O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

1. Nem tudo acaba quando parece terminar. Há bastante que fica no muito que aparenta passar. E, afinal, surge sempre um novo começo após cada fim.

Para lá do fim, o que resta é o rasto. E nunca fica no passado quem deixa rasto. Quem se torna presente em cada presente.

 

2. Nestes tempos, não são apenas os factos que são novos. Os próprios tempos, onde ocorrem os factos, também despontam como novos, como radicalmente novos.

Outrora, era fácil presumir que o Papa não adoece e que, portanto, não abdica. O Papa raramente aparecia e praticamente nunca saía.

 

3. As doenças do Papa eram escondidas. E a abdicação do Papa dificilmente seria ponderada. Por incrível que pareça, o Papa, noutras eras, seria mais notado quando morria.

A sua morte tornava-o mais visível — e até mais visitado — com o cortejo de peregrinos que desfilavam diante do seu túmulo.

 

4. Acontece que, na era da comunicação, é praticamente impossível a uma figura como o Papa não ser visto. A sua fragilidade passeia-se à nossa frente.

João Paulo II foi adoecendo praticamente em directo. Bento XVI vai-se despedindo (também) em directo. Primeiro, um Papa só escolhia a data de entrada. Agora, também pretende escolher a data de saída.

 

5. Mas, atenção, Bento XVI abdica, mas não capitula. Retira-se, mas não desiste. Recolhe-se, mas não se submete.

Olhando para os dois últimos Papas, ficamos com a certeza de que é preciso ter muita ousadia para fazer o que João Paulo II fez. Mas habita-nos também a convicção de que uma não menor coragem é necessária para dar o passo que Bento XVI deu. Afinal, o Papa mostra uma grande força quando assume a sua fraqueza. Quando revela a sua fraqueza com uma enorme franqueza.

 

6. Bento XVI é um homem de hábitos simples e porte frugal. Mas, ao mesmo tempo, é consensualmente reconhecido como um aristocrata do pensamento e um exímio escultor da palavra.

Ele, que sempre quis ser um homem comum, nunca se revelou banal. Nos textos de maior fôlego ou no mais leve improviso, foi sempre capaz de ser brilhante, profundo e acutilante.

 

7. Foi sempre alguém que iluminou com a fé as questões colocadas pela razão. Neste sentido, não se posiciona apenas como um defensor da transcendência ante o excesso de imanência. Também não é somente o advogado do absoluto diante das incursões do relativismo. Acaba por ser igualmente um protector da ciência perante os excessos do cientismo. Ao apontar os seus limites, ajuda-a a reencontrar o seu lugar.

 

8. Daí que até os eruditos que não o seguem como líder religioso o respeitem imenso como um intelectual de primeira grandeza. Basta evocar Jurgen Habermas, Umberto Eco ou Paolo Flores d'Arcais.

Todos eles reconhecem a excelência do pensamento e a excepcionalidade da obra.

 

9. Bento XVI é um arauto da fé e um príncipe da cultura. Não foge às interrogações. Não dribla as respostas.

Deu sempre dimensão pastoral à sua produção teológica. E sempre conseguiu oferecer profundidade teológica à sua acção de pastor. Exemplar!

publicado por Theosfera às 00:44

Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

A crise percorre toda a Europa.

Começou pelo sul. Já alastra a norte.

O norte chega, portanto, mais tarde à crise.

Mas, provavelmente, vai sair mais cedo da crise.

E, quase de certeza, vai-nos deixar mais tempo mergulhados na crise.

Não orgulhosamente sós!

publicado por Theosfera às 09:01

Do muito que se tem escrito por estes dias avulta a sensação de que, nesta altura, se deseja um Papa que seja um misto de «bombeiro» e «incendiário».

São muitos os que esperam alguém que apague as «chamas» que ardem dentro e que transporte essas «chamas» para fora.

Há «chamas» que destroem a Casa de Deus: intriga, rivalidade, hipocrisia.

Há «chamas» que podem mudar o mundo: a Fé, o Evangelho, a Caridade, a Justiça!

publicado por Theosfera às 08:57

Há mais força na inteligência do que inteligência na força.

Eurípedes sinalizou o essencial: «Um braço vigoroso não é mais aguerrido contra a lança do que um braço frágil; são o carácter e a coragem que fazem o guerreiro»!

publicado por Theosfera às 08:50

A glória do homem, diz Sto. Ireneu, «é perseverar e permanecer no serviço de Deus»!

publicado por Theosfera às 07:09

Hoje, 17 de Fevereiro (I Domingo da Quaresma), é dia dos Sete Santos Fundadores dos Servitas, S. Silvino e Sta. Mariana.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:08

1. Muitas e sapientes são as palavras que nos servem neste tempo da Quaresma.

 

Tantas e tão variadas são as propostas que, num primeiro olhar, somos tentados a concluir que toda a gente tem muito para dizer. Será que existe a mesma disponibilidade para escutar?

 

A Quaresma tem tudo para ser um tempo de silêncio, um tempo de espera, um tempo de esperança.

 

É importante haver um tempo em que se possa pensar mais no tempo, no que andamos a fazer no tempo.

 

É necessário agir. É fundamental que haja acção. Mas é vital não reduzir a acção a mera agitação.

 

Parece que quem não se move não vive. Parece que quem não grita não comunica. Parece que quem não corre não caminha.

 

Até na fé corremos o risco de ser hiperactivos. Fazemos, refazemos e, por vezes, desfazemos.

 

 

2. Haja em vista que também Jesus era uma pessoa muito ocupada. Frequentemente, nem tempo tinha para comer nem para descansar. E, no entanto, parecia sentir uma profunda necessidade de silêncio e de solidão.

 

Sempre que podia, Jesus retirava-Se para os montes ou para o próprio deserto. As Suas grandes decisões são antecedidas de longas permanências em locais ermos.

 

Não é possível seguir Jesus sem O acompanhar no Seu silêncio, na Sua solidão. Desde logo, porque só na medida em que O acompanharmos no silêncio, estaremos em condições de assimilarmos a Sua palavra.

 

Não é fácil criar silêncio no mundo barulhento de hoje. Vivemos cercados de toneladas de ruído: de ruído sonoro e de ruído visual.

 

Se o silêncio não nos procura, temos de ser nós a procurar o silêncio. Fazer silêncio é muito mais que estar calado. É criar uma predisposição para a escuta do outro, para o acolhimento da sua presença.

 

O silêncio despoja-nos dos nossos preconceitos acerca das pessoas e das coisas. Faz-nos estar de coração limpo, completamente desarmadilhados.

 

Hoje em dia, há uma pressão enorme para estar sempre em cena, para nunca deixar o palco ou o «prime time».

