O acontecimento de Deus nos acontecimentos dos homens. A atmosfera é sempre alimentada por uma surpreendente Theosfera.

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

1. Depois da Terça-Feira de Carnaval a Quarta-Feira de Cinzas. Após o Entrudo a Quaresma. (Aliás, chama-se Entrudo por ser precisamente entrada na Quaresma). E, de facto, já estamos na Quaresma.


Dir-se-ia que é o tempo litúrgico que mais se assemelha à vida humana. Muito mais que o Carnaval. Poucos, com efeito, encontrarão motivos para folia. Pelo contrário, o que mais nos pedem são sacrifícios.


A Quaresma é um tempo de penitência e o que mais se vê, hoje em dia, são pessoas com uma vida inteira de penitência.


Temos a penitência da crise. Temos a penitência de ouvir falar da crise e, ainda por cima, a toda a hora. Temos a penitência do desemprego. Temos a penitência da criminalidade. Temos a penitência da injustiça. Temos a penitência da pobreza, da exploração, da fome.


Pode parecer, por isso, pouco oportuno (e até desumano) vir apelar a mais penitência. Que maior pode ser a penitência de quem não tem pão para comer ou casa para habitar? Que maior pode ser a penitência de quem perdeu o emprego?


Como bem lembrou o Padre Ignacio Ellacuría, a Cruz tem uma permanente actualização histórica. Há pessoas crucificadas nas esquinas da existência. Cristo continua a ser torturado, condenado e morto em tantos deserdados da sorte, em tantos abandonados da vida: Ele está neles.



2. É fundamental, portanto, que quem faz apelos à penitência apresente também gestos visíveis de despojamento.


Isto significa que aquilo de que nos privamos há-de ser oferecido a quem precisa. Veremos então que muitos passam mal porque nós não nos importamos. E notaremos que o nosso supérfluo é essencial para eles.


Se somos capazes de jejuar por razões egoístas, porque é que não havemos de jejuar por razões altruístas? Não falta quem reduza ao alimento para perder peso, para ser elegante. Porque não reduzir ao alimento para ajudar quem tem menos, quem tem quase nada?



3. Urge que nos habituemos a fazer do outro o centro do nosso ser, o centro da nossa preocupação, o centro da nossa vida.


Temos, pois, de nos des-centrar para nos re-centrar. O nosso centro só pode ser o centro de Cristo.


O centro de Cristo foi sempre Deus e o Homem. O centro dos membros da Igreja de Cristo só poderá ser Deus e o Homem. Daí o grande tripé que alavanca toda a trajectória quaresmal: a oração (relação com Deus) e o jejum e a esmola (partilha com o ser humano).


Sabemos, por exemplo, que, no dia 25 de Janeiro de 2010, 120 milhões de cristãos de 39 países promoveram uma jornada de oração e de jejum pela justiça no Zimbabwe.


Muita coisa poderá ser feita. Porque não, por exemplo, oferecer o peditório de um mês nas paróquias para ajudar os mais carenciados?


Uma Igreja pobre será sempre uma Igreja próxima, uma Igreja capaz de interpelar.



4. Façamos penitência apoiando quem tem de fazer penitência. A penitência por opção é um gesto de comunhão para com quem tem de fazer penitência por imposição.


Despojemo-nos da carne e do peixe caro, levando um pouco de pão a quem nada tem para comer.


Mas porque não fazer também, de vez em quando, jejum do automóvel desanuviando o ambiente? Porque não fazer jejum do cigarro, contribuindo para a minha saúde e para a saúde do meu semelhante? Porque não fazer jejum de televisão ou na net, dando mais atenção aos outros?


Façamos também jejum de imagens e de palavras. E não deixemos de fazer jejum dos juízos precipitados, das acções agressivas e dos sentimentos violentos.


Deixemos que a bondade brilhe. Que a paz se instale. Que a justiça floresça. E que o amor vença.


Não foi por tudo isto que Ele [Jesus] deu a vida?

publicado por Theosfera às 16:26

Para Charles de Foucauld, é possível imitar Jesus de três formas: pela pregação, pelo deserto e por...Nazaré. Esta última foi a via escolhida pelo Irmão Universal. Em que consiste? Na reprodução da vida de Jesus em Nazaré ao longo dos trinta anos de vida oculta. Trata-se, então, de uma via feita de:

- imitação;

- obediência;

- contemplação (isolamento, recolhimento, oração, prece);

- sacrifício;

- glorificação de Deus.

 

Eis uma proposta interessante a seguir neste tempo santo da Quaresma.

publicado por Theosfera às 14:36

Sinal dos tempos.

Em todos os temas, há sempre o perigo de ceder às questões laterais.

Foi apenas há dois dias que o Santo Padre anunciou que se vai retirar e já aparecem (não) questões como estas. A partir do dia 28, como é que se vai vestir e como é que vai ser tratado?

Quanto à primeira, depende dele. Quanto à segunda, dependerá de todos.

Mas, afinal, é tudo mais simples do que parece.

Se até depois de morto o Papa (que nessa altura obviamente já não é Papa) é transportado com as vestes papais, porque é que não há-de continuar a usar o hábito branco se assim o entender?

Quanto ao tratamento, vale a mesma linha de argumentação. Os Papas, quando morrem (e, portanto, já não são Papas), continuam a ser tratados pelo nome que escolheram.

O mesmo vale para os que abdicaram. Todos falam de S. Celestino V e quase ninguém fala de S. Pedro Morone.

