poderia ser proveitoso para os outros!

Além disso penso que, até já temos alguma, eu diria "ousadia" para podermos trocar impressões, sem nos ofendermos e, sem deixar de respeitar as nossas próprias convicções?!...
Provavelmente ter-me-ei enganado... O tom das minhas palavras, ao dirigir-me a si, em especial poderia, eventualmente ter causado algum desconforto?!

Se passei a impressão de querer “impingir” algo...peço desculpa!
Aceite um abraço sincero, no Senhor!

De António a 3 de Setembro de 2010 às 20:30
Estimada Maria Amélia:

Nós já debatemos várias questões teológicas há tempo suficiente neste magnífico blogue e ambos sabemos que reciprocamente aqui estabelecemos laços de sincera fraternidade cristã. Não me reconheço já em muitos pontos da interpretação católica que, contudo, inteiramente respeito.A minha posição é sabida. Não julgo compatível a figura antropomorfizada do demiurgo irascível do AT com a concepção de Deus que Cristo humanamente corporizou. Daí que me recuse a chamar Bíblia Sagrada a um conjunto de livros do AT que, para mim, de sagrado não têm nada. Foram fruto de transposição, em muitos casos, mesquinha, dos piores defeitos dos homens. Que imaginaram Deus à sua medíocre semelhança e não o contrário. Enquanto cristão, sinto o imperativo ético de não silenciar a minha posição crítica, firme, fruto de uma longa reflexão. Hoje, mais do que nunca, é necessário apelar para que o Homem se faça à semelhança de Deus e não Deus à semelhança do pior que os homens têm. Sou crente e nunca estive tão próximo de Deus. Descobri-O há pouco tempo como o Ser mais bondoso de todos nós. Por isso, compreenderá que nenhum decálogo bíblico poderá superar a revelação íntima, essa, sim, profundamente sagrada, do Deus que se manifestou no meu coração. Abraço amigo...


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