 

 

3. A vida humana é um equilíbrio entre o relacionamento e a solidão. A solidão não é necessariamente corte. Pode até ajudar a aprofundar os nossos relacionamentos.

 

Anthony Storr assinala que os grandes génios e os maiores sábios nunca abdicaram de longos períodos de solidão.

 

Tal como o trabalho do dia ganha muito com o descanso da noite, também a qualidade da missão beneficia bastante com algum silêncio.

 

Como nota Albert Nolan, «temos de encontrar uma forma de nos desligarmos, de tempos a tempos, do fluxo imparável de palavras, de sons e de imagens que nos bombardeiam a toda a hora». Mais importante ainda, «precisamos de um silêncio interior que desligue a nossa torrente interior de pensamentos, imagens e sentimentos».

 

 

4. Neste espírito, a Quaresma é uma oportunidade preciosa para perceber o que se passa no mundo e na nossa vida.

 

É um tempo para perceber que, antes de ter uma opinião sobre tudo, é necessário alcançar uma visão acerca de cada coisa.

 

Faz falta uma pastoral que escute, que pense nas perguntas e que procure meditar nas interpelações.

 

Precisamos de uma pastoral que não queira ter uma resposta pronta para tudo e para todos.

 

Precisamos de uma pastoral que estacione nas pessoas e nas situações e que não remeta logo para planos, programas e projectos.

 

A diferença cristã não está tanto nas palavras ditas às pessoas, mas na atenção dedicada às pessoas.

 

Enzo Bianchi alerta que tal diferença cristã «deve expressar-se sobretudo na atenção aos pobres, aos mais humildes».

 

Por muito que nos sintamos em minoria, não nos podemos demitir de escutar a dor e a expectativa de uma imensa maioria que peregrina ao nosso lado.

 

O silêncio do Sábado Santo é uma boa terapia quaresmal. Nele fermentará a alegria da Páscoa como a chegada do futuro ao nosso presente.

 

O silêncio ajuda a suspender o mesmo, o igual. O silêncio surpreende-nos com a beleza do diferente, com a visita do que é novo!

 

publicado por Theosfera às 00:31

Sábado, 16 de Fevereiro de 2013

Foi a primeira vez, em muitos séculos (há quem diga desde S. Leão Magno, no século V), que alguém dedicado inteiramente à reflexão teológica chegou ao mais alto ministério da Igreja.

Fiquei feliz por isso.

É que, muitas vezes, a Teologia é olhada com desconfiança e suspeição mesmo dentro da Igreja.

Frequentemente é encarada como algo dispensável, necessária apenas para concluir um curso antes de ser padre.

Ainda que esta imagem esteja a mudar, o paradigma continua a ser este. Pelo menos, entre nós.

Conforta, assim, saber que o novo Papa é alguém que sempre abraçou a Teologia como missão pastoral.

Perito em Sto. Agostinho e S. Boaventura, tem obras muito importantes na área da Eclesiologia e da Teologia Fundamental.

De memória cito, entre os seus livros, textos como "O novo Povo de Deus", "Introdução ao Cristianismo", "Questões sobre a Igreja", "Diálogo sobre a fé", "O sal da terra", "A Igreja e a Democracia", "A espiritualidade sacerdotal", etc.

publicado por Theosfera às 23:53

Há quem acuse Bento XVI por não ter sido o «Papa da novidade».

Mas onde alguns vêem um motivo de acusação eu vejo um título de glória.

De facto, Bento XVI não foi — nem tinha de ser — «o Papa da novidade».

Mas foi — como devia ser — o «Papa da fidelidade». Da fidelidade ao que é novo desde há dois mil anos.

publicado por Theosfera às 23:36

Afligem-me as conjecturas sobre o perfil do próximo Papa, que destacam preferencialmente a idade e a proveniência.

Uma vez mais, passamos ao lado do essencial: o escolhido, sob a inspiração do Espírito Santo, será certamente aquele que estiver em melhores condições de anunciar Jesus Cristo.

Nada mais. O que já é muito. O que já é tudo.

Não haverá, portanto, qualquer demarcação em relação ao pontificado cessante. 

Bento XVI é, seguramente, irrepetível. Mas é também imprescindível.

De resto, como é que o futuro podia prescindir de quem o presenteou com um legado desta envergadura?

Por tudo, muito obrigado, Santo Padre!

No seu maravilhoso ministério, cumpriu-se, uma vez mais, Mt 11, 25.

Os «inteligentes» e os (que se julgam) «sábios» não o entenderam.

Os pequeninos e os simples perceberam-no inteiramente.

E como é belo sentir que tudo isto é do «agrado do Pai»!

publicado por Theosfera às 23:33

O Papa não adoece. O Papa não abdica. O Papa raramente aparece.

Assim se pensava, assim se dizia.

As doenças do Papa eram escondidas. A abdicação do Papa ia sendo evitada.

Só que, na era da comunicação, é praticamente impossível a uma figura como o Papa não ser visto.

As suas doenças acabam por ser conhecidas. O seu desgaste acaba por ser exposto.

Os dois últimos pontificados passaram a fronteira do resguardo da privacidade e do controlo da informação.

João Paulo II foi adoecendo praticamente em directo. Bento XVI vai-se despedindo (também) em directo.

São tempos novos, estes.

Primeiro, um Papa só escolhia a data de entrada. Agora, também escolhe a data de saída!

publicado por Theosfera às 22:38

Muito se diz com os lábios. Muito se desdiz com a vida.

E de pouco adianta muito dizer com os lábios se a vida acaba por tudo desdizer.

Eis a advertência de William Ralph Inge: «Não adianta os cordeiros declararem-se vegetarianos enquanto o lobo tiver uma opinião diferente».

Os lobos nunca respeitarão a opinião dos cordeiros!

publicado por Theosfera às 22:07

Hoje, 16 de Fevereiro, é dia de Sto. Elias, Sto. Isaías, S. Jeremias, S. Samuel, S. Daniel, Sto. Onésimo, Sto. Honesto, Sta. Filipa Mareria, S. Simão de Cássia e Beato José Allamano.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:12

Nem tudo acaba quando tudo parece terminar.

Há muito que fica em muito que aparenta passar.

E, afinal, surge sempre um novo começo após o último fim!

publicado por Theosfera às 00:21

Será que os intelectuais desistiram? Será que os que pensam não se preocupam?

Há muitos comentadores que aparecem e poucos pensadores que surgem.

Nuno Júdice analisa o «fim dos intelectuais em Portugal», substituídos pelos comentadores que reproduzem «clichés» e que falam «como se tivessem alguma coisa para dizer».

O intelectual alerta: afinal, estamos em ditadura! Só que é uma ditadura muito mais maquiavélica já que «não se apresenta como tal».

