Mais um «desvio colossal».
Num domingo em que Jesus nos presenteava com a sublime mensagem do amor, a prioridade das notícias e das conversas era desviada para o último livro de José Rodrigues dos Santos.
Há, desde logo, um elogio que esconde uma dependência. «Melhor que Dan Brown», terá dito um jornal holandês.
Dan Brown é um autor que vendeu uma história similar. Rodrigues dos Santos também vende de qualquer maneira.
Não sei se o livro é bom porque ainda não o pude ler na totalidade. Mas uma coisa posso adiantar: está longe de ser original.
É uma ficção que, sibilinamente, pretende reconfigurar uma realidade. É uma construção que, no fundo, visa desconstruir.
Nada prova. Cada um fica no que lhe parece.
Mas pode ter um efeito positivo: aproximar-nos ainda mais da (incomparável) figura de Jesus!
É, no mínimo, estranho e totalmente em contraciciclo que, numa altura em que tanto se excelsa a comunidade, se persista em comportamentos anticomunitários.
A Eucaristia, sabemo-lo todos, é a actualização da oferta de Cristo na Cruz por todos os homens.
E, no entanto, ainda há quem pretenda (exija?) uma Missa particular(!), só para a sua família, só pelos seus familiares.
Qual o casal que aceita casar-se na companhia de outros casais na mesma celebração?
Somos uma família. Mas ainda estamos presos a complexos anticomunitários...
Há qualquer coisa de tenebroso nas celebrações da «libertação» da Líbia. As imagens de Kadhafi ferido e morto são dissecadas e mostradas «ad nauseam». E arrepiam-me as comemorações com tiros. A população está armada. Poderá alguma paz ser construída deste modo?
Nenhuma morte me alegra.
Kadhafi estava longe de ser um exemplo. Mas a eliminação de um ditador não oferece, em si mesma, a liberdade e a democracia.
É bom não esquecer que Kadhafi era, antes de mais, um ser humano. E se ele não tinha isso em conta para com os outros, era importante que outros tivessem isso em conta para com ele.
Numa espiral de notícias deprimentes, não é esta ocorrência que alivia o nosso pesar. A tolerância e a concórdia têm de esperar por melhores dias.
Disse Salvador Dalí: «Não tenham medo da perfeição. Nunca a irão alcançar».
Será por isso que os que estão mais perto dela são os que mais longe se sentem dela?
O calor prolonga-se na Europa, apesar da chegada do Outono.
As chuvas destroem nas América Central, não obstante a proximidade do Verão.
Nem o clima conseguimos já perceber!
É, sem dúvida, uma pessoa séria, esforçada, contida. Mas quem olha para o Ministro das Finanças adivinha, além de muito cansaço, bastante desalento.
Para quem está a começar, é preocupante. E, de facto, a experiência tem mostrado que quem tem entrado em recessão costuma ter enorme dificuldade em sair dela.
De um timoneiro espera-se sempre aquele suplemento de esperança que falta ao cidadão comum.
Há imagens que dizem muito. Esperemos que o esforço conjunto ajude a reverter o que, aos olhos de muitos, parece irreversível.
Hoje, assinala-se o dia mundial de erradicação da pobreza.
Há uma perturbadora ironia nesta efeméride.
É que, entre nós, a pobreza não dá sinais de estar a ser erradicada. Pelo contrário, além dos pobres, há muitos que estão a empobrecer.
Aliás, há estudos que documentam que, no capítulo salarial, o país cresceu muito pouco nos anos da liberdade.
Será que, em vez de acabar com a pobreza, estamos apostados em acabar com os pobres?
Motivos sobejos para reflectir. E sobretudo para inflectir.
Ainda não passamos a fase do anúncio das medidas de austeridade, e já corre veloz a onda de protestos.
Receio que o meu país se transforme num vulcão de turbulência. E o pior não será o coro de protestos. O pior poderá ser (em certa medida, já está a ser) a violência social tipificada em assaltos avulsos, imprevisíveis, mas com efeitos devastadores.
Os cidadãos estão apreensivos e até os estudiosos se mostram preocupados. Basta meditar nas declarações de sociólogos como Boaventura Sousa Santos e António Barreto. Este último, apesar da moderação que habitualmente o acompanha, já questiona a possibilidade de sobrevivência do país.
O problema é que, por um lado, as pessoas sentem que algum sacrifício é necessário pelo bem comum e, concretamente, pela redução do défice. Mas, por outro lado, é difícil saber para onde nos conduzem estas medidas. A sensação que paira é que não é assim que nos libertaremos da teia que nos prende.
