O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Domingo, 28 de Setembro de 2014

A. O prometido é devido, mas raramente é cumprido

1.Prometer e não cumprir. Eis o que mais condenamos, mas eis também onde todos mais pecamos. Por isso, «quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra»(Jo 8, 9). Quem de nós pode assegurar que cumpre tudo o que promete?

Eis um domínio em que ninguém poderá ficar de fora como juiz, já que todos estamos por dentro como infractores. De facto, não são apenas os políticos, que tão apressadamente causticamos, a prometer o que não cumprem e a não cumprir o que prometem.

Bismark achava que nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois da caça. Mas eu diria que é praticamente em todos os momentos da vida que faltamos ao prometido. É praticamente em todos os momentos da vida que não fazemos o que dizemos ou fazemos o contrário do que dizemos. Enfim, o prometido até será devido, mas raramente é cumprido.

 

2. Será que marido e esposa procuram cumprir as promessas que assumiram no dia do Matrimónio? Será que se esforçam por serem fiéis um ao outro, amando-se e respeitando-se «na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da sua vida»?

Será que os pais procuram educar os filhos na fé cristã e na observância dos Mandamentos, como prometeram no dia do Baptismo? E será que, na sequência da referida promessa, procuramos amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos? Será que santificamos o Domingo, cada domingo, e os dias santos participando na Eucaristia? Será que honramos devidamente o nosso pai e a nossa mãe? Será que não alimentamos falsos testemunhos? Será que procuramos ser castos nas palavras e nas obras, nos pensamentos e nos desejos? Será que respeitamos aquilo que não é nosso?

E será que nós, sacerdotes, procuramos — como prometemos — exercer, «digna e sabiamente, o ministério da Palavra, na pregação do Evangelho e na exposição da fé católica»? Será que nós, sacerdotes, procuramos — como prometemos — «celebrar com fé e piedade os mistérios de Cristo (…) principalmente no sacrifício da Eucaristia e no sacramento da Reconciliação»? Será que, como nos foi mandado na ordenação diaconal, «acreditamos no que lemos, ensinamos o que cremos e vivemos o que ensinamos»?

Ninguém está, portanto, em posição de apontar o dedo a alguém. Faltar à palavra dada e à promessa feita não é um exclusivo de alguns, é uma falha de todos. Nossa também.

 

B. Ninguém é excluído, todos são mobilizados

3. É para toda esta situação que somos alertados, neste Domingo, num cenário que nos é bastante familiar. Se há significante que conhecemos bem é a vinha. É na vinha onde muitos trabalham não só agora, mas também agora, sobretudo agora. A vinha na Bíblia é um significante com um poderoso significado. Ela simboliza o Reino de Deus na terra, tipificado no Antigo Testamento pelo povo de Israel e no Novo Testamento pela Igreja, novo Israel.

Para o trabalho desta vinha ninguém é excluído, todos são mobilizados: os que estão fora e os que estão dentro. Há oito dias, falava-se de um proprietário que saiu para convidar trabalhadores para a vinha. Hoje, fala-se de um homem que manda sair os seus próprios filhos para a vinha. Ou seja, ninguém é descartado, todos são convocados. Aos de fora faz-se um convite para entrar na vinha, aos de dentro faz-se um apelo para sair para a vinha.

O Papa Francisco tem insistido na necessidade de uma Igreja que saia, de uma Igreja em saída até às periferias existenciais. Os que estão dentro têm de sair, para que os que têm estado fora possam entrar. O ponto de encontro é a «vinha do Senhor», isto é, a Igreja que se encontra ao serviço da humanidade.

 

4. Se alguém afasta, não é Deus que Se afasta de nós. Nós é que podemos afastar-nos de Deus ou, o que é intolerável, afastar em nome de Deus. A missão é para todos, a missão é para sempre e — pormenor nada despiciendo — a missão é para já.