O pior é que «vivemos todos convencidos de que somos livres e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós, que não sabemos como rejeitar».

Hoje luta-se contra quem? Contra líderes? Mas onde estão os líderes? «É mais difícil reagir contra funcionários, contra burocratas, sobretudo quando se ficou sem nada»!

publicado por Theosfera às 00:05

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

Hoje, 15 de Fevereiro (dia de abstinência), é dia de. S. Faustino, S. Jovita e S. Cláudio la Colombière.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:10

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

Hoje, 14 de Fevereiro, é dia de S. Cirilo, S. Metódio, S. Marão e S. João Baptista da Conceição.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 06:32

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

1. Depois da Terça-Feira de Carnaval a Quarta-Feira de Cinzas. Após o Entrudo a Quaresma. (Aliás, chama-se Entrudo por ser precisamente entrada na Quaresma). E, de facto, já estamos na Quaresma.


Dir-se-ia que é o tempo litúrgico que mais se assemelha à vida humana. Muito mais que o Carnaval. Poucos, com efeito, encontrarão motivos para folia. Pelo contrário, o que mais nos pedem são sacrifícios.


A Quaresma é um tempo de penitência e o que mais se vê, hoje em dia, são pessoas com uma vida inteira de penitência.


Temos a penitência da crise. Temos a penitência de ouvir falar da crise e, ainda por cima, a toda a hora. Temos a penitência do desemprego. Temos a penitência da criminalidade. Temos a penitência da injustiça. Temos a penitência da pobreza, da exploração, da fome.


Pode parecer, por isso, pouco oportuno (e até desumano) vir apelar a mais penitência. Que maior pode ser a penitência de quem não tem pão para comer ou casa para habitar? Que maior pode ser a penitência de quem perdeu o emprego?


Como bem lembrou o Padre Ignacio Ellacuría, a Cruz tem uma permanente actualização histórica. Há pessoas crucificadas nas esquinas da existência. Cristo continua a ser torturado, condenado e morto em tantos deserdados da sorte, em tantos abandonados da vida: Ele está neles.



2. É fundamental, portanto, que quem faz apelos à penitência apresente também gestos visíveis de despojamento.


Isto significa que aquilo de que nos privamos há-de ser oferecido a quem precisa. Veremos então que muitos passam mal porque nós não nos importamos. E notaremos que o nosso supérfluo é essencial para eles.


Se somos capazes de jejuar por razões egoístas, porque é que não havemos de jejuar por razões altruístas? Não falta quem reduza ao alimento para perder peso, para ser elegante. Porque não reduzir ao alimento para ajudar quem tem menos, quem tem quase nada?



3. Urge que nos habituemos a fazer do outro o centro do nosso ser, o centro da nossa preocupação, o centro da nossa vida.


Temos, pois, de nos des-centrar para nos re-centrar. O nosso centro só pode ser o centro de Cristo.


O centro de Cristo foi sempre Deus e o Homem. O centro dos membros da Igreja de Cristo só poderá ser Deus e o Homem. Daí o grande tripé que alavanca toda a trajectória quaresmal: a oração (relação com Deus) e o jejum e a esmola (partilha com o ser humano).


Sabemos, por exemplo, que, no dia 25 de Janeiro de 2010, 120 milhões de cristãos de 39 países promoveram uma jornada de oração e de jejum pela justiça no Zimbabwe.


Muita coisa poderá ser feita. Porque não, por exemplo, oferecer o peditório de um mês nas paróquias para ajudar os mais carenciados?


Uma Igreja pobre será sempre uma Igreja próxima, uma Igreja capaz de interpelar.



4. Façamos penitência apoiando quem tem de fazer penitência. A penitência por opção é um gesto de comunhão para com quem tem de fazer penitência por imposição.


Despojemo-nos da carne e do peixe caro, levando um pouco de pão a quem nada tem para comer.


Mas porque não fazer também, de vez em quando, jejum do automóvel desanuviando o ambiente? Porque não fazer jejum do cigarro, contribuindo para a minha saúde e para a saúde do meu semelhante? Porque não fazer jejum de televisão ou na net, dando mais atenção aos outros?


Façamos também jejum de imagens e de palavras. E não deixemos de fazer jejum dos juízos precipitados, das acções agressivas e dos sentimentos violentos.


Deixemos que a bondade brilhe. Que a paz se instale. Que a justiça floresça. E que o amor vença.


Não foi por tudo isto que Ele [Jesus] deu a vida?

publicado por Theosfera às 16:26

Para Charles de Foucauld, é possível imitar Jesus de três formas: pela pregação, pelo deserto e por...Nazaré. Esta última foi a via escolhida pelo Irmão Universal. Em que consiste? Na reprodução da vida de Jesus em Nazaré ao longo dos trinta anos de vida oculta. Trata-se, então, de uma via feita de:

- imitação;

- obediência;

- contemplação (isolamento, recolhimento, oração, prece);

- sacrifício;

- glorificação de Deus.

 

Eis uma proposta interessante a seguir neste tempo santo da Quaresma.

publicado por Theosfera às 14:36

Sinal dos tempos.

Em todos os temas, há sempre o perigo de ceder às questões laterais.

Foi apenas há dois dias que o Santo Padre anunciou que se vai retirar e já aparecem (não) questões como estas. A partir do dia 28, como é que se vai vestir e como é que vai ser tratado?

Quanto à primeira, depende dele. Quanto à segunda, dependerá de todos.

Mas, afinal, é tudo mais simples do que parece.

Se até depois de morto o Papa (que nessa altura obviamente já não é Papa) é transportado com as vestes papais, porque é que não há-de continuar a usar o hábito branco se assim o entender?

Quanto ao tratamento, vale a mesma linha de argumentação. Os Papas, quando morrem (e, portanto, já não são Papas), continuam a ser tratados pelo nome que escolheram.

O mesmo vale para os que abdicaram. Todos falam de S. Celestino V e quase ninguém fala de S. Pedro Morone.

Trata-se, sem dúvida, de uma situação a que não estávamos habituados. Por isso, pode funcionar o princípio da analogia.

Um bispo, quando deixa de exercer, não deixa de ser bispo. É tratado como bispo emérito.

Se é bispo de um patriarcado, é natural que seja tratado como patriarca emérito.

Sendo o Papa o Bispo de Roma e tendo deixado o exercício, poderá ser tratado como Papa emérito.

Mas isto é totalmente lateral. O importante é que Bento XVI foi Papa entre 19 de Abril de 2005 e 28 de Fevereiro de 2013.

É assim que a história regista. É assim certamente que todos falarão desta grande figura, antes e depois do dia 28!

publicado por Theosfera às 11:18

Hoje, 13 de Fevereiro, é dia de S. Martiniano, S. Jordão da Saxónia, Sta. Cristina de Espoleto e S. Benigno.

