O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 10 de Junho de 2018

Eu sei, Senhor,
que não mereço
que me visites,
que entres na minha casa,
que te envolvas na minha vida.

Eu sei, Senhor,
que não sou digno
que deixes o Teu aconchego,
que experimentes o frio e o desconforto,
que Te sujeites à intempérie do abandono e da ingratidão.

Eu sei, Senhor,
que não tenho direito
a exigir tanto despojamento
nem a esperar tamanha disponibilidade.

Eu sei, Senhor,
que não mereço nada,
que não sou digno de nada,
que não tenho direito a nada.

Mas é por isso que Te agradeço,
é por isso que me comovo
e é por isso que fico sem palavras.

Obrigado, Senhor,
obrigado, bom Deus.
Tu és tudo
e vens ao meu nada.
Tu és tanto
e cabes em tão pouco
que sou eu.

Ensina-me, Senhor,
a ser humilde,
a olhar para todos
não com os meus óculos
mas com os Teus olhos,
que são olhos de afecto,
olhos de esperança,
olhos de amor.

Ensina-me, Senhor,
a compreender a lição da Tua vinda:
lição de humanidade,
de simplicidade,
de singeleza.

Ensina-me, Senhor,
a ver-Te
não apenas nas Tuas imagens de barro,
mas nas Tuas imagens de carne e osso
(algumas mais de osso que carne).

Ensina-me, Senhor,
a sentir
que a Tua morada é no Homem,
em todo o ser humano.

Ensina-me, Senhor,
a venerar-Te nas crianças, nos idosos,
nos pobres,
nos famintos,
nos sofredores e nos desalentados.

Que eu possa perceber
que sempre que estou com alguém
é conTigo que me encontro.

Aquece, Senhor, o nosso coração.
Não deixes que ele gele
com a arrogância, a frieza e a indiferença.

Fica connosco, Senhor,
sorri para nós Domingo de sol!

publicado por Theosfera às 11:07

A. Há censuras que se tornam elogios

 

  1. Há elogios que deviam ser tomados como censuras e há censuras que poderíamos tomar como elogios. O que os parentes dizem a respeito de Jesus tem o objectivo de constituir uma censura, mas no fundo estão a fazer-Lhe um grande elogio. Alegavam eles que Jesus estava fora de Si (cf. Mc 3, 21). Sem querer, estavam a fazer-Lhe um grande elogio, já que estavam a afirmar uma enorme verdade.

De facto, Jesus viveu sempre «fora de Si». Jesus nunca pensou em Si. O centro de Jesus nunca esteve em Si. Jesus foi alguém — verdadeira e profeticamente — «excêntrico». O centro de Jesus era o Pai e a humanidade. Foi por isso que Jesus entregou a Sua vida ao Pai. Foi por isso que Jesus entregou a Sua vida pela humanidade. Eis o que falta, eis o que urge: hoje e aqui, é fundamental estar «fora de si».

 

  1. O nosso maior problema é quando nos centramos nos nossos problemas. Porque, nessa altura, já nos estamos a distanciar de Jesus. Ao contrário de Jesus, nós vivemos muito voltados para nós. Estamos muito «ego-centrados», muito «ego-sentados». Com efeito, a revolução individualista desencadeou uma cultura egocêntrica e uma mentalidade egolátrica. O «eu» está no centro ou em cima. O outro encontra-se atrás e em baixo.

É o «eu» que está no centro, é ao «eu» que prestamos culto. Só nos ocupamos dos outros quando os outros servem o nosso «eu». É certo que nunca estivemos tão perto dos outros. Mas também é verdade que nunca nos teremos sentido tão distantes dos outros. O mal não é ser diferente. O mal é passar a ser indiferente. Infelizmente, estar perto nem sempre costuma equivaler a ser próximo.


 

B. Da «egolatria» à «egocracia»

 

  1. O «eu» parece gostar de se afirmar perante os outros e também — o que é pior —à custa dos outros. No fundo, cada «eu» sente-se detentor de todos os direitos. Cada outro é encarado como portador de todos os deveres. Eis a síntese do nosso tempo: tanta gente perto; tanta gente só. Todos vivem ao lado de todos. Mas ninguém parece saber de ninguém. Aos olhos de muitos, será que alguém é mais que ninguém?

É óbvio que, no tropel de mudanças que estão em curso, o «eu» ganha muito. Mas arrisca-se a perder o mais importante. A lógica do lucro valoriza a transacção comercial e subestima o serviço gratuito.

Ainda há muitos que servem. Mas são cada vez mais os que se servem. O «self service» é uma prática e é sobretudo um sinal. Servir está a ser um verbo cada vez mais reflexo. Para não poucos, servir é, acima de tudo, servir-se. É urgente perceber que nada somos sem os outros. Inferno não são os outros. Inferno é viver sem os outros, contra os outros. Era bom que percebêssemos que existir é nunca desistir, é nunca desistir dos outros.

 

  1. Acontece que a revolução individualista parece ter passado a uma segunda — e mais perigosa — fase. Como se já não bastasse a «egolatria», temos de suportar também a «egocracia». É que, enquanto a «egolatria» leva cada um a viver para si mesmo, a «egocracia» leva a pretender que os outros vivam em função de nós próprios.

Curiosamente, já Oscar Wilde se apercebera de que «egoísmo não é tanto viver à nossa maneira, mas exigir que os outros vivam como nós queremos». Estamos, assim, a ser arrastados para a dominação do mais descontrolado poder: o poder do «eu». E em vez de uma só ditadura, acabamos por estar submetidos a muitas ditaduras: às «ditaduras» de muitos «eus».


