O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

Tenho verificado que o discurso sobre Deus mantém-se conceptualmente robusto mas, ao mesmo tempo, mostra-se existencialmente frágil.

 

Na origem deste desfasamento encontra-se, quanto a mim, a débil atenção que tem sido dispensada à realidade.

 

Não só se nota um distanciamento do discurso sobre Deus em relação à realidade como se verifica, por vezes, uma desrealização desse mesmo discurso, que induz a ideia de uma dessignificação do respectivo conteúdo.

 

Talvez porque falta perceber que, como reconhece Olegario González de Cardedal, «uma das tarefas mais sagradas e difíceis hoje é unir a simplicidade do coração à complexidade da inteligência».

 

Com efeito, há um discurso sobre Deus de tal modo desligado do homem que, reactivamente, provoca um discurso sobre o homem desligado de Deus. Em tal discurso, o homem e o mundo surgem voltados sobre si mesmos como centro, origem e fim.

 

Devolveu-se-lhes o aposentamento na sua intimidade e outorgaram-lhes as propriedades que outrora eram atribuídas a Deus. Anulou-se o abismo da distância e da diferença.

 

Agora leva-se a cabo uma re-instalação no homem dos atributos de Deus. Começando pela criação, para tudo se recorre ao auto: autocriação, autonomia, autocompreensão, auto-realização, autoconsumação. O homem presume-se como o seu próprio criador e o seu único redentor. Onde antes se lia Deus e a Sua obra, agora propendemos a ler apenas o homem e a sua acção.

 

Neste cenário, ressignificar o discurso sobre Deus implica também reconfigurar o discurso sobre o homem a partir da realidade que o envolve e constitui.

 

É que na incessante procura de uma linguagem sobre Deus, o homem tem recorrido prevalentemente ao logos conceptual, ao logos cultural, ao logos ideológico, ao logos simbólico, ao logos ritual, ao logos da tradição e até ao logos da modernidade.

 

Todos eles têm ostentado virtualidades e patenteado limites. O que mais me impressiona em Xavier Zubiri é a ênfase que ele dá, em toda a sua obra, a um logos mais árquico, mais primordial, mais primigénio: ao logos da realidade. Per realitatem ad Deum, assim se poderia sintetizar, pois, o seu percurso.

publicado por Theosfera às 11:27

De António a 25 de Agosto de 2010 às 17:20
A procura de Deus é de uma enorme exigência. Hoje, mais do que ontem, estou cada vez mais convencido que só nos aproximaremos de Deus a partir da Voz Doce que habita nos nossos corações. A teologia do futuro ou será a da alma ou não será. A de meditação interior ou não será. A do Amor e da Bondade ou não será. Há muitas questões que a crença de Deus nos suscita e que, do meu ponto de vista, merecem ser harmonizadas lógica e conceptualmente. Deus intervém ou não na realidade humana ? Deus discrimina milagres a uns e não a outros ? Permite que alguns dos Seus filhos sejam fisicamente curados de doenças enquanto a outros nega essa Divina Intervenção ? E porquê pedir à Virgem Maria e aos santos intercessões ? Deus é surdo? Necessita que Lhe peçamos algo que Ele nos possa conferir ? Tantas mas tantas questões que a crença em Deus suscita, a merecerem reflexões sérias e respostas não sofistas nem falaciosas.Estaremos preparados para confrontarmos todas as ideias pré-concebidas àcerca de Deus se elas estiverem erradas e já não fizerem sentido ou preferiremos teimar na ortodoxia dos nossos preconceitos ? Estaremos disponíveis para reconhecer que muitas das características que atribuímos a Deus foram apenas o fruto pecaminoso das nossas mesquinhas antropomorfizações ? Se há pecado pelo qual Deus nunca nos condenaria seria certamente o do Conhecimento...


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