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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Na hora que passa, anda muita gente preocupada com saber como há-de ganhar a guerra. Melhor seria que as energias fossem canalizadas no sentido de ganhar a paz. Só que este desígnio é muito mais difícil de alcançar. É que ele pressupõe não apenas afinações de estratégia, mas uma profunda mudança no coração.

 

Por outras palavras, não basta actuar por fora. É fundamental começar por dentro. Já dizia, de resto, Raul Brandão com a sapiência que lhe é reconhecida: «É por dentro que as coisas são». Foi por aqui, aliás, que começou o fenómeno Taizé, actualmente tão apreciado. O seu fundador, estupefacto com o que ocorria na segunda guerra mundial, perguntava a si mesmo: «Como é possível que seres humanos matem seres humanos?».

 

Não encontrando uma resposta que o satisfizesse, empreendia na busca de uma alternativa: «Como conseguir que as coisas sejam diferentes?». Muito tempo — e sobretudo muita procura depois — uma voz no seu íntimo se fez ouvir: «Começa por ti!». Deu conta Frère Roger de que o bem — tal como o mal, aliás — tem início numa única fonte: no coração humano. Assim sendo, é por aí (pelo coração) que urge começar. Sem delongas…

 

É claro que não basta a mudança no interior do homem. Seria, para usar a linguagem de Jürgen Moltmann, uma «ilusão idealista»: reduzir a mudança ao indivíduo. Mas é preciso igualmente ter presente que não chega a mudança no exterior. Aquela que o mesmo Jürgen Moltmann denomina «ilusão materialista»: circunscrever a mudança às estruturas sem implicar a pessoa.

 

O que, hoje por hoje, se verifica é que as mudanças ocorrem dentro de um mesmo cenário de fundo: o cenário da guerra, da violência e da agressividade. Trata-se de uma mudança que perpetua o sistema em que, desde há muito, estamos instalados. É a lógica que levou Lampedusa a sentenciar: «É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma».

 

Só que o mundo é uma grande pessoa do mesmo modo que a pessoa é um pequeno mundo. Há, portanto, uma estreita relação entre o micro e o macro, entre o que se passa na pessoa e o que ocorre no mundo. Urge, por conseguinte, desfuncionar por completo a guerra e fazer funcionar a paz.

 

Daí que estes tempos, que parecem penumbrosos, possam ser aurorais, se neles procurarmos inocular a semente da diferença, o alicerce da mudança. É preciso irenizar os corações e elpidologizar a existência. Irenologia (Tratado sobre a Paz) e Elpidologia (Tratado sobre a Esperança) são duas temáticas que deviam figurar em todas as escolas, em todos os graus de ensino. É imperioso educar para a paz e para a esperança. Nesse sentido, cabe-nos religar o que, infelizmente, tem andado bastante desligado: a lógica e o amor.

 

Hans Urs von Balthasar recorda que, em Jesus Cristo, «o pensamento está orientado, em conjunto com as restantes forças da alma, para o serviço do amor». Em Deus, «o logos é a expressão completa do Pai e, nessa medida, é também um acto do Seu amor».

 

Ao contrário do que acontece nas guerras, a verdade em Cristo não está conectada com o triunfo, com a conquista. A verdade em Cristo está umbilicalmente ligada ao amor. «O Filho não revela outra coisa além da bondade e do amor, de tal modo que, na Sua pregação e na Sua vida, Deus Se manifesta como amor».

 

A verdade extravasa, pois, o domínio do puro entendimento, do mero raciocínio. «A verdade que se explica em Cristo demonstra-se pormenorizadamente no Seu testemunho de vida total». Dois mil anos depois, será que o mundo já percebeu isto? E será que nós, cristãos, já o entendemos? A resposta está na vida. Até agora, não tem sido entusiasmante. Mas há que não desistir nem descrer.

 

A ( invencível) esperança diz-nos que amanhã será melhor. Que, amanhã, a paz sobrevirá. Que, amanhã, a paz nos visitará. Que, amanhã, o sol da felicidade brilhará e fará repousar o seu calor em todos os povos, em todos os chãos. Esperamos tão-somente que o amanhã não demore.

 

Ontem já era tarde. Então, que o amanhã aconteça hoje. Agora. Já!...

publicado por Theosfera às 11:26

De António a 31 de Maio de 2010 às 16:34
Irmão Roger sabia que Deus é Bondade.Entre ele e Francisco de Assis vejo muitos traços comuns. Mas há muitos milhões de crentes que ainda acreditam que esse Deus do Amor pode deixar muitos dos Seus filhos a arderem no Inferno. Para mim, este é um ponto fundamental da Teologia Católica.Ao longo dos séculos alguns homens foram escrevendo sobre Deus.E disseram que tinha Dele recebido isto e aquilo. Esta e aquela informação. Quem teima em crer que toda a Bíblia é Sagrada, não parece ver a enorme contradição que existe entre a concepção divina do demiurgo do Pentateuco e a do Deus que Cristo evocou. Dizem que essa é a sua " fé". Mesmo que a " fé" os conduza à visão deprimente do Pentateuco, continuam a insistir que é a sua " fé". Ainda que, contra todas as evidências, se contraponha que o falso Deus do AT não é compatível com o Deus revelado em Cristo, permanecem teimosamente a qualificar toda a a Bíblia de sagrada. Porque essa é a sua " fé". Andamos nesta mistificação sobre Deus há séculos. Não seria já tempo de nos aproximarmos do verdadeiro Deus e fazer tombar todas as iníquas concepções de Deus, que o coração nos diz serem totalmente incompatível com a Bondade de Deus?...
Depois, claro, estou mesmo a antever, vêm-me falar de Verdade e Humildade. De que a Igreja nunca erra. E que todos os papas foram inspirados pelo Espírito Santo. Círculo dogmático fechado. Nada a rever. Bola em frente e " fé" em Deus.A chamada quadratura do círculo...


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