O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

1. Dizem que recordar é viver. Mas sentimos, sobretudo a partir de certa altura, que viver é (também) recordar.

 

Somos, de facto, os lugares que habitámos, as pessoas que fomos conhecendo e as memórias que conseguimos alojar.

 

É por isso que, em boa verdade, não há passado. O que denominamos passado desmente-se a si mesmo. O passado não passa. Está sempre presente.

 

Há vivências que começaram num tempo e se prolongam no tempo.

 

Aquilo a que chamamos passado nunca está totalmente passado. Jamais se extingue. Perdura na lembrança. Mantém-se na recordação.

 

 

2. Há uma experiência que os anos vão impondo.

 

Se a escola é um local de conhecimento, o cemitério acaba por ser um poderoso lugar de reconhecimento.

 

Sempre que voltamos à terra donde saímos, vamos dando conta de que as nossas referências se encontram debaixo da terra.

 

Lá estão os nossos familiares, os nossos vizinhos, os nossos conhecidos.

 

Lá repousam as pessoas que eram idosas quando nós éramos crianças.

 

Foram elas que povoaram a nossa infância com histórias que, por muito efabuladas que fossem, eram amassadas na realidade.

 

Aqueles rostos estão pejados de sabedoria e afogados em canseiras.

 

 

3. As nossas lágrimas começam a desfilar. Elas ficam lá mesmo quando nós saímos de lá.

 

A morte vai-nos visitando. Vai-se habituando a nós e nós a ela. Até que um dia nos arrebatará também.

 

Onde outros estão, nós estaremos. Para onde levamos os outros, nos hão-de levar a nós.

 

Há toda uma circularidade entre a morte e a vida. Nós vamos morrendo na morte dos outros. Os mortos vão (re)vivendo na nossa vida.

 

 

4.Os encontros que o Verão propicia fazem desfilar lembranças que nem a poeira do tempo logra esbater.

 

Tais encontros transportam-nos, imediatamente, a uma época que, não estando muito longe, já nos parece demasiado distante.

 

É certo que sempre houve mudanças no mundo. Não é o mundo, todo ele, composto de mudança? Mas o que se nota é que o processo de mudança tem sofrido uma forte aceleração.

 

 

5. Está melhor o mundo? Está pior? Está diferente.

 

A diferença faz-nos sentir nostálgicos. O que somos tem pouco a ver com o que fomos.

 

O mais estranho é que fomos nós a introduzir as alterações que, agora, nos constrangem.

 

 

6. Foi o Homem que desencadeou a tecnologia. Mas, para nosso espanto, vamos verificando que estamos mais dependentes da tecnologia do que a tecnologia de nós.

 

A máquina permite-nos algumas maravilhas. Mas também nos retira outras maravilhas. Desde logo, parece subtrair-nos uma certa capacidade de nos maravilharmos.

 

 

7. É por isso que vamos sentindo saudades do tempo em que o mais pequeno pormenor era revestido de um enorme sortilégio.

 

Os brinquedos não eram comprados. Eram fabricados por nós. Tudo aquilo era rudimentar. Mas era tão valorizado.

 

Sentimos que o tempo que mais ganhamos foi o tempo que mais perdemos.

 

Aquele tempo que gastámos com os outros ficou guardado, como se da maior preciosidade se tratasse.

 

 

8. Nada disto prescreveu porque tudo isto continua a habitar-nos e, nessa medida, a acompanhar-nos.

 

 Hoje, apesar da crise, temos muito para dar. Mas percebemos que temos cada vez menos o que mais

importa: tempo.

 

Trocamos muitos presentes e esquecemos que o melhor presente é o presente da presença.

 

Andamos todos a correr e com uma vontade enorme de parar, de fazer um ponto de ordem.

 

 

9. Por toda a parte se ouve: isto não pode continuar na mesma.

 

O ser humano tornou-se uma máquina. Robotizamo-nos.

 

Os nossos sentimentos são primários. Muitas vezes, somos os primeiros a não cuidar da nossa privacidade.

 

Expomo-nos sem qualquer limite e, depois, queixamo-nos de ver a nossa vida exposta.

 

Nunca houve tanto tempo para descansar e nunca nos sentimos tão cansados.

 

O problema é que não é só o trabalho que nos gasta. É a vida que nos vai desgastando.

 

 

E para este desgaste não há férias que compensem. Só uma nova humanidade nos fará rejuvenescer.

 

publicado por Theosfera às 11:29

De paparasy a 29 de Julho de 2010 às 21:33
Existem pessoas capazes de construir uma humanidade assim, acredito piamente nisso embora saiba que essas pessoas constituem uma minoria... e ainda bem. Qual a «piada» das modas? ir na corrente?
Há que ser diferente, não para chatear ou porque me apetece ser diferente. Simplesmente porque confiamos no coração e ser diferente é ter consciência e agir segunda ela, é ter medo de ser original mas deixar a coragem vencer, é saber que a história de uma vida conta e que a vida deve ser levada assério, é confiar no amor, naquilo que não se vê (directamente), ser diferente é seguir Jesus:)


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