O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 01 de Junho de 2010

1. Entre a crise que não nos larga e o futebol que não nos deixa, mais um feriado.

 

Bem recebido por um povo cansado e com a alma abatida, ele serve, acima de tudo, para repousar. Quiçá, para afogar as mágoas e verter, ainda que escondidamente, algum pranto.

 

Bem tentam alguns que o feriado sirva também para celebrar e, nessa medida, para reflectir.

 

Mas estas não são, consabidamente, as nossas prioridades. Quando chega um feriado, o habitual é o deserto invadir as ruas e o tédio encobrir as almas.

 

 

2. O feriado do 10 de Junho é um feriado sobre nós, sobre Portugal.

 

Tirando as cerimónias e discursos oficiais, além de mais um estendal de condecorações, que vestígios há de uma paragem para reflectir?

 

No limite, cada um vai meditando sobre si e sobre os seus. Os problemas de cada um já são suficientemente aflitivos. Pouco — ou nenhum — espaço sobra, assim, para a comunidade.

 

E, no entanto, Portugal, na hora que passa e parafraseando Alexandre O’Neill, é uma questão que cada um transporta consigo mesmo.

 

Trata-se de uma questão momentosa e, aparentemente, insolúvel. A bem dizer, somos uma contradição contínua.

 

Fazemos publicidade ao território, mas temo-lo cada vez mais despovoado.

 

Gostamos muito do nosso país, mas, para progredir, temos de ir cada vez mais lá fora.

 

Não é de agora este nosso destino. É de há muito. É de sempre. Já o Padre António Vieira condensava com a mestria do seu génio: «Para nascer Portugal, para morrer o mundo».

 

Somos, pois, um povo pequeno, mas que, mesmo assim, não cabe em si.

 

Agigantamo-nos lá por fora e, não obstante, parece que nos acanhamos aqui dentro.

 

Conseguimos dar novos mundos ao mundo e, apesar disso, não resolvemos os problemas que asfixiam o nosso viver comunitário.

 

Dizem-nos que somos um país adiado, mas, nesse caso, já o somos há muitos séculos.

 

 

3. Houve algum momento em que Portugal não esteve em crise? Em que altura não se disse que vinham aí tempos difíceis?

 

A tudo temos sobrevivido. Temos sobrevivido à realidade, cruel. E temos sobrevivido aos diagnósticos, nada estimulantes.

 

Como refere Romana Petri, parece que já não há heróis e que dá a impressão de que o futuro acabou.

 

Quanto ao passado, também não se insiste muito. Navegamos à vista, nas ondas de uma conjuntura que não empolga, mas que também não nos anula.

 

Somos uma terra que se estende por todas as terras. E constituímos uma pátria em que se acolhem filhos de muitas pátrias.

 

Somos, por isso e como afirmava o Padre Manuel Antunes, uma excepção.

 

Formamos um país que «não é muito compreendido nem por estranhos nem por si próprio, um país, ao mesmo tempo, cêntrico e periférico».

 

Transportamos um paradoxo vivo. Somos «um povo místico mas pouco metafísico; povo lírico mas pouco gregário; povo activo mas pouco organizado; povo empírico mas pouco pragmático; povo de surpresas mas que suporta mal as continuidades, principalmente quando duras; povo tradicional mas extraordinariamente poroso às influências alheias».

 

 

4. Há já várias décadas, Manuel Antunes assinalava a chegada da «hora da acção».

 

Anotava, porém, que essa acção tinha de ser acompanhada pela reflexão.

 

Hegel avisa-nos de que se aprende muita história, mas que se aprende muito pouco com a história.

 

No fundo, resumimo-nos de mais, como recentemente alertava D. Manuel Clemente.

 

Mas é neste resumo que continuamos a sentir Portugal, a fazer Portugal e, não raramente, a chorar Portugal.

 

Tantas vezes, são essas lágrimas que nos identificam e pacificam. Aquilo que soa a desespero acaba por saber a esperança.

 

Apesar das tardes sofridas, acreditamos sempre que uma manhã radiosa voltará a brilhar.

 

É por isso que nunca desistimos de nós. É por isso que, não obstante as nuvens, há sempre um Portugal a nascer em milhões de corações espalhados pelo mundo!

 

publicado por Theosfera às 12:02

De Evágrio Pôntico a 1 de Junho de 2010 às 23:21
Belo texto do Sr. Padre João. Vale pelas reflexões sábias que faz. Ciita com todo o a propósito duas excelsas personalidades da Igreja portuguesa : o eminente Professor e humanista Padre Manuel Antunes, e o grande homem da cultura que é D. Manuel Clemente.