Trata-se, sem dúvida, de uma situação a que não estávamos habituados. Por isso, pode funcionar o princípio da analogia.

Um bispo, quando deixa de exercer, não deixa de ser bispo. É tratado como bispo emérito.

Se é bispo de um patriarcado, é natural que seja tratado como patriarca emérito.

Sendo o Papa o Bispo de Roma e tendo deixado o exercício, poderá ser tratado como Papa emérito.

Mas isto é totalmente lateral. O importante é que Bento XVI foi Papa entre 19 de Abril de 2005 e 28 de Fevereiro de 2013.

É assim que a história regista. É assim certamente que todos falarão desta grande figura, antes e depois do dia 28!

publicado por Theosfera às 11:18

Hoje, 13 de Fevereiro, é dia de S. Martiniano, S. Jordão da Saxónia, Sta. Cristina de Espoleto e S. Benigno.

É também Quarta-Feira de Cinzas, dia de Jejum e Abstinência.

Inaugura-se, portanto, o Tempo da Quaresma.

Um santo e abençoado dia para todos!

publicado por Theosfera às 07:07

1. Já estamos na Quaresma, um tempo na vida, uma oportunidade para a vida.

 

Numa primeira (e rápida) leitura, ela é o retrato mais fidedigno da nossa existência. De facto, não é só na Quaresma que muitos fazem penitência.

 

O quotidiano de muitos assemelha-se a uma grande, a uma interminável, penitência. Há quem faça jejum não apenas na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa, mas todos os dias do ano.

 

Há casas onde o alimento não chega. Há lares onde o alimento não entra.

 

A Quaresma leva-nos a pensar que vivemos num mundo tecido de injustiças e semeado de gritantes desigualdades.

 

Para muitos, a penitência ainda pode ser uma opção. Para muitos outros, porém, é uma imposição, uma condenação.

 

 

2. A Quaresma recorda-nos que alguém (Jesus) tomou partido e assumiu a condição dos mais desfavorecidos.

 

A Quaresma avisa-nos de que Deus não Se conforma com a situação actual do nosso mundo.

 

Deus não aposta na manutenção, mas na transformação. O que é dito a cada um no início deste tempo santo («arrependei-vos») é repetido a todos os membros da humanidade: «mudai de vida, de conduta, de paradigma».

 

Há uma sabedoria muito grande na proposta quaresmal. A mudança no mundo tem de começar pela transformação de cada pessoa que existe no mundo.

 

Porque cada pessoa é, como dizia Gregório de Nissa, um «pequeno mundo», o que se passar em cada homem repercutir-se-á no mundo inteiro. Daí o imperativo de Gandhi: «Sê tu mesmo a mudança que queres para o mundo».

 

Há ideologias que propugnam a revolução a partir das estruturas. E é claro que estas também têm de ser transformadas. Mas só mudando o interior de cada pessoa, é possível alavancar uma mudança mais vasta, no mundo.

 

3. A Quaresma permite-nos ver que, afinal, somos uns permamentes nómadas. No fundo, não somos. Tornamo-nos. Estamos sempre em viagem. Estamos sempre em devir.

 

A questão que se coloca é se, nesta viagem, nos tornamos melhores. A experiência não nos traz especiais novidades nem boas notícias.

 

É sabido que, por si mesma, a inércia nada resolve. Tudo tem de radicar na vontade, na opção.

 

A Quaresma é um imperativo de reflexão. É um dado que estamos diferentes. Será que, diferentes, estaremos melhores?

 

Um dia, Leonardo Boff perguntou ao Dalai Lama qual era, para ele, a melhor religião. Quem estivesse à espera de que a resposta fosse «o Budismo» ficou, no mínimo, surpreendido.

 

«A melhor religião - respondeu o mestre tibetano - é aquela que faz de ti uma pessoa melhor».

 

É claro que o problema não pode ser colocado apenas do lado da proposta. Também tem de ser remetido para o lado do receptor. Mas subsiste a pertinência da interpelação.

 

 

4. O ambiente de recolhimento, próprio da Quaresma, não é somente uma ajuda à meditação pessoal. É igualmente (e bastante) uma oferta de sentido.

 

A reflexão ajudar-nos-á a ver como é que tem sido a nossa conduta em relação a Deus e em relação ao próximo. Jesus fala-nos de Deus como Pai e do ser humano como Irmão.

 

Os dois maiores eixos do tempo quaresmal são a espiritualidade e a solidariedade. Somos convidados a alicerçarmos uma vida descentrada ou, melhor, recentrada em Deus e na Humanidade.

 

É por isso que a Quaresma, sendo uma época que nos lembra muito o tempo presente, também nos ajuda a vislumbrar o que pode (e deve) ser o tempo futuro: um tempo de partilha, um tempo de doação, um tempo de fraternidade, um tempo de luz.

 

A estrutura do tempo quaresmal permite-nos perceber como, por vezes, é preciso bater no fundo para começar a subir.

 

No fundo de nós, acolhamos o melhor que Deus semeou no mundo e nas pessoas. Demos uma oportunidade à vida.

 

Procuremos escovar a poeira do egoísmo que nos infecta. Conjuguemos o verbo dar na forma transitiva, mas sobretudo na forma reflexa. Ou seja, demos algo de nós e aprendamos a darmo-nos a nós!

 

 

Não nos resignemos ao que somos. Tornemo-nos melhores pessoas, mais tolerantes, mais fraternas, mais humanas, mais felizes!

publicado por Theosfera às 00:24

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