- O 10 de Junho não é só um feriado para nós. Devia ser também um feriado sobre nós, sobre Portugal.
Para muitos, é mais um dia com paisagens para ver. Bom seria que fosse também um dia de paragem para reflectir.
- No limite, cada um vai olhando para si e para os seus.
Os problemas pessoais já são suficientemente aflitivos. Pouco — ou nenhum — espaço sobra, assim, os problemas comuns.
- Somos um país pequeno, mas que, mesmo assim, não cabe em si. Conseguimos dar novos mundos ao mundo e, apesar disso, não resolvemos os problemas que asfixiam o nosso mundo.
Temos passado, mas parece que não temos memória. Guardamos a história, mas não aparentamos ter muita vontade de continuar a fazer história.
- A síntese angustiada de Pessoa mantém-se pertinente: «Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez. Falta cumprir-se Portugal».
Falta que Portugal cumpra com cada um. Falta que cada um cumpra com Portugal.
- Hoje, voltam a dizer-nos que somos um país adiado, mas, nesse caso, já o somos há muitos séculos.
Não somos perfeitos. Às vezes, até nos mostramos contrafeitos.
- Temos defeitos. Eis o nosso drama, eis também a nossa sorte.
Se não fossem os nossos defeitos, o que nos motivaria? Se tudo já estivesse feito (e bem feito), que futuro nos restaria?
- Houve algum momento em que Portugal não esteve em crise? Em que altura não se disse que vinham aí tempos difíceis?
A tudo temos sobrevivido. Temos sobrevivido à realidade, cruel. E temos sobrevivido aos diagnósticos, nada estimulantes.
- Somos, enfim e como afirmava o Padre Manuel Antunes, uma excepção.
Constituímos um paradoxo vivo. Somos «um povo místico mas pouco metafísico; povo lírico mas pouco gregário; povo activo mas pouco organizado; povo empírico mas pouco pragmático; povo de surpresas mas que suporta mal as continuidades, principalmente quando duras; povo tradicional mas extraordinariamente poroso às influências alheias».
- Seja como for, continuamos a sentir Portugal, a fazer Portugal e, não raramente, a chorar Portugal.
Tantas vezes, são essas lágrimas que nos identificam e pacificam. Aquilo que soa a desespero acaba por saber a esperança.
- Apesar das tardes sofridas, acreditamos sempre que uma manhã radiosa voltará a sorrir.
É por isso que nunca desistimos de nós. É por isso que, não obstante as nuvens, há sempre um Portugal a brilhar em milhões de corações espalhados pelo mundo!