 

C. A melhor vitamina contra o egoísmo

 

  1. Não vivemos em ditadura, mas será que vivemos em autêntica liberdade? Ao menos numa ditadura, sabemos que não há liberdade. Será que, em democracia, nos sentiremos sempre livres? Entre a dor da ausência e a amargura de uma desilusão, que espaço sobra para a humana realização? É indiscutível que, como assinalou Ruy Barbosa, «a pior democracia é melhor que a melhor ditadura».

Só que há situações em que — entre a ditadura e a democracia — as diferenças são mínimas, tornando-se as linhas de demarcação praticamente imperceptíveis. O relacionamento humano surge cada vez mais contagiado por sintomas de intransigência, rigidez e intolerância. O que mais nos sobressalta já não é sequer a ditadura de um partido ou de um grupo. O que mais nos atormenta, hoje, é a crescente «tirania do eu». Nos tempos que correm, a mais pesada autocracia é a «egocracia». Obscurecidos os ideais e esgotadas as ideologias, resta a afirmação do «eu»: sobre os outros e — o que é mais grave — contra os outros.

 

  1. É por isso que Jesus é a maior alternativa a esta cultura individualista. E é desta «vitamina C» — é desta «vitamina Cristo» — que nós precisamos para mudar tudo isto. De facto, Jesus Cristo representa, como ninguém, a referência suprema do centramento descentrado. O centro de Jesus não é Jesus. O centro de Jesus é Deus e o Homem. Jesus é totalmente para Deus e totalmente para o Homem.

Foi neste sentido que o Concílio Vaticano II teve o cuidado de advertir que a luz dos povos não é a Igreja, mas Cristo. Por conseguinte, o que há-de resplandecer na Igreja é o que sempre transpareceu em Cristo: Deus e o Homem.


 

D. De joelhos para acolher e de pé para caminhar

 

  1. Assim sendo, o importante para a Igreja não há-de ser o aparato organizativo, mas a experiência espiritual e a acção social. A Igreja tem de ser perita na relação com Deus e mestra no encontro com os homens. Quando a Igreja se volta demasiado para si ofusca a luz que transporta. Torna-se «lua nova» quando é chamada a ser «lua cheia». Não deixa passar a luz quando se interpõe à frente da luz.

Precisamos não tanto de uma «Igreja sentada», mas de uma «Igreja de joelhos» e de uma «Igreja de pé». Precisamos de uma «Igreja de joelhos» para acolher o mistério de Deus e de uma «Igreja de pé» para caminhar ao lado dos homens.

 

  1. Até um ateu como André Comte-Sponville assinalou ser a espiritualidade o decisivo na nossa era. E um não crente como Albert Einstein tinha noção de que «a mais bela experiência que podemos fazer é a do misterioso». Karl Rahner percebeu que passava por aqui a sobrevivência do Cristianismo. Neste século XXI, o Cristianismo «será místico ou não será».

Ao mesmo tempo e porque Deus está voltado para o Homem (Jesus é, para nós, o Deus-Homem), a Igreja é chamada a envolver-se em tudo quanto é humano. Não apenas apoiando as vítimas da injustiça, mas questionando as causas da injustiça. É que o amor a Deus não sobrevive sem o amor ao próximo do mesmo modo que o amor ao próximo não vive sem o amor a Deus. Não é possível amar a Deus sem amar o próximo. E é inteiramente impossível amar o próximo sem amar a Deus. Só quem ama a Deus primeiro conseguirá amar a humanidade por inteiro. À semelhança de João Simão da Silva, mais conhecido como Marco Paulo, cada cristão também pode garantir: «Eu tenho dois amores». Os dois amores do cristão são o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a nós mesmos.


 

E. Por uma Igreja «intro» e «extro» vertida

 

  1. Por aqui se vê como, em Igreja, temo de nos descentrar constantemente para nos recentrar permanentemente: em Deus e no Homem. Temos de formar comunidades orantes e, simultaneamente, comunidades fraternas. Temos de constituir uma Igreja «intro-vertida» e, ao mesmo tempo, «extro-vertida»: voltada para Deus na oração e voltada para a Humanidade na acção.

Para isto, não são necessários especiais recursos organizativos. Até é bom que eles sejam mínimos para não nos desviarem do essencial. Basta que nos detenhamos no Evangelho. O programa de Jesus está aí. Basta que nos mobilizemos em torno de um mandamento: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (cf. Jo 13, 34; 15, 12). É pela solidariedade, pela misericórdia e pela compaixão que a Igreja mostra o acolhimento do amor divino.

 

  1. Quanto mais a Igreja se voltar para fora, tanto melhor se revitalizará dentro. Quanto mais a Igreja se despojar, tanto melhor a Igreja se redescobrirá na sua beleza e na sua unidade. O pecado da divisão, tão duramente denunciado por Jesus, nasce de um enquistamento de cada um sobre si mesmo. «Se um reino estiver dividido, combatendo-se a si mesmo, não pode aguentar-se» (Mc 3, 24). Infelizmente, ainda há muitas divisões nas nossas comunidades. É sinal de que ainda estamos muito apegados a nós e pouco ligados a Cristo.

A divisão é fomentada pelo aprisionamento do «eu» e exacerbada pelo ódio dos outros. Como se não bastasse o egoísmo, temos de suportar, tantas vezes, o ódio. É tempo de parar. É tempo de recomeçar. Libertemo-nos de nós. Desapeguemo-nos da «tirania do eu». Entreguemo-nos a Deus. E habituemo-nos a tratar os outros como filhos Seus!

publicado por Theosfera às 05:14

Hoje, 10 de Junho (10º Domingo do Tempo Comum e Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades), é dia do Anjo de Portugal, Sta. Olívia e S. João Dominici.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 00:00

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