Note-se, a este propósito, a fórmula que o pai usa: «Filho, vai hoje trabalhar para a vinha». Este hoje não é apenas um dia com 24 horas. Este hoje aponta para o tempo inteiro da nossa vida. Envolve, portanto, todos os hojes e cada hoje: o hoje deste dia também.

Parafraseando uma conhecida máxima popular, dir-se-ia: «Não adies para amanhã a missão que podes — e deves — realizar hoje». É que a missão, além de necessária, é urgente; pertence ao prioritário, ao inadiável.

 

C. Nem tudo se resolve com palavras

5. Entretanto, estes dois filhos não são somente duas pessoas diferentes; corporizam sobretudo duas atitudes distintas diante da urgência da missão. Em ambos os casos, o que vem pelos lábios não corresponde ao que sobrevém na vida. Um inicialmente recusa, mas depois aceita (cf. Mt 21, 29). O outro inicialmente aceita, mas depois recusa (cf. Mt 21, 30). Ou seja, promete, mas não cumpre. Em síntese, quem faz a vontade do Pai não é quem fala, é quem faz.

Neste ponto, tocamos uma lacuna muito pertinente na vida da Igreja. Com efeito, há por vezes a tentação de tudo resolver verbalmente, de tudo resolver com palavras. Jesus estava a discutir com pessoas que eram peritas em falar, em dizer. O mal é que se tratava de um dizer sem fazer e de um fazer contrário ao dizer. Daí o apelo que o Mestre nos deixa: «Fazei o que eles dizem, mas não o que eles fazem»(Mt 23, 3)

 

6. Logo no Sermão da Montanha, Jesus tornara tudo muito claro: «Nem todo aquele que Me diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus, mas somente aquele que faz a vontade do Meu Pai que está nos Céus»(Mt 7, 21). Nem todo o que fala de Deus, faz a vontade de Deus. O discurso dos lábios conta pouco se não encontra eco no discurso da vida. Como notou González-Faus, Jesus falava de Deus deixando transparecer Deus.

Grave não é dizer. Grave é quando o fazer contradiz o dizer. Dizer só é importante quando se diz o que se faz e se faz o que se diz. É por isso que, devendo obviamente respeitar o que as pessoas dizem, devemos estar mais atentos ao que as pessoas fazem.

 

D. Os que estão atrás são puxados para a frente

7. Sto. António, que estava saturado de palavras sem conteúdo, gritou: «Cessem as palavras e falem as obras. De palavras estamos cheios, de obras vazios». O Padre Giuseppe de Lucca alinhava pelo mesmo registo: «A melhor maneira de dizer as coisas é fazê-las». É que, como observou Abraham Lincoln, as «acções falam mais alto que as palavras». Por tudo isto, não admira que S. João exorte a que não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e em verdade (cf. 1Jo 3, 18).

O grande drama é que, quase sempre, as palavras dizem uma coisa e as acções mostram outra coisa, radicalmente oposta. Acontece que, meditando neste pedaço do Evangelho, fácil é concluir que os que dizem e não fazem são os que se julgam superiores. Já os que fazem, embora o não digam, são pessoas mal vistas e até malquistas. Mas é nestes últimos que Jesus se revê: não pelo que fizeram até então, mas pelo que se dispõem a fazer a partir de então. Eles são, embora não presumam. Já os outros presumem, mas não são. E necessário não é presumir; é ser.

 

8. Apesar de tudo, Jesus não exclui ninguém, nem sequer aqueles que se auto-excluem. O Evangelho não é fatalista. O Evangelho é a negação de todo e qualquer fatalismo. Dizia Almeida Garrett — e o povo gosta de repetir — que «o que tem de ser, tem muita força». Mas Deus tem uma força ainda maior. Trata-se de uma força que nem de força precisa. É a força da bondade, da misericórdia e da compaixão.

As coisas deixam de ser lineares quando Deus entra em campo. Os que parecem excluídos afinal também são envolvidos. Os que parecem preteridos afinal até são os preferidos. E os que são atirados lá para trás até são puxados para a frente. Em suma, muitas surpresas tem Deus para nós. Jesus é a revelação do Deus das «novas oportunidades», do Deus de todas as oportunidades.

