O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Terça-feira, 31 de Dezembro de 2013

1. A nossa época não é (seguramente) a primeira nem será (provavelmente) a última da História. Pelo menos, não é a primeira que pensou ser a última.

 

Não se justificam, por isso, os alarmismos que costumam pontuar as passagens de ano e que ecoaram com particular incidência na recente transição de milénio.

 

As teses de Francis Fukuyama sobre o fim da História e o último Homem pecam por precipitadas e, aliás, o próprio autor já procedeu à respectiva correcção.

Mas um voltar de página na contagem do tempo também não é um acidente, um registo cronológico totalmente inócuo. Costuma ser tingido de alegria e vir carregado de esperança.

 

É essa alegria que importa prolongar e é essa esperança que nos cabe esticar e estender ao longo do ano.

 

 

2. A humanidade sempre foi marcada pela «nostalgia do futuro» de que fala Raymond Ruyer.

 

A História do Mundo também pode ser descrita como sendo a História do Fim. As perguntas acerca do para onde? e do para quê? ocuparam mentes e encheram páginas no decurso dos séculos.

 

O ser humano sempre teve o seu olhar dirigido para a frente, para o futuro, para o fim. É natural que, na proximidade do fim do ano, esse olhar se intensifique, embora nem sempre venha emoldurado com o desejado entusiasmo.

 

Usando duas conhecidas expressões de Jacques Séguy, dá a impressão de que os «paraísos encontrados» pelo coração facilmente se transformam em «paraísos perdidos» na realidade quotidiana.

 

É por isso que o pensamento do fim assusta um pouco o comum das pessoas. O terreno em que aparece o amanhã surge demasiado movediço. O fim desponta mais como destruição do que como plenitude.

 

Como sintetiza Jean Delumeau, há um contraste entre «dois sentimentos que se opõem. Por um lado, assistimos aos progressos contínuos da ciência e da técnica e apreciamos o conforto que nos trazem. Por outro, constatamos com melancolia que a ciência e a técnica não deram os resultados com que muitos dos nossos antepassados contavam. A verdade é que a felicidade continua a fugir diante de nós e de nada parece servir corrermos cada vez mais velozmente atrás dela».

 

 

3. Dir-se-ia que ao encanto da utopia sucedeu o impacto da contra-utopia.

 

A «invasão do pessimismo», a que alude Jean Delumeau, teve em Karl Krauss uma das mais arrepiantes formulações: «A cultura já não tem qualquer possibilidade de respirar. Há uma humanidade morta deitada ao lado das suas obras, que lhe custaram tanto espírito a inventar que já não lhe resta nenhum para se servir delas. Fomos complicados quanto baste para construirmos a máquina e somos demasiado primitivos para a pormos ao nosso serviço».

 

Também Oswald Spengler considera que «os mundos científicos são mundos superficiais, práticos, sem alma, meramente extensivos». Jacques Bouveresse entende que este é o preço que temos de pagar pelo progresso: «O que perdemos em sonho ganhámos em realidade; a nossa época é uma época de realizações e as realizações são sempre decepções»!

 

Nem sempre, responderemos. Mas é um facto que a decepção é o sentimento dominante em muitos espíritos.

 

2013 não fugiu à regra. Houve instabilidade, manteve-se a incerteza, prosperou a insegurança. O país não está bem. O resto do mundo não se sente melhor.

 

A justiça está longe. A paz permanece distante. As perspectivas não são muito animadoras.

 

 

4. É nestas alturas que temos de convocar as energias da esperança.

 

Não podemos descrer nem capitular. Os problemas existem não para nos vencerem mas para serem vencidos por nós.

 

Há que empreender na busca da nossa verdadeira vocação: enquanto pessoas e enquanto humanidade. «A humanidade inteira — escreve Jean Delumeau — tem

uma vocação e cada um de nós é chamado a um destino que deve levá-lo até Deus».

 

No fundo, trata-se, na linha do que defendia Teilhard de Chardin, de «pancristianizar o universo». É esta, como recomenda John Eccles, a nossa autêntica natureza: «Procurar a esperança na busca do amor, da verdade e da beleza».

 

Feliz ano novo!

publicado por Theosfera às 10:33

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