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Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

1. O tempo é de festa, mas o semblante das pessoas mantém-se carregado.

 

Parafraseando Adriano Moreira, dir-se-ia que o poder da palavra nada consegue diante da palavra do poder. Por muito que aquele se faça sentir, é esta que acaba sempre por decidir.

 

Os últimos tempos têm-se encarregado de desenhar uma espécie de quadratura do círculo.

 

O país treme quando o interior arde. Mas é o mesmo país que consente que o interior, votado ao abandono, arda.

 

As responsabilidades são repartidas, entre a classe política e a sociedade civil. A desolação, essa, é total.

 

Nunca houve tanto planeamento e nunca se sentiu tão pouca planificação.

 

Não deixa, de facto, de ser espantoso verificar que, há cem anos, Portugal tinha, sensivelmente, metade da população actual. E, não obstante, tal população estava mais bem distribuída.

 

As cidades não estavam tão ocupadas, os campos não estavam tão desertos. Os serviços estavam repartidos de modo mais equilibrado.

 

Hoje em dia, continuamos a assumir que não queremos o interior despovoado, mas que apoios lhe são dados?

 

 

2. Há cada vez mais estruturas a encerrar. São os hospitais. São as esquadras. São as escolas.

 

Isto significa que o interior tem cada vez menos saúde, segurança e educação. Ora, isto é um poderoso convite a não permanecer no interior.

 

É claro que, a montante desta discussão, subsistem questões do mais elementar bom senso e de uma indispensável racionalidade.

 

Para haver estruturas, é preciso haver população. Só que a equação não dispensa uma pergunta, de igual pertinência. Não será que, para haver população, é necessário haver estruturas?

 

Concentremo-nos no caso das escolas, de novo na ordem do dia.

 

Facilmente admitimos que uma escola sem um mínimo razoável de alunos não tem condições para funcionar. Mas estabelecer um mínimo de 21 não será um exagero?

 

Aqui, entra em jogo a distinção, cada vez mais vincada, entre a educação e o chamado eduquês.

 

Enquanto da educação se espera uma preparação para a vida, o eduquês acaba por constituir uma condicionante da vida.

 

Se turmas muito reduzidas trazem problemas de socialização, turmas demasiado extensas acarretam problemas de aprendizagem.

 

De resto, os países com melhores índices de aproveitamento são aqueles em que o número de alunos por turma é inferior a vinte.

 

 

3. É sabido que a globalização institui, inevitavelmente, a mobilidade e a deslocalização.

 

Mas também é verdade que a mesma globalização é sempre concretizada no âmbito local.

 

Miguel Torga percebeu muito bem esta interacção ao escrever que «o universal é o local sem muros».

 

Aliás, um dos preceitos mais ouvidos, nos tempos que correm, é precisamente «pensa global, age local».

 

A globalização não pode ser entendida como o sufoco do local. Tal sufoco conduzirá à deslugarização das pessoas (que já se manifesta) e à despersonalização dos lugares (que se vai, ameaçadoramente, consolidando).

 

Não falta quem viva num lugar e trabalhe noutro, por vezes bem distante. Isto leva a que os relacionamentos, nos lugares, sejam cada vez menos profundos, cada vez menos personalizados.

 

 

4. Lamego viu-se alcandorado ao primeiro lugar na escala dos concelhos onde encerraram mais escolas.

 

É um dado revelador e um sinal preocupante.

 

Há que olhar para a realidade de forma lúcida e com uma disponibilidade empreendedora.

 

Desde há muito que, à semelhança do que ocorre em todo o interior, também o nosso concelho vem encetando uma curva descendente.

 

Há que encontrar uma maneira de inverter a tendência. Há que unir esforços e ser mais pró-activo que reactivo.

 

É preciso que as vozes se juntem e, em coro, se façam ouvir. Há que acreditar no futuro e apostar no presente.

 

É fundamental que o pior vírus não nos contamine: o desânimo.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Theosfera às 11:58

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