Nem os que se recusam a trabalhar na vinha são excluídos do Reino de Deus. Na verdade, Jesus não diz que os sumos sacerdotes e os anciãos do povo estão excluídos do Reino do Deus. Diz, sim, que os publicanos e as mulheres de má vida vão à frente deles (cf. Mt 21, 31). E vão à frente deles não por continuarem com a sua vida, mas por estarem dispostos a mudar de vida.

 

E. Precisamos de vitamina C, de «vitamina Cristo»

9. O mal de muitos é acharem que não precisam de mudar. Mudar é para os outros. Os outros é que estão errados. Hoje como ontem, não falta quem pense que até Deus está errado. Que está errado por ser misericordioso, por dar uma oportunidade ao pecador que «se afaste do mal»(Ez 18, 27). Hoje como ontem, não falta quem considere a misericórdia um sinal de fraqueza. E, no entanto, como reconhecíamos há momentos na oração colecta, a maior prova do poder de Deus está quando Ele perdoa e Se compadece. Não espanta, pois, que o salmista suplique: «Lembrai-Vos, Senhor, das Vossas misericórdias»(Sal 24, 6). Só que Deus lembra-Se. Deus lembra-Se até quando nós nos esquecemos, até quando nós O esquecemos.

Por tudo isto, é urgente mudar. É urgente que mudemos para que a nossa maneira de proceder se aproxime da maneira de proceder de Deus. Como explica S. Paulo, Cristo Jesus, pelo caminho da humildade, vem ao encontro do homem sem deixar de ser divino (cf. Fil 2, 6-8. Pelo mesmo caminho da humildade, o homem é chamado a ir ao encontro de Deus sem deixar de ser humano.

 

10. Deus não nos desumaniza. Pelo contrário, é Deus quem mais nos humaniza e fraterniza. É Deus quem mais faz de nós humanos e fraternos. Em Cristo, Deus venceu as distâncias que nos separavam. É a humildade que nos aproxima de Deus. E é a humildade que nos aproxima uns dos outros, sem preconceitos nem censuras. Procuremos, então, ter «os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus»(Fil 2, 5), que era «manso e humilde»(Mt 11, 29). Desse modo, ficaremos unidos e nada faremos por rivalidade nem por vanglória (cf. Fil 2, 3). Nada faremos a pensar nos nossos interesses e tudo faremos a pensar nos interesses dos outros (cf. Fil 2, 4).

No fundo, o maior adversário da nossa felicidade pode estar dentro de nós. O egoísmo é uma doença que cega, uma doença que tolhe, uma doença que pode matar. Só venceremos o egoísmo com muitas doses de vitamina C, de «vitamina Cristo». É Cristo que nos ensina a olhar para os outros como eles são. Os outros não são menos que nós. São outros além de nós e são outros connosco. Cristo também está neles. Em Cristo, todos estamos unidos a todos!

publicado por Theosfera às 16:21

 Obrigado, Senhor, pela Tua presença,

pela Tua Palavra

e pelo Teu Pão.

 

Obrigado por estares nos mais pequenos

e por nos convidares à simplicidade.

 

É na humildade dos simples

que nos esperas e interpelas.

 

Que nós sejamos como as crianças.

Que, como as crianças,

tenhamos um coração puro e manso.

 

Senhor, que nunca percamos a mansidão.

Que saibamos dar as mãos

e oferecer o nosso coração.

 

Com a Tua e nossa Mãe,

queremos aprender a caminhar

e a louvar-Te por quanto nos dás.

 

Que a nossa vida seja uma resposta

à Tua proposta de amor

e ao Teu projecto de Paz,

JESUS!

 

publicado por Theosfera às 11:20

O problema da delação é que nem sempre denuncia os verdadeiros culpados e, muitas vezes, ajuda a agredir tantos inocentes.

O problema dos cidadãos é que, não podendo apurar factos, limitam-se a ouvir os delatores.