É também Quarta-Feira de Cinzas, dia de Jejum e Abstinência.

Inaugura-se, portanto, o Tempo da Quaresma.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:07

1. Já estamos na Quaresma, um tempo na vida, uma oportunidade para a vida.

 

Numa primeira (e rápida) leitura, ela é o retrato mais fidedigno da nossa existência. De facto, não é só na Quaresma que muitos fazem penitência.

 

O quotidiano de muitos assemelha-se a uma grande, a uma interminável, penitência. Há quem faça jejum não apenas na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa, mas todos os dias do ano.

 

Há casas onde o alimento não chega. Há lares onde o alimento não entra.

 

A Quaresma leva-nos a pensar que vivemos num mundo tecido de injustiças e semeado de gritantes desigualdades.

 

Para muitos, a penitência ainda pode ser uma opção. Para muitos outros, porém, é uma imposição, uma condenação.

 

 

2. A Quaresma recorda-nos que alguém (Jesus) tomou partido e assumiu a condição dos mais desfavorecidos.

 

A Quaresma avisa-nos de que Deus não Se conforma com a situação actual do nosso mundo.

 

Deus não aposta na manutenção, mas na transformação. O que é dito a cada um no início deste tempo santo («arrependei-vos») é repetido a todos os membros da humanidade: «mudai de vida, de conduta, de paradigma».

 

Há uma sabedoria muito grande na proposta quaresmal. A mudança no mundo tem de começar pela transformação de cada pessoa que existe no mundo.

 

Porque cada pessoa é, como dizia Gregório de Nissa, um «pequeno mundo», o que se passar em cada homem repercutir-se-á no mundo inteiro. Daí o imperativo de Gandhi: «Sê tu mesmo a mudança que queres para o mundo».

 

Há ideologias que propugnam a revolução a partir das estruturas. E é claro que estas também têm de ser transformadas. Mas só mudando o interior de cada pessoa, é possível alavancar uma mudança mais vasta, no mundo.

 

3. A Quaresma permite-nos ver que, afinal, somos uns permamentes nómadas. No fundo, não somos. Tornamo-nos. Estamos sempre em viagem. Estamos sempre em devir.

 

A questão que se coloca é se, nesta viagem, nos tornamos melhores. A experiência não nos traz especiais novidades nem boas notícias.

 

É sabido que, por si mesma, a inércia nada resolve. Tudo tem de radicar na vontade, na opção.

 

A Quaresma é um imperativo de reflexão. É um dado que estamos diferentes. Será que, diferentes, estaremos melhores?

 

Um dia, Leonardo Boff perguntou ao Dalai Lama qual era, para ele, a melhor religião. Quem estivesse à espera de que a resposta fosse «o Budismo» ficou, no mínimo, surpreendido.

 

«A melhor religião - respondeu o mestre tibetano - é aquela que faz de ti uma pessoa melhor».

 

É claro que o problema não pode ser colocado apenas do lado da proposta. Também tem de ser remetido para o lado do receptor. Mas subsiste a pertinência da interpelação.

 

 

4. O ambiente de recolhimento, próprio da Quaresma, não é somente uma ajuda à meditação pessoal. É igualmente (e bastante) uma oferta de sentido.

 

A reflexão ajudar-nos-á a ver como é que tem sido a nossa conduta em relação a Deus e em relação ao próximo. Jesus fala-nos de Deus como Pai e do ser humano como Irmão.

 

Os dois maiores eixos do tempo quaresmal são a espiritualidade e a solidariedade. Somos convidados a alicerçarmos uma vida descentrada ou, melhor, recentrada em Deus e na Humanidade.

 

É por isso que a Quaresma, sendo uma época que nos lembra muito o tempo presente, também nos ajuda a vislumbrar o que pode (e deve) ser o tempo futuro: um tempo de partilha, um tempo de doação, um tempo de fraternidade, um tempo de luz.

 

A estrutura do tempo quaresmal permite-nos perceber como, por vezes, é preciso bater no fundo para começar a subir.

 

No fundo de nós, acolhamos o melhor que Deus semeou no mundo e nas pessoas. Demos uma oportunidade à vida.

 

Procuremos escovar a poeira do egoísmo que nos infecta. Conjuguemos o verbo dar na forma transitiva, mas sobretudo na forma reflexa. Ou seja, demos algo de nós e aprendamos a darmo-nos a nós!

 

 

Não nos resignemos ao que somos. Tornemo-nos melhores pessoas, mais tolerantes, mais fraternas, mais humanas, mais felizes!

publicado por Theosfera às 00:24

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2013

Gostaria de vos contar uma história. É uma história de Kirkegaard reproduzida por Joseph Ratzinger no seu livro Introdução ao Cristianismo.

Trata-se de um espectáculo de circo que estava montado numa aldeia. Tudo estava pronto. Eis, porém, que as chamas surgem e um forte incêndio se desencadeia. O director não tem mais ninguém a quem recorrer senão a um palhaço.
Só que este já se encontrava vestido e devidamente maquilhado. Mesmo assim, foi enviado à povoação mais próxima a pedir socorro.
Retratou com fidelidade o que se estava a passar. E não era só o circo que estava em risco. Os campos e até as casas das imediações corriam perigo. Era necessário, pois, que todos viessem combater o incêndio.
Contudo, ninguém o levou a sério. Os habitantes pensaram tratar-se de uma boa encenação do palhaço. Viram nos seus gritos uma publicidade, bem conseguida, ao espectáculo. Aplaudiram e desataram a rir a bandeiras despregadas.
O palhaço insistiu e começou a chorar, desesperado. Tentou convencer as pessoas acerca da gravidade da situação. Ninguém lhe ligou. Os risos até aumentaram. E os elogios à arte representativa do palhaço não deixaram de se fazer ouvir.
Só que, entretanto, as chamas alastraram. O circo foi destruído e a povoação reduzida a cinzas!
Para Ratzinger, «o palhaço que nem consegue fazer as pessoas ouvirem a sua mensagem é a imagem do teólogo». No fundo, podemos acrescentar: é a imagem do padre, do crente, da pessoa recta. Nenhum deles «é levado a sério».
Por mais que gesticulem e se esforcem «para convencer aqueles que o ouvem acerca da seriedade da situação, as pessoas considerá-lo-ão sempre, e de antemão, um…palhaço».
O palhaço, apesar do esforço, não conseguiu ser convincente. Ainda que tenha dito a verdade, não foi credível. O conteúdo estava certo, mas a roupagem não era ajustada.
Qual é a roupagem certa para não fazermos figura de palhaço? Só conheço uma: «a entrega incondicional da nossa vida a Deus e à humanidade»!
publicado por Theosfera às 23:33

1. Neste tempo em que quase tudo está programado, ainda há acontecimentos que nos espantam e pessoas que nos surpreendem.