O comentário do caro António parece-me, porém, e com todo o respeito, deslocalizado. O que é que a astrologia tem a ver com o post do Sr. Padre João? Não consigo chegar lá...

Eu não acredito na astrologia. Só Deus domina os acontecimentos. Só Ele determina o futuro.

Será útil ler, o que, a respeito da astrologia (e da necromancia, e da evocação dos mortos ou da consulta aos espíritos...) está prescrito e determinado em Deuteronómio18,versículos 9 e segs.

Abraço a todos. Paz e Bem.

De António a 2 de Junho de 2010 às 01:42
Estimado Evágrio Pôntico:

Há muito que abjurei o Deuterónimo e o Levítico. Verifico, no entanto, que permanece a invocar o Deuterónimo como critério teológico da sua asserção. Para mim, esses livros de Deus não provêm de certeza e, se acreditasse em Satanás, diria que seriam satânicos.
Assim, digo apenas que são anti-sagrados. A necromancia, a evocação dos mortos e a consulta aos espíritos não são propriamente astrologia, embora eu acredite na possibilidade de comunicação com as imperecíveis almas humanas. Mas também entendo que o Deuterónimo não podia prever tudo. E a astrologia não devia estar nas preocupações normativas do demiurgo que se apropriou do Santo Nome de Deus, nessa figura patética ficcionada que o Deuterónimo e o Levítico invocam, para enorme abalo da mais benevolente concepção divina. Quanto à possibilidade de comunicação com os " mortos", recomendo-lhe que aprofunde mais as leituras sobre Agostinho de Hipona. Se não conhece o que ele sustentava quanto a essa hipótese comunicacional, julgo que irá ter boas ou más surpresas, dependendo do ponto de vista de aferição em que se coloque. Isso para já não falar da reflexão sobre a validade da teoria da reencarnação, que Agostinho de Hipona também equacionou.
Aproveito para esclarecê-lo, quanto à dúvida colocada relativamente à suposta impertinência da alusão ao signo de Peixes, que essa simbologia esteve associada ao Cristianismo nas primitivas comunidades cristãs.
Tem a ver com este passo do texto do estimado Padre João António, que julguei merecedor da referência astrológica ao signo de Peixes:
“Transportamos um paradoxo vivo. Somos «um povo místico mas pouco metafísico; povo lírico mas pouco gregário; povo activo mas pouco organizado; povo empírico mas pouco pragmático; povo de surpresas mas que suporta mal as continuidades, principalmente quando duras; povo tradicional mas extraordinariamente poroso às influências alheias».
Quanto à sua citação do Deuterónimo, grato pela alusão, mas dispenso-a. Desse livro, de referências inanes, já tenho que chegue, quer ver?:
Deuterónimo 22, 10: - Não lavrarás com junta de boi e jumento.
Deuterónimo 23, 1 - Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou cortado o membro viril, não entrará na assembléia do Senhor.
Deuterónimo 23, 2: - Nenhum bastardo entrará na assembléia do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará nela.
Deuterónimo 23, 13: - Dentre as tuas armas terás um pau; e quando te abaixares fora, cavarás com ele, e, volvendo-te, cobrirás o que defecaste.
Deuterónimo 24, 1 a 4: - Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então será que, se não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente, far-lhe-á uma carta de repúdio, e lha dará na sua mão, e a despedirá da sua casa. Se ela, pois, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem, e este também a desprezar, e lhe fizer carta de repúdio, e lha der na sua mão, e a despedir da sua casa, ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la, para que seja sua mulher, depois que foi contaminada; pois é abominação perante o SENHOR; assim não farás pecar a terra que o SENHOR teu Deus te dá por herança.
Deuterónimo 25, 5: - Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer, sem filhos, então a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará e a receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado.
Deuterónimo 25, 11-12: - Quando brigarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar o marido da mão do que o fere, e ela estender a mão, e o pegar pelas suas vergonhas, cortar-lhe-ás a mão: não a olharás com piedade.
Deuterónimo 28, 30: - Desposar-te-ás com uma mulher, porém outro homem dormirá com ela; edificarás uma casa, porém não morarás nela; plantarás uma vinha, porém não aproveitarás o seu fruto.
Deuterónimo 28, 53: - Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o Senhor teu Deus, na angústia e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.

O Levítico também tem coisas ainda mais “ interessantes” do que estas. Claro que de Deus não têm nada. Mas ainda há quem acredite que sim…



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