O importante é olhar para os factos e não ouvir os delatores.

Se os factos existem, eles hão-de chegar a todos e não apenas aos delatores.

Não esqueçamos: a honra das pessoas é o maior património que se pode transportar na vida!

publicado por Theosfera às 08:54

Muita coisa se pode dizer de Deus. Até o silêncio muito diz sobre Ele.

Só que, às vezes, no afã de tanto dizer o que Ele é, podemos tropeçar no que Ele não é, no que Ele jamais quer ser.

De entre tanta coisa dita e não dita, de entre tanta coisa dizível e indizível, o que de melhor se poderá dizer de Deus?

S. Tomás não hesitava: «A misericórdia é o que de melhor podemos dizer de Deus».

Palavra de sábio. Palavra de santo. Palavra de quem fala do que vê, do que sente, do que vive!

publicado por Theosfera às 08:29

Estamos sempre a decidir, mesmo quando recusamos decidir.

A indecisão acaba por ser uma decisão: a decisão de não decidir.

E nem sequer estamos quimicamente sós ao decidir. Somos inevitavelmente influenciáveis e influenciados.

Daí que Ambrose Bierce, que pereceu há 100 anos, tenha dito que decidir é «sucumbir à preponderância de um determinado conjunto de influências sobre um outro conjunto de influências».

Quem melhor souber influenciar mais perto estará de triunfar!

publicado por Theosfera às 08:10

Abundam faladores dos males.

Precisam-se fazedores do bem.

publicado por Theosfera às 08:06

Cheguei a Lisboa há 25 anos, completaram-se hoje.

 

Na paróquia de S. João de Brito, fiz uma aprendizagem, em chave existencial, do que é ser padre.

 

Encontrei sacerdotes totalmente devotados à sua missão e uma comunidade transbordando uma generosidade sem limites.

 

Respirava-se um ambiente de família entre todos.

 

O que mais me impressionou sempre foi o sentido do «outro», que transpirava nos mais pequenos gestos.

 

Impossível esquecer, já no último ano em que lá estive, o que os jovens fizeram para apoiar um grupo de pessoas que, de um dia para o outro, ficaram desalojadas em Camarate.

 

Mobilizaram toda a comunidade (crentes e não crentes) e, durante dias, ali estiveram junto de desconhecidos que depressa passaram a ser tratados como irmãos.

 

Tanta coisa poderia dizer. O importante é a gratidão que fica e a imagem que permanece.

 

Só queria agradecer a tantos que, durante do dia de ontem, me contactaram de várias formas. Mesmo que já tivesse esquecido, teria sempre quem me reavivasse a memória.

 

Foram apenas quatro anos. Em 1993, regressei às origens. Mas o que aprendi ficou gravado no mais fundo do meu ser de uma forma sentida, reconhecida, agradecida.

 

A Paróquia de S. João de Brito acompanhar-me-á sempre. Até ao fim!

publicado por Theosfera às 00:32

O sorriso apagou-se tão repentimente como se acendera.

Há 36 anos,, o mundo alvoroçava-se com a notícia da morte inopinada de João Paulo I, o Papa do sorriso, eleito 33 dias antes.

Muitos deram dele a imagem de um homem ingénuo. Inegenuidade, contudo, é o que patenteia tal percepção.

Foi sempre de uma dedicação imensa a Deus e ao próximo. Tinha uma assolapada paixão pela catequese.

Nos 33 dias de pontificado, deixou uma marca imperecível sobre o amor materno de Deus.

«Deus é Pai e, ainda mais, Mãe». Eis o que saiu dos seus lábios a 10 de Setembro de 1978.

Foi uma lição viva. O seu lema era «humilitas» (humildade)

No fundo, sempre é possível conjugar a firmeza com a serenidade.

publicado por Theosfera às 00:19

Hoje, 28 de Setembro (26º Domingo do Tempo Comum), é dia de S. Venceslau e S. Lourenço Ruiz.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 00:14

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