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Segunda-feira, 29 de Março de 2010

1. Pode parecer despropositado, nesta época do ano, trazer à colação o tema da descristianização.

 

Praticamente não há casa onde não entre a Cruz. As ruas enchem-se de gente e continuam a abundar os sinais de fé.

 

E, no entanto, não falta quem, de forma recorrente e com intensidade crescente, alerte para a descristianização da sociedade.

 

Começando por um esboço do conceito, descristianização será um movimento de negação ou apagamento das referências a Cristo.

 

Será que se pode falar com acerto de um apagamento de Cristo na vida das pessoas e na própria sociedade?

 

Retenha-se, desde já, que a relação com Jesus Cristo se estabelece a partir de uma procura e com base num encontro.

 

Alguém poderá dizer que não existe essa procura ou que terminou esse encontro?

 

Não é, seguramente, o que resulta dos estudos de opinião e da abordagem mais elementar que possamos fazer.

 

 

2. O que se vai desenhando é um movimento muito nítido no sentido de uma distinção cada vez mais pronunciada entre Cristo e Igreja.

 

 

As pessoas, de uma maneira geral, conservam um encanto por Cristo e, ao mesmo tempo, denunciam um desencanto pela Igreja.

 

O que sucede, o mais das vezes, é que quando se fala de descristianização da sociedade, estamos a pensar no afastamento da Igreja.

 

Este é, sem dúvida, um facto notório e um dado marcante. As pessoas vão menos à Igreja. Ou, quando vão, vão de uma forma pouco regular.

 

E, pormenor nada despiciendo, vão cada vez mais quando as igrejas estão vazias, quando não há celebrações.

 

Acontece que a análise tem de contemplar o sentido inverso. As pessoas vão menos ao encontro da Igreja. Mas não será que a Igreja também vai menos ao encontro das pessoas?

 

Se as pessoas dizem procurar Cristo e, não obstante, vão menos à Igreja, não será porque, no seu entender, têm dificuldade em encontrar Cristo na Igreja?

 

No limite, não poderemos fugir à pergunta, por muito inquietante que seja: será que a Igreja é uma oportunidade ou um obstáculo para encontrar Cristo?

 

 

3. O certo é que proliferam estudos que apontam no sentido de uma clivagem entre Cristo e a Igreja.

 

Quem não se recorda de um slogan que, há décadas, fez fortuna: «Cristo sim, Igreja não»?

 

Juan Martin Velasco refere que estamos num tempo que o Cristianismo rejuvenesce e a Igreja envelhece.

 

A este ponto chegados, temos de ter presente que estamos a ir por um caminho perigoso.

 

É que a Igreja vem de Cristo. Mais, a Igreja é Cristo. É o Seu novo corpo. Ele usou o possessivo quando falou da Igreja: «a minha Igreja» (Mt  16, 18).

 

Isto significa que a Igreja é d’Ele, é de Cristo. Esta é, pois, a sua identidade. Mas será que é esta também a sua configuração?

 

Jesus teve uma grande preocupação com a transparência. Ele apresentou-Se como sendo a transparência do Pai (cf. Jo 14, 9). Será que a Igreja procura ser a transparência de Cristo?

 

Por entre a hesitação e no meio da tormenta, avulta a certeza que Pedro Mexia recentemente anotava: «A Igreja nunca erra quando é fiel ao Evangelho».

 

 

É claro que essa fidelidade nunca será total. Mas não será possível que seja um pouco mais reluzente?

 

Sabemos, já nos primeiros tempos, existia uma tensão entre Cristo e a Igreja, representada pelos Apóstolos.

 

Várias foram as vezes em que tentaram distorcer a Sua mensagem. Anote-se a discussão, deveras sintomática, entre o poder e o serviço. Havia quem quisesse o poder (cf. Mt 20, 20-28). Jesus assume-Se sempre como quem serve (cf. Lc 22, 26).

 

 

4. Por aqui se vê como não é só na sociedade que existe o perigo da descristianização.

 

Não é só a sociedade que corre o risco de se afastar de Cristo. A própria Igreja de Cristo não está isenta dessa possibilidade.

 

Numa sociedade videocêntrica, o que mais se deseja é ver. Os antigos, como informa Tertuliano, viam amor entre os cristãos. Percebiam que o amor era a súmula da mensagem de Cristo.

 

Se, como alertava Fernando Pessoa, «morrer é só não ser visto», tenhamos presente que a Igreja só sobrevive se ela tornar visível o amor. Onde há amor, há Cristo.

 

Acredito que Cristo está na Igreja. O problema é que muitos não O vêem nela...

 

publicado por Theosfera às 11:59

De António a 29 de Março de 2010 às 19:07
Há uma tensão dialéctica muito forte entre os crentes e as suas igrejas. E, em particular, no caso da Igreja Católica. Julgo que, por várias razões. Há sempre aqueles, uma escassa minoria, que possuem um ódio de estimação pela ICAR e tudo serve para denegri-la. Depois há uma enorme multidão daqueles que são crentes, católicos ou cristãos, que se integram no âmbito da Família Cristã. E que possuem fortes ligações afectivas à Igreja Católica. O facto de discordarmos no que nos suscita desacordo não deve ser visto como ataque mas como uma demonstração do sentido dessa ligação afectiva, ainda que com dissidências doutrinárias e de actuação a marcar a diferença. Dou um exemplo: quando censuro o Papa Bento XVI por se ter referido a João Crisóstomo como " um pastor de almas em tempo integral", não estou a querer mal a Bento XVI. Aliás, felizmente que não sei o que seja o sentimento do ódio. Estou apenas a sustentar que João Crisóstomo terá sido um dos grandes responsáveis pelas perseguições anti-semitas. Martinho Lutero foi outro grande responsável. Mas há mais, incluindo Agostinho de Hipona, que teve uma posição muito dúbia em relação às perseguições contra os hereges e os judeus. Se Bento XVI conhecia todo o passado de João Crisóstomo, foi desastroso no modo como o elogiou, sem fazer nenhum reparo a essa faceta reprovável desse padre da Igreja Católica. Se não conhecia, nenhum papa deve fazer intervenções públicas sem averiguar todo o passado das pessoas que louva. E no que não estiver de acordo com os ensinamentos de Cristo, deve verberar. Se não o fizer, sujeita-se às críticas. E, se errar, deve ser o primeiro a penitenciar-se do erro, ainda que involuntariamente cometido. Dando o exemplo de humildade que tanto apregoa em relação aos fiéis. Os papas só são considerados teologicamente infalíveis em assuntos dogmáticos de fé. Criticar o que está errado não é atacar pessoalmente ninguém. É uma elementar exigência de Justiça. Não desejo nenhum mal em relação aos meus irmãos Bento XVI, João Crisóstomo ou Agostinho de Hipona. Limito-me apenas a censurar o que considero errado e a louvar o que está certo. Isto não está de acordo com os princípios da exigência cristã? Ou devemos pactuar com o que está errado, para não nos acusarem daqueles nomes " ad hominem", que alguns usam quando não reconhecem aos outros o direito de crítica? O Cristianismo é uma enorme exigência para todos nós. Entre o silêncio cúmplice e a crítica bem intencionada, somos mais leais com os outros, exercendo a crítica do que aplaudindo hipocritamente…


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