Recorde-se que a própria troika, tão prolixamente invocada, preceitua também o incremento do crescimento económico. Sucede que, por este andar, a recessão é o mais certo e o almejado crescimento será o mais incerto.
Portugal precisa de mais. Portugal merece melhor.
O Santo Padre convocou, hoje, um Ano da Fé, a decorrer entre 2012 e 2013.
Como não venerar Bento XVI e a sua preclara clarividência?
Disse Agostinho de Tagaste: «Quando um homem descobre as suas faltas, Deus esconde-as. Quando um homem esconde as suas faltas, Deus revela-as. Quando as reconhece, Deus esquece-as».
Só quando se assume um problema, estamos em condições de o superar.
A evasão não o caminho. Só a verdade liberta.
«Quem não é capaz de ser pobre, não é capaz de ser livre».
É possível que esta frase de Vítor Hugo nos ajude a perceber que estamos a ficar mais livres.
A empobrecer já estamos!
Uma coisa, porém, é a pobreza como opção de vida. Outra coisa, bem diferente, é a pobreza como condenação para a vida!
Eu sei que esta vai ser uma noite difícil para tantos portugueses que trabalham ou já trabalharam.
Afinal, ainda não vai ser no próximo ano que os sacrifícios vão ser suavizados. Pelo contrário, vão ser fortemente agravados.
E, por este andar, não custa muito imaginar que, daqui a um ano, não faltarão justificações para prosseguir a austeridade em 2013.
A questão que se levanta é: para quê?
Dir-se-á que é para não chegarmos à situação da Grécia. Portugal até pode ter melhor liquidez, mas é bom não esquecer que o salário mínimo na Grécia é quase o dobro do português.
É certo que o memorando da «troika» não deixa margem para alternativa. Mas não seria possível negociar uma moratória nos prazos?
Acontece que, com estas medidas, haverá cada vez menos pessoas em condições de contribuir. Se as empresas falirem e o desemprego aumentar, como se conseguirá descontar?
Entretanto, não se anuncia nenhuma medida para estimular o crescimento da economia.
Não sabemos para onde vamos. Sabemos que não é por aqui que chegaremos ao desenvolvimento e à justiça.
A «doença» era grave. Mas esta «terapia» arrisca-se a torná-la pouco menos que insuportável.
Não deixemos, entretanto, adormecer a esperança. Isto vai ser quase impossível. Mas há-de haver uma luz.
Os cidadãos precisam de mudar. Os dirigentes também. Falta, no país e na Europa, sensibilidade social.
A narrativa é demasiado colada à realidade. É fundamental um golpe de asa que ajude a transformá-la.
Não é com estas políticas que conseguiremos vencer a crise. Será com estes políticos?
Urge uma nova criatividade, uma outra sabedoria. Que venha do coração. E olhe para as pessoas não como activos, mas como seres humanos.
Um novo humanismo tem de pairar na nossa vida cívica.
1. Confesso que despertou a minha atenção a perplexidade do poeta José Miguel Silva diante de uma certa iconografia: «Vês (nas igrejas) os santos vestidos como príncipes, quando toda a mensagem cristã defende o oposto».
Tem razão. Jesus foi pobre. Convida a um estilo de vida pautado pela pobreza e sobriedade. Muitas vezes, andamos empenhados em apontar a Sua doutrina. Esta é importante. Mas o decisivo é a Sua conduta. É viver como Ele viveu.
Para tal, não basta ser o eco das Suas palavras. É fundamental procurar ser a reprodução das Suas atitudes, dos Seus gestos. Daí que falar em nome de Jesus Cristo num ambiente de pompa crie uma profunda sensação de desconforto. A credibilidade fica, imediatamente, ferida.
A este propósito, vem-me à lembrança a alusão que, entre o desapontamento e a ironia, faz Sören Kierkegaard ao bispo de Copenhaga.
Revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, avança o prelado pela catedral, com todo o seu séquito em esplendor. Senta-se, então, num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri! Se calhar, o melhor seria chorar. É que, sem a ressonância da vida, a palavra não passa de ornamento retórico.
2. Jesus foi pobre. Maria foi pobre. O Concílio Vaticano II afirma que Ela sobressai entre os pobres de Yahvé.
Formada na leitura orante dos livros do Antigo Testamento, Maria conhecia especialmente os Salmos, que surgiram no contexto dos pobres (anawin) de Yahvé.