A renúncia do Santo Padre não é caso único na história, mas, nos últimos seis séculos, é facto inédito. Com efeito, em muitas centenas de anos, é a primeira vez que um Papa anuncia a data do fim do seu ministério.

 

2. É muito sintomático que uma pessoa tão cerebral se revele também uma pessoa tão sensível. Mas se repararmos, os momentos principais da sua vida foram marcados por uma intensa sensibilidade.

Em 1981, foi sensível ao apelo de João Paulo II e veio para Roma. Até 2005, manteve-se sensível ao mesmo João Paulo II, que não atendeu aos seus pedidos para se retirar. Em 2005, voltou a ser sensível ao colégio dos cardeais que o elegeu Papa. Desta vez, mostra-se sensível a si mesmo, à debilitação progressiva das suas forças.

 

3. As atitudes de João Paulo II e Bento XVI parecem diametralmente opostas, mas, a bem dizer, estão intrinsecamente ligadas.

O elo de ligação está na mesma fé e em igual amor à Igreja.

 

4. Foi por amor à Igreja que João Paulo II entendeu permanecer até ao fim. Foi por amor à Igreja que Bento XVI decidiu sair antes do fim.

João Paulo II optou por confiar naqueles que trabalhavam com ele. Bento XVI optou por confiar o trabalho a outro depois dele.

 

5. João Paulo II entendeu apagar-se à frente de todos. Bento XVI decidiu retirar-se da frente de todos.

João Paulo II expôs-se até quando se apagava. Bento XVI quer retirar-se antes de se apagar.

 

6. Neste sentido, não é correcto dizer que João Paulo II ficou apegado ao lugar nem que Bento XVI optou por abandonar a missão.

Afinal, trata-se da mesma leitura crente da realidade. Sejam quais forem as nossas opções, é sempre Deus que conduz a história: antes de nós, connosco e depois de nós.

 

7. Bento XVI tem inteligência, lucidez, coragem, obra feita. Só não teve imprensa favorável.

Nunca foi — nem procurou ser — mediático. A imagem que dele criaram não corresponde ao que ele é.

O presente não tem tido justo para com ele. Mas estou certo de que o futuro lhe fará justiça. Este Papa sempre preferiu a luminosidade das profundezas às fugazes luzes da ribalta!

 

8. Mas — atenção — o Papa vai cessar este ministério, mas não vai deixar a missão. Pretende continuar a servir a Igreja «com uma vida dedicada à oração».

E assim se faz história uma vez mais. Tudo começa na oração. Tudo deve decorrer na oração. Tudo há-de ser reconduzido à oração.

A oração é o berço, o alimento e o corolário da missão.

 

9. Este recolhimento não traduz, por isso, uma desistência. Traduz, sim, um acto de confiança.

Significa acreditar que, no fundo, é Deus que guia o Seu povo. Nós somos os Seus instrumentos, a Sua voz, as Suas mãos, os Seus pés!

 

10. No entanto, só pessoas verdadeiramente grandes são capazes desta compreensão. E de gestos com esta dimensão, com esta nobreza, com esta humildade.

Por isso e por tudo (que é tanto), muito obrigado, Santo Padre!

publicado por Theosfera às 21:24

 
É um texto pequeno, mas merece uma atenção muito grande.
O texto onde o Papa anuncia que renuncia ao «ministério de Bispo de Roma» diz muito sobre Bento XVI e sobre o que ele pensa acerca da Igreja e da função que está quase a deixar.
Trata-se, pois, de um concentrado de doutrina e de uma preciosa condensação de espiritualidade. Assim, fica claro que para ele:
1) O papado é um ministério de natureza espiritual: «governar a barca de S. Pedro e anunciar o Evangelho»;
2) O exercício deste ministério tem uma componente institucional (obras e palavras) e uma componente mística (sofrimento e oração); isto configura uma valorização do testemunho do seu imediato antecessor, João Paulo II;
3) O referido exercício do ministério de papa (na sua dupla componente institucional e mística) requer vigor no corpo e no espírito;
4) Na actualidade, tem havido transformações no mundo e mudanças na pessoa do Papa;
4.1 - As transformações em curso no mundo colocam «questões de grande relevância para a vida da fé»;
4.2 - As mudanças na pessoa do Papa, sobretudo as determinadas pelo avanço da idade, levam-no a ter a certeza de que «já não tem forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro»; daí que conclua pela «incapacidade» para exercer, «em boa forma», tal ministério;
5) A consciência, que o Concílio Vaticano II considerou o «santuário secreto», foi a instância que o guiou neste exame e o levou a esta conclusão;
6) Cessa o ministério, mas não termina a missão; vai continuar a servir a Igreja «com uma vida dedicada à oração».
E assim se fez história.
A oração é o berço, o alimento e o corolário da missão.
Tudo começa na oração. Tudo deve decorrer na oração. Tudo há-de encontrar a plenitude na oração!
 
publicado por Theosfera às 14:03

João Paulo II entendeu apagar-se à frente de todos. Bento XVI decidiu retirar-se de todos.

João Paulo II expôs-se até quando se apagava. Bento XVI quer deixar de se expor antes de se apagar.

Atenção que o Papa diz que vai continuar a servir. Vai continuar a servir rezando. Porque a oração também é serviço, o principal serviço, a base de todo o serviço.

Aliás, é bom não ignorar que Bento XVI recorda a natureza da missão que vai deixar.

Trata-se de uma missão sobretudo espiritual. É fundamental que nunca o esqueçamos!

publicado por Theosfera às 11:59

Muito pessoalmente, também penso que a alusão do Papa à debilidade das suas forças não se refira apenas ao que se passa no seu corpo. É bem possível que ele pensasse também (e bastante) no que ocorre no corpo da Igreja.

Quer como cardeal, quer como Papa, Bento XVI nunca negou que o principal problema da Igreja é interno.

É natural, por isso, que esta evocação da falta de vigor inclua também muito desencanto sobre o que se passa na barca de Pedro!

publicado por Theosfera às 11:36

As atitudes de João Paulo II e Bento XVI, perante a mesma situação, parecem diametralmente opostas, mas, afinal, estão intrinsecamente ligadas.

A ligação está na mesma fé e em igual amor à Igreja.

Foi por amor à Igreja que João Paulo II entendeu permanecer até ao fim. Foi por amor à Igreja que Bento XVI decidiu sair antes do fim.

Neste sentido, não é correcto dizer que João Paulo II ficou apegado ao lugar nem que Bento XVI optou por fugir da missão.

