A. Antes de mais e acima de tudo, Deus
- O nosso problema não está no momento de dizer, mas no momento de fazer. Em relação a Deus, ninguém hesita em confessar que O ama sobre todas as coisas. Mas será que — na nossa vida — colocamos Deus antes de tudo e acima de tudo? Deus é o mais importante, mas será que, na prática, é a nossa prioridade?
Será que a nossa existência é verdadeiramente teocêntrica? Será que a nossa vida está mesmo centrada em Deus? Ou não sucederá que, na hora da verdade, olhamos demasiado para nós?
- No texto que acabamos de escutar, Jesus — embora pareça excessivo — é simplesmente claro, luminoso e coerente. Quem «olhar para trás não serve para o Reino de Deus» (Lc 9, 62).
Seguir Jesus é uma decisão prioritária, urgente e definitiva. Não é possível seguir Jesus no condicional ou como mera ocupação excedentária, quando não há mais nada para fazer. Seguir Jesus só pode ser a tempo inteiro (em «full time»), nunca em «part time».
B. Seguir Jesus só em «full time»
- É preciso estar inteiro e limpo no seguimento de Jesus. O Evangelho deste Domingo apresenta-nos algumas alegações que, à luz do bom senso, parecem pertinentes. Alguém dirá que sepultar o pai não é uma boa acção? Ou que despedir-se da família não é uma atitude da mais elementar correcção? É preciso notar que o Evangelho não diz que tudo isto seja negativo ou reprovável. Mas o seguimento de Cristo está antes e acima. O seguimento de Cristo há-de ser sempre prioritário.
Para nós, Jesus tem de estar em primeiro lugar. Daí que Ele apele com insistência e veemência: «Segue-Me» (Lc 9, 59). O convite de Jesus tem esta formulação imperativa. É preciso seguir Jesus desde que acordamos até que nos deitamos. É preciso seguir Jesus nos pensamentos, nos lábios, no coração. em toda a vida.
- O problema é que ainda cultivamos muitos respeitos humanos e cultivamos pouco o respeito divino. Somos, muitas vezes, «cristãos de língua» em vez de sermos autenticamente «cristãos de vida». Não basta trazer Cristo nos lábios; é urgente transportar Cristo na vida.
Não será que — tantas vezes — trocamos a Eucaristia por qualquer actividade, por qualquer passeio ou, então, pelo prolongamento do descanso? Que tempo damos à escuta de Cristo? Que espaço damos ao testemunho de Cristo? Eis o nosso maior défice: o défice de relação com Cristo. É fundamental, por isso, encher a nossa vida com Cristo.
C. Evangelizar a vida e vitalizar o Evangelho
- Como está o nosso compromisso com Cristo? É urgente evangelizar a vida e vitalizar o Evangelho. Não podemos fazer «férias de Cristo». Podemos — e devemos — fazer «férias com Cristo». Em qualquer momento (inclusive nas férias), Cristo há-de despontar sempre como a grande prioridade e a maior urgência.
Nem as adversidades nos hão-de fazer recuar neste propósito. Quanto maiores são as adversidades, tanto maiores hão-de ser as possibilidades.
- Naquele tempo, os samaritanos não quiseram receber os mensageiros de Jesus. Hoje em dia, também há muita gente que não nos aceita receber como enviados de Jesus. As perseguições no nosso tempo não são em menor número que as perseguições daquele tempo. Há muitas pessoas perseguidas só pelo facto de serem cristãs.
O que Jesus recomenda aos discípulos — em caso de adversidade — não é a desistência, mas a alternativa. Se não nos aceitam num lugar, há que tentar noutro lugar. Tiago e João queriam desistir dos samaritanos e até destruir os samaritanos. Jesus, porém, repreendeu-os e fez diferente: seguiu para outro lugar (cf. Lc 9, 54-56).
D. Amados, não armados
- Os lugares da missão, afinal, são todos os lugares. As atitudes na missão é que têm de ser bem seleccionadas: compromisso total, entrega plena e despojamento completo.
Na missão, Jesus quer-nos amando e amados, não armados nem armadilhados. O Evangelho não se transporta com o amor pela força, mas pela força do amor. Seguir Jesus é ir sempre atrás d’Ele, mostrando-O a quem ainda não O encontrou. A missão é sempre uma proposta à espera de uma resposta.
- Na missão, não pode haver intervalos nem interstícios ou interrupções. A missão há-de ser uma constante, uma urgência. Tal como, quando termina um ano, começa logo um outro ano, também, quando termina uma etapa da missão, tem de começar logo uma outra etapa da missão.
Na missão, não há interrupção. Na evangelização, não pode ser defeso. Mesmo em férias, há-de haver sempre missão. Até a descansar, é urgente evangelizar.
E. Muito será diferente na vida de toda a gente
- Jesus é exigente porque é amigo e é amigo porque é exigente. A Sua exigência é sinal de que acredita em nós. Não é a facilidade que nos conduz à felicidade. Um Cristianismo fácil não é um Cristianismo útil. Pelo contrário, um Cristianismo fácil não tem qualquer utilidade para a nossa vida.
Não recuemos diante das exigências da missão. Aquele que nos envia nunca deixa de estar ao nosso lado. Aliás, mais do que fazer, a missão é deixar fazer. A missão é deixar que Cristo faça em nós. No fundo, nós somos convidados a ser os lábios, as mãos e os pés de Cristo. Ele quis precisar de nós. Ele quer falar através de nós. Ele quer abraçar através de nós. Ousaremos recusar? Ousaremos recuar?
- Connosco levamos a maior riqueza: o próprio Cristo. Ele é a nossa herança, para usarmos o que cantamos no refrão do Salmo Responsorial. É Ele que nos liberta. É n’Ele que somos realmente livres. A qualquer momento, Ele vem até nós como Deus veio ter com Eliseu através de Elias. Foi no seu trabalho que recebeu o convite para se tornar profeta. A missão está acima de qualquer outra ocupação.
Não tenhamos medo desta radicalidade. É na radicalidade que assenta a nossa liberdade. É nesta ousadia que reencontraremos a maior alegria. Comecemos por escutar. O Senhor vai batendo à nossa porta. Que o nosso coração esteja atento para Lhe responder a qualquer momento. Com o nosso «sim», muito será diferente na vida de toda a gente!