Enquanto facto social e fenómeno presente no quotidiano de Israel, a pobreza era seguramente um tema de reflexão e meditação. Para uns, a pobreza é vista como castigo de Deus. Para outros, ela decorre da avareza dos ricos e da exploração dos poderosos. Os profetas denunciaram sempre esta pobreza como sendo não querida por Deus. Do mesmo modo, a riqueza que nasce da opressão dos outros não é por Deus desejada.
É neste contexto que Bento XVI explica que existe uma distinção entre uma pobreza evangélica e uma pobreza que Deus não deseja.
Em relação à primeira forma de pobreza, o Santo Padre atesta que Jesus, ao fazer-Se Homem, quis ser também pobre. «Eis a resposta: o amor por nós levou Jesus não somente a fazer-Se Homem, mas a fazer-Se Homem pobre». Contudo, «há uma pobreza, uma indigência, que Deus não quer e que é "combatida": uma pobreza que impede as pessoas e as famílias de viverem segundo a sua dignidade; uma pobreza que ofende a justiça e a igualdade e que, como tal, ameaça a convivência pacífica».
Uma coisa é, portanto, a pobreza como facto, outra coisa, bem diferente, é a pobreza como escolha. Trata-se, por assim dizer, da distinção entre a pobreza como condenação e a pobreza como opção. Os profetas procuraram espiritualizar a pobreza enquanto entrega confiante a Yahvé (cf. Sof 3, 12). Provavelmente, os judeus fiéis constituem aquele resto cuja vibração espiritual está contida em diversos Salmos.
Neste grupo, há um descentramento de si próprio e uma abertura total a Deus, sem qualquer resistência à Sua palavra. É um vazio com sabor a plenitude. Certifica-se, assim, a firmeza da sua fé. Como refere Alejandro Martínez, para esta gente, «vale mais a palavra de Yahvé que as luzes da própria razão ou o desmentido flagrante dos factos. Tudo é noite em seu redor, mas confiam no Deus que firmou aliança com seus pais. A fé que têm não é especulação, mas abandono, entrega e confiança sem limites».
Maria incorpora, no seu máximo grau, a fé como vazio de si mesma e entrega confiante a Deus. É, pois, uma pobreza iluminadora. Enquanto modelo da Igreja, «é a perfeita realização desta e, como primeira discípula de Cristo, caminha à frente de quantos fizeram do seu seguimento um lema de vida».
Em Maria, a Igreja verifica que «a fé só germina em corações pobres», em corações de criança. A fé faz que nunca deixemos de ser crianças. «Não há fé sem mistério e não há mistério sem obscuridade». Ela implica «um desprendimento da própria razão», o que, misteriosamente, contribui para obter uma racionalidade amadurecida. De facto, «silenciar o grito da razão e pôr-se de joelhos perante o mistério é uma atitude audaz e corajosa».
Esta pobreza não impede o reconhecimento do que Deus faz em cada um de nós. A humildade não é a anulação da pessoa, é o reconhecimento da verdade. «O verdadeiro crente há-de começar por reconhecer os dons que Deus lhe deu».
3. Para nós, cristãos, os pobres não são apenas destinatários da pastoral. Eles estão, desde logo e antes de mais, no centro da Igreja. Não fazemos parte somente de uma Igreja para os pobres, mas de uma Igreja de pobres e com os pobres.
Importa não esquecer que, como recorda Louis Châtellier, o Cristianismo é, verdadeiramente, uma «religião dos pobres». Pobre foi o seu fundador. Com efeito, Jesus, que nasceu num estábulo, não tinha, muitas vezes, «onde reclinar a cabeça» (Mt 8, 20). O Seu Evangelho — recorda o cardeal Schönborn — «foi feito sobretudo para os pequenos e para os pobres». E, no Seu código de felicidade, começou por declarar felizes os pobres que o são no seu íntimo (cf. Mt 5, 3).
Os pobres estiveram sempre entre os predilectos de Jesus. A Igreja, enquanto novo corpo de Cristo, era constituída, nos seus inícios, por pobres de facto (cf. Tgo 2, 5) ou por pessoas que se faziam voluntariamente pobres (cf. Act 4, 32-5, 11).
Joseph Ratzinger percebeu muito bem esta identificação de Deus com a pobreza quando escreveu: «A pobreza é a autêntica aparição divina da verdade». Jesus, na pauta que nos dá para o juízo final, assevera: «Tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos Meus irmãos, é a Mim que o fazeis» (Mt 25, 40).