João Paulo II optou por confiar naqueles que trabalhavam com ele. Bento XVI optou por confiar o trabalho a outro depois dele.

No fundo, é a mesma leitura crente da realidade. Sejam quais forem as nossas opções, é sempre Deus que conduz a história: antes de nós, connosco e depois de nós!

publicado por Theosfera às 11:26

É muito sintomático que o Papa tão intelectual se revele uma pessoa tão sensível.

Se repararmos, os momentos principais da sua vida foram marcados por uma intensa sensibilidade.

Em 1981, foi sensível ao apelo de João Paulo II e veio para Roma.

Até 2005, manteve-se sensível ao mesmo João Paulo II, que o impediu de se retirar.

Em 2005, voltou a ser sensível, desta vez ao colégio dos cardeais que o elegeram Papa.

Nesta altura, mostra-se sensível a si mesmo, à sua situação, concretamente à debilidade progressiva das suas forças.

Em todas estas manifestações de sensibilidade, aflora uma aguda racionalidade.

De facto, é muito racional dar atenção aos sinais da realidade. É um acto de profunda lucidez discernir com a razão (neste caso, iluminada pela fé) aquilo que a sensibilidade emite.

As forças do Papa podem estar a enfraquecer. Mas a inteligência continua intacta!

publicado por Theosfera às 11:05

A renúncia do Papa, não o esqueçamos, é um acontecimento da vida da Igreja e, nessa medida, da história da humanidade.

Tendo em conta que a Igreja está na humanidade, é natural (e até saudável) que aquilo que diz respeito àquela seja discutido nesta.

Mas era importante que os critérios fossem adequados. Daí que seja curioso notar como, na grelha analítica que percorre a comunicação social, os critérios prevalecentes não são tanto os teológicos, mas os políticos.

É estranho olhar para este acontecimento a partir do ângulo mediático e da febre informativa.

Procuram-se explicações imediatas, descurando-se as motivações profundas. Curiosamente, tais explicações imediatas pertencem ao reino da especulação, da conjectura e até da conspiração. Já as motivações profundas econtram-se no texto papal.

Não custa lê-lo. É pequeno. Mas é fundamental lê-lo com muita atenção. Apesar de pequeno, é muito profundo!

publicado por Theosfera às 10:47

A vida não é medida pelo número de anos, mas pela intensidade da vivência.

Para Jules Renard, «a vida não é comprida nem é curta: ela tem uma duração própria».

E, nessa medida, é eterna.

A eternidade não é o prolongamento indefinido; é o rasto que fica. E há vidas que deixam rasto para sempre!

publicado por Theosfera às 10:24

«A política tem sido a arte de obter a paz por meio da injustiça».

Será que Agostinho da Silva tem razão?

De facto, nem sempre a paz nasce da justiça. Mas só quando nasce da justiça a paz é paz!

publicado por Theosfera às 10:06

Crescenzo afirmou: «É fácil amar a humanidade, difícil é amar o próximo».

Sucede que só amando o próximo se conseguirá amar a humanidade.

Sem cada próximo a humanidade fica incompleta, inconcluída!

publicado por Theosfera às 10:02

O contraste entre a ditadura e a democracia não é tão linear como parece.

A imposição da vontade de um sobre muitos é vista como ditadura. Mas será que a imposição da vontade de muitos sobre um é democrática?

A vontade de muitos será sempre (e necessariamente) melhor que a vontade de um?

É aqui que entra a função moderadora da ética e da lei.

A ética e a lei têm a função de nos livrarem do despotismo de um e a missão de nos acautelarem dos descontrolados ímpetos de muitos!

publicado por Theosfera às 08:12

Hoje, 12 de Fevereiro, é dia de Sta. Eulália de Barcelona e Sto. António Cauleas.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:08

A 19 de Maio, as agendas litúrgicas assinalam a memória de S. Celestino V.

 

Trata-se de alguém que, muito a contragosto, aceitou ser Papa, mas que, pouco tempo depois, abdicou.

 

O que sempre me impressionou mais neste homem foi a humildade com que aceitou a missão e a humildade com que se retirou dela.

 

Pedro Celestino, eremita, nasceu em 1221 em Isenia, na província de Apulia.

 

Tendo apenas seis anos de idade, disse à mãe: «Mãe, quero ser um bom servo de Deus».

 

Depois de ter terminado os estudos, retirou-se para um ermo, onde viveu dez anos.

 

Decorrido este tempo, ordenou-se em Roma e entrou na Ordem Beneditina.

 

Com licença do Abade, abandonou o convento, para continuar a vida de eremita. Como tal, teve o nome de Pedro de Morone, nome tirado do morro de Morone, no sopé do qual erigira a cela em que morava.

 

O tempo que passou naquele ermo foi uma época de grandes lutas e provações.

 

A paz e tranquilidade voltaram depois de Pedro ter confessado o estado de sua consciência a um sábio sacerdote.

 

Em 1251, fundou, com mais dois companheiros, um pequeno convento, perto do morro Majela. A virtude dos monges animou outros a seguir-lhes o exemplo.

 

O número dos religiosos, sob a direcção de Pedro, cresceu tanto que o superior, por uma inspiração divina, deu uma regra à nova ordem, chamada dos Celestinos.

 

Esta Ordem, reconhecida e aprovada por Leão IX, estendeu-se admiravelmente, e, ainda em vida do fundador, contava 36 conventos.

 

Com a morte de Nicolau V, em 1292, ficou a Igreja sem Papa.

 

Dois anos durou o conclave, sem que os cardeais chegassem a acordo.

 

Finalmente, a 5 de Julho de 1294, contra todas as expectativas, saiu eleito Pedro Morone.

 

Só que ao eremita faltavam por completo as qualidades indispensáveis para governar a Igreja, ainda mais num período tão crítico e difícil.

 

Os cardeais depressa viram que o eleito, em vez de ouvir os seus conselhos, preferia seguir os do rei e de alguns monges, ficando com isto seriamente afectados os interesses da Igreja.

 

O Pontífice, por sua vez, reconheceu que estava deslocado e depressa abdicou (13-12-1294).

 

Bonifácio VIII, seu sucessor, foi interpelado por muitos, que chegaram a declarar não justificada, e sem efeito a abdicação de Celestino, e ilegal a eleição de Bonifácio.

 

Para afastar o perigo de um cisma, mandou fechar Celestino, até à morte, no castelo Fumone.

 

Pedro sujeitou-se a esta medida coerciva e passou dez meses, por assim dizer, na prisão.

 

Por uma graça divina foi conhecedor do dia da sua morte, que predisse com toda a exactidão.