Não admira, portanto, que S. Francisco tratasse a pobreza por senhora e Bossuet chamasse aos pobres senhores. A Igreja tem uma obra assistencial muito difundida. Não basta, porém, tal obra assistencial, por muito meritória que seja. É fundamental que, no espírito de Jesus, porfie, em todos os seus gestos, por uma opção preferencial pelos pobres. Essa opção levá-la-á a pugnar pela erradicação da injustiça que, arbitrariamente, atribui tudo a alguns e condena outros a pouco ou quase nada.
Erguer a voz é determinante. Tomar partido é decisivo, embora traga custos. É que o poder, que gosta de distribuir sobras, não admite ser interpelado. É missão da Igreja ser a voz dos sem voz, urgindo uma mais equânime repartição dos recursos. De facto, não há volta a dar: para que os pobres fiquem menos pobres é preciso que os ricos fiquem menos ricos.
Os preferidos de Jesus têm de ser os preferidos da Igreja de Jesus. Cristo era para todos, mas privilegiava a companhia dos pobres, dos simples e dos pequenos. Foi, aliás, em conformidade com este espírito que S. Gregório Magno revelou, no século VI, uma preocupação social que atingia o escrúpulo. Fazia questão de ter uma lista dos pobres de Roma, enviando-lhes alimento e outras provisões. Mas o mais tocante é, sem dúvida, saber que, todos os dias, doze pobres da cidade comiam à sua mesa, à mesa do Papa!
Um século mais tarde, um bispo de Alexandria espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada: «Quantos são aqui os meus senhores?» Como ninguém percebera o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino». Fizeram o apuramento. Havia 7500 pobres, que ficaram a receber, todos os dias, uma boa esmola!
4. Toda a razão tem, assim, S. Gregório: «Quanto mais se desce ao encontro das fragilidades dos pobres, mais se sobe ao cume das virtudes». Não esqueçamos jamais o pobre. É imperioso estar com ele para estar em Cristo. Se Ele nos enriqueceu com a Sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9), amemos o Senhor no Sacramento do Pobre (sacramentum Pauperis). Deus está vivo nos pobres, nos esquecidos, nos explorados, nas vítimas da injustiça.
É preciso descer as escadas. É urgente viver a vida das pessoas. É imperioso estar onde está Deus. E alguém pode negar que Deus (também) está na rua? Deus emerge dos escombros desta sociedade que clama por justiça. É aí que, como observou Fernando Urbina, podemos acolher «a grande voz silenciosa de Deus, esse rumor imenso de que fala S. João da Cruz». Muitas vezes, é preciso sujar as mãos para manter limpo o coração.
A Igreja tem de procurar ser espelho e jamais pode ser muro. Deus não está no mundo pela pompa. Deus vem pela simplicidade e pela pobreza. Uma Igreja pobre será (sempre) a maior riqueza que teremos para oferecer.
Steve Jobs não terá sido a pessoa que acumulou mais conhecimentos. Mas foi, sem dúvida, um dos que mais partido tirou dos conhecimentos que adquiriu.
Esta é a diferença entre o mero saber e a criatividade.
Fazendo um uso magistral da intuição, achava que a liderança estava sobretudo na inovação: «Inovar é aquilo que distingue um líder de um seguidor».
Aliás, é essa a grande lição da morte. A morte «afasta o velho para dar lugar ao novo».
Na política como na vida, precisamos de caminhos novos, de propostas diferentes.
Insistir no mesmo (ainda por cima, no mesmo que já provou não resultar) não nos conduzirá a bom porto.
1. Ainda hoje muitos se interrogam como é que um profeta incómodo foi sendo transformado num chefe poderoso. E, concomitantemente, como é que uma mensagem centrada no serviço deu lugar a uma instituição fortemente organizada e a um sistema de poder.
O paradigma Jesus, por nós perdido e tantas vezes desperdiçado, está sinalizado na coroa de espinhos e sobretudo na cruz.
É o paradigma de uma Igreja que respeita os poderes, mas que está distante do poder e que não se concebe a si mesma como poder.
A Igreja recebe de Maria um perfil que a distancia do poder. O Magnificat, neste ponto, chega a ser, como refere Alejandro Martínez, «um cântico de rebeldia».
Com efeito, nele a serena Maria bendiz a Deus que «derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes»(Lc 1, 52). Segundo Ela, Deus não é imparcial. Ele toma partido e não é pelo lado de cima.