 

Tendo recebido os Santos Sacramentos, esperou a morte, deitado no chão. As últimas palavras que disse foram as do Salmo 150: «Todos os espíritos louvem ao Senhor».

 

Já em 1313 foi honrado com o título de Santo, pela canonização feita por Clemente V.

 

A Ordem dos Celestinos estendeu-se rapidamente pela Itália, França, Alemanha e Holanda.

 

Estimada pelos príncipes, teve em todos os países uma bela florescência, até à grande catástrofe religiosa na Alemanha e a Revolução Francesa.

 

Na Itália existem ainda poucos conventos da fundação de Pedro Celestino.

publicado por Theosfera às 00:22

Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2013
Neste tempo em que quase tudo está previsto, ainda há acontecimentos que nos espantam e pessoas que nos surpreendem.

Há cerca de 700 anos que não havia uma decisão semelhante. E as renúncias de Celestino V e Gregório XII foram em contextos diferentes.

Gregório XII deixou o papado para resolver o problema do cisma do ocidente, já que havia outro papa em Avinhão. Já Celestino V nunca se sentiu adaptado à função.

Com Bento XVI, como ele próprio o diz, foi o desgaste.

É preciso notar que Bento XVI começou o seu «pontificado» muito antes de 2005.

O pontificado de João Paulo II teve muito de Joseph Ratzinger, seu colaborador directo (e dilecto) desde 1981.

João Paulo II nunca dispensou Ratzinger, mesmo quando este pediu que o deixasse descansar.

Há muitos preconceitos em relação a Bento XVI. É uma das personalidades mais discutidas.

Foi um homem que nos surpreendeu sempre. A maior surpresa foi esta.

Mas talvez ainda nos supreenda com algum livro.

Quanto à sua imagem, era bom que se lesse o livro «Bendita humildade. O estilo simples de Joseph Ratzinger», de Andrea Monda.

Bento retira-se como começou: humilde!

Obrigado, Santo Padre!
publicado por Theosfera às 16:12

Não posso esquecer, neste dia de Nossa Senhora de Lourdes, quem é acometido pelo mistério da dor, pelo mistério do sofrimento.

 

Penso na dor física, na dor moral, na injustiça. Penso nas vítimas da calúnia, da difamação, da inveja, da intriga malsã, da insinuação torpe. Estou com todos. Rezo por todos.

 

Não esqueço também tanta gente que, de perto ou de longe, me pede oração.

 

A minha oração é pobre, muito pobre. Mas ofereço-a com a melhor vontade.

 

Tenho a certeza de que todos irão melhorar. O sol da felicidade há-de brilhar me todos os corações!

publicado por Theosfera às 08:29

Confesso que sinto uma profunda nostalgia de tempos em que sorríamos de felicidade por ver acontecer aquilo em que acreditávamos.

 

Um dos dias em que experimentei essa (reconfortante) sensação foi precisamente o dia 11 de Fevereiro de 1990.

 

Nesse dia, um sorridente e muito calmo Nélson Mandela saía da prisão, onde estivera 27 anos.

 

Despojado, disse que vinha «não como profeta, mas como humilde servo do nosso povo».

 

Que belo o tempo em que se lutava e sofria, não por interesses, mas por ideais! Sobretudo por ideais como a justiça, a liberdade, a paz!

publicado por Theosfera às 07:08

Hoje, 11 de Fevereiro, é dia de Nossa Senhora de Lourdes, Sto. Adolfo e S. Bento de Aniano.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:07

Domingo, 10 de Fevereiro de 2013

Muitas vezes, associa-se a criatividade à mentira.

Oscar Wilde recomendava: «Caso um homem tenha pouca imaginação para arranjar provas para a mentira, deve então dizer, de imediato, a verdade».

Não creio, porém, que a mentira seja mais criativa que a verdade. A mentira só cria decadência!

publicado por Theosfera às 09:00

La Rochefoucauld: «A mente é sempre enganada pelo coração».

Sempre? Será que o coração também não será enganado pela mente?

Evocando Zubiri, nada como uma inteligência que sente e um sentimento que entende.

A mente e o coração não estão sobrepostos. Têm de estar unidos!

publicado por Theosfera às 09:00

Desde a segunda guerra mundial, esta é a geração que vai viver pior que a geração anterior.

Não estávamos habituados a isso. Mas não sei se será bem isso.

Viver melhor será (só) viver com mais?

publicado por Theosfera às 08:59

Os povos actuam de acordo com a sua geografia.

As pessoas tendem a agir segundo a situação em que se encontram.

Em qualquer destes casos, prevalece o interesse.

Louis Veuillot ilustrou esta propensão ao polemizar argutamente com os liberais: «Quando estou em situação desfavorável, em nome dos vossos princípios, exijo a liberdade; quando estou em posição forte, em nome dos meus princípios, nego-vos a liberdade».

Não falta quem, não dizendo exactamente isto, ponha em prática precisamente isto.

É triste. Mas é a realidade!

publicado por Theosfera às 08:58

Muito estranha, confesso, a defesa porfiada que alguém respeitado faz, via rádio, da existência de «políticos profissionais».

Entendo o argumento, mas perturba-me a posição.

A política não devia ser profissão, mas missão: apenas missão, sempre missão.

A umbilical ligação da política à vida implica que haja uma permanente inserção no quotidiano.

Em rigor, nem deveria haver classe política. Qualquer cidadão deveria estar em condições de exercer, transitoriamente, funções de serviço público.

A sociedade não deveria ser vista pelo prisma da política. A política é que deveria ser vista pela óptica da sociedade.

É por isso que as funções políticas deveriam ser transitórias!

publicado por Theosfera às 07:02

Hoje, 10 de Fevereiro (V Domingo do Tempo Comum), é dia de Sta. Escolástica (irmã de S. Bento), S. Luís Stepinac, Sta. Sotera e Sto. Arnaldo.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:02

Sábado, 09 de Fevereiro de 2013

Muitos se espantam. Como é possível que as pessoas não se preocupem com a privacidade dos outros nem cuidem da sua própria privacidade?

A privacidade dos outros é cada vez mais invadida. A privacidade de cada um é cada vez mais exposta.

Seria possível convocar, para um intento de explicação, nomes como Gilles Lipovetsky, que alertou para o vazio que nos domina. Ou Jean-François Lyotard e Gianni Vattimo, que nos falaram do «pensamento débil» e do «pensamento fraco» que nos envolvem.

Quando as ideias falham e os ideais fenecem, fala-se da vida dos outros e da vida própria.

Tenho, porém, uma explicação bem mais prosaica. O espaço mediático é cada maior. A competição é cada vez mais feroz. É preciso ocupar o espaço. A vida pública é insuficiente. Aposta-se na vida privada.

É triste, penoso. Mas dizem que rende.

Não basta contestar. O importante seria não consumir.

É por isso que este não é um problema deles (dos produtores). É também um problema nosso (de cidadãos)!

publicado por Theosfera às 12:10

Muito nos preocupa o que vemos. Muito mais nos devia preocupar o que não conseguimos ver.

Júlio César anotou: «O que está fora da vista perturba mais a mente dos homens do que aquilo que pode ser visto».

Afinal e como viria a dizer Saint-Exupéry, «o essencial é invisível aos olhos»!

publicado por Theosfera às 11:55

É, no mínimo, curioso que tanto se fale de um santo de que nem sequer se sabe se existiu.

E é igualmente sintomático que nada se diga acerca de dois santos cuja vida e obra são sobejamente conhecidas.

De facto, por esta altura muito se fala de S. Valentim. Sucede que, desde 1969, este santo deixou de ser celebrado oficialmente porque não há provas seguras de que tenha existido.

Repare-se.

Não se diz que não tenha existido. Apenas se adverte para a falta de indicações irrebatíveis que comprovem a sua existência.

O interessante é que, nesse dia, se celebra a festa de dois irmãos que foram santos: S. Cirilo e S. Metódio.

Os dois tiveram um papel determinante na evangelização e promoção cultural dos povos orientais.

Ainda hoje se fala do alfabeto «cirílico». Mas pouco (ou nada) se diz.

Se consultarem um calendário litúrgico, lá aparecem as referências a S. Cirilo e a S. Metódio.

É claro que algumas publicações mencionarão S. Valentim, mas com todas as ressalvas.

É óbvio que não há mal nenhum na evocação de S. Valentim, tenha ou não tenha existido. Mas muito bem haveria na invocação de S. Cirilo e S. Metódio!

publicado por Theosfera às 11:48

O pretexto é recorrente: os locais estão cada vez mais próximos. Mas a realidade é invariavelmente esquecida: a população está cada vez mais envelhecida.

Extinguem-se serviços nas localidades (hospitais e tribunais, por exemplo) com base na rapidez das deslocações. Mas não se tem em conta que há muitos idosos que vivem sozinhos e, não raramente, em lugares quase isolados.

Uma vez mais, a pessoa fica em posição secundária.

Bem se diz que a pessoa é o centro. Bem se diz, mas mal se vê!

publicado por Theosfera às 11:36

A experiência, mestra suprema, ensina: quem é profundo não liga muito às aparências.

Quem tem substância não cuida muito dos acidentes.

Não espanta, por isso, que Goethe tenha afirmado: «Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora».

Hoje, aposta-se muito na imagem. É por isso que o interior está cada vez mais vazio, descompensado.

É preciso regressar ao interior perdido, à profundidade desperdiçada.

É por fora que as coisas se mostram. Mas, como alertava Raul Brandão, «é por dentro que as coisas são»!

publicado por Theosfera às 11:28

Hoje, 09 de Fevereiro, é dia de Sta. Apolónia e S. Miguel Febres Cordero.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:02

Sexta-feira, 08 de Fevereiro de 2013

Nesta altura, tudo é ainda mais fingido, mais formatado.

 

A começar pela alegria, tudo parece ser artificial.

 

São máscaras que, nestes dias, se colocam em cima das outras máscaras: as de todos os dias.

 

A alegria é bela quando é adornada pela simplicidade e robustecida pela franqueza e rectidão.

 

Há alegria quando não há máscaras.

 

Mas não é a palavra máscara (prósopon, em grego) que se traduz por pessoa?

 

Na vida, devíamos deixar cair as máscaras. Todas!

publicado por Theosfera às 10:30

Por estes dias e apesar do Carnaval, ninguém está contente.


Também não há muitos motivos para grandes contentamentos. As notícias do presente são preocupantes. E os próprios ecos do futuro ameaçam ser sufocantes.


Mas terá havido alguma época em que os portugueses formassem um povo feliz?


Há mais de cem anos, Miguel de Unamuno, que nos conhecia bem, dizia que éramos um «povo triste», um «povo de suicidas» ou até um «povo suicida».


De facto, parece que estamos sempre a caminho do abismo. Mas como ainda vamos sobrevivendo, qual Fénix, então é possível que sejamos também um povo «morticida». Isto é, um povo que, à medida que parece afundar-se de vez, vai ressurgindo.


O abismo está perto. Mas ainda não nos devorou!
publicado por Theosfera às 10:22

Interrogado sobre a diferença entre os homens cultos e os incultos, Aristóteles disse: «A mesma diferença que existe entre os vivos e os mortos».

Bem verdade.

A cultura perpetua a vida até para lá da morte. A falta de cultura como que traz a morte para o meio da própria vida!

publicado por Theosfera às 10:10

É tão volúvel a imagem. É tão efémero o prestígio. É tão superficial, por vezes, a reputação.

Henri Régnier anotou: «A reputação de ser hábil decorre, muitas vezes, de imperícias de que soubemos tirar partido».

É bem verdade.

A habilidade de muitos vive à custa da inabilidade de tantos!

publicado por Theosfera às 10:05

Maria Jotuni percebeu que «uma boa acção invisível não é rendível». E é por isso que muitos deixam de a praticar.

Muitas vezes, a tentação é olhar mais para o proveito do que para a acção.

Parece que tudo o que não noticiado e publicitado não tem valor, não existe.

Importante será ter presente que o maior rendimento de uma boa acção é a sua execução.

O que é bom difunde. Não precisa de altifalantes!

publicado por Theosfera às 09:59

Winston Churchill assegurou: «Uma ordem seguida de contra-ordem dá desordem».

Luigi Einaidi garantiu: «Onde existem muitos para comandar, nasce a confusão».

O problema é que quando há só um a mandar, pode não nascer a confusão; mas costuma germinar a opressão.

É por isso que entre o mando de um e o comando de muitos a alternativa não é brilhante.

O melhor é trocar de verbo.

Gozoso pode ser mandar. Importante, porém, é servir. A todos. E sempre!

publicado por Theosfera às 09:53

Hoje, 08 de Fevereiro, é dia de S. Jerónimo Emiliano, Sta. Jacoba ou Jacquelina e Sta. Josefa Fortunata Backhita.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:04

Quinta-feira, 07 de Fevereiro de 2013

Com o seu humor desconcertante, Winston Churchill arrasou (numa só frase!) as duas grandes ideologias do século passado: «A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias».

Afinal, que bom seria que a riqueza fosse igualmente distribuída por todos. E que a miséria fosse igualmente erradicada de todos.

A essa igualdade dar-se-ia o sobrenome de justiça.

Utopia? E se for?

Utopia não é o que faz desistir. Tem de ser o que nos leva a prosseguir!

publicado por Theosfera às 10:26

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