Maria percebe inteiramente onde está Deus. Ela encontra-O nos subterrâneos da opressão a que o Seu povo estava sujeito. Ela também foi testemunha da violência que Roma exercia sobre a região.
Não envereda, porém, pela via da revolta armada e vingativa. À semelhança de Seu Filho Jesus, «denuncia o atropelo, protesta contra ele, mas sem ódio nem sentimentos de vingança. Pede a Deus que faça justiça salvando os que são oprimidos».
Em Maria, a Igreja aprende certamente a respeitar o poder, mas jamais se cola a qualquer tipo de poder. Até porque, infelizmente, nenhum poder humano se aproxima do género do poder de Deus, que é o poder do amor. Deus manifesta o Seu poder «para salvar o homem das tiranias que o escravizam».
2. É neste sentido que pode causar alguma estranheza a situação da instituição eclesiástica. Esta, segundo Paul Hoffmann, parece ter-se distanciado demasiado da mensagem de Jesus, «em que a utopia real do Reino de Deus como reino de bondade incondicional e também de liberdade foi vivida» e proposta.
Às vezes, subsiste a impressão de que, em vez de estar ao lado dos oprimidos, alguns optam por estar ao lado dos opressores. Ou, pelo menos, o seu silêncio leva a que não se demarquem suficientemente.
A proximidade com o poder acarreta um esmorecimento da mística e da profecia. As questões do poder afrouxam a espiritualidade e a intervenção social.
Como é sabido, o momento determinante é o século IV, com o fim das perseguições e a progressiva integração da Igreja no Império. Assistimos, a um tempo, à cristianização de Roma e à romanização do Cristianismo.
A Igreja passa não apenas a legitimar as decisões do poder político (mesmo as mais controversas, como a guerra e a pena de morte), mas organiza-se também internamente num sistema similar.
Só que este não é o caminho de Jesus. Para D. Manuel Martins, «a Igreja tem de viver sempre em tensão com o poder. Caso contrário, não cumpre o seu dever, porque tem um ideal de vida que não se pode conformar com nenhum programa de governo».
3. A memória viva (e vivificante) de Jesus há-de ser sempre a pedra angular e a instância crítica a que tudo há-de estar submetido.
É possível que nem o marxismo tivesse surgido se a memória de Jesus e de Maria encontrasse maior acolhimento dentro da Igreja. A este respeito, o testemunho de Martin Luther King é eloquente: «A grande tragédia é que o Cristianismo não percebeu que tinha em si a semente revolucionária. Não é preciso vir Karl Marx ensinar-nos a ser revolucionários. Eu não recebi a inspiração de Karl Marx; recebi-a de um homem chamado Jesus, um santo da Galileia».
É pela Igreja que vemos Jesus. É por Jesus que urge, cada vez mais, rever a Igreja. Para que se seja outra. Para que seja ela, Igreja de Jesus. Para toda a humanidade.
Uma Igreja despojada será, apenas ela, uma Igreja necessária. E apelativa. Uma Igreja fiel a Jesus não estabelece relações de poder, mas de serviço. A sua preocupação não é mandar, mas servir. Uma Igreja fiel a Jesus pugnará sempre pela justiça entre os homens. Uma Igreja fiel a Jesus não permite que alguém se considere superior ou que alguém seja considerado inferior.
4. Para um seguidor de Cristo, os outros não estão atrás nem em baixo. Os outros vivem ao lado e sobrevivem dentro de cada um.
Afinal, ainda não incorporamos totalmente o Deus de Jesus na nossa vida eclesial. Alguns passos têm sido dados. Mas subsiste um longo caminho a percorrer.
Na véspera de ser assassinado, a 4 de Abril de 1968, Martin Luther King proferiu a sua última alocução. Trata-se de um discurso antológico de alguém que, embora não visse realizado os seus sonhos, considera ter cumprido a sua missão e chegado, desse modo, ao cimo da montanha. Nem sequer se esqueceu de dizer como gostaria de ser recordado. Vale a pena meditar.
«Frequentemente, imagino que todos nós pensamos no dia em que seremos vitimados por aquilo que é o denominador comum e derradeiro da vida, essa alguma coisa a que chamamos morte.
Frequentemente, penso na minha própria morte e no meu funeral, mas não num sentido angustiante.
Frequentemente, pergunto a mim mesmo o que é que eu gostaria que fosse dito então, e deixo aqui a resposta.
Se estiverem ao meu lado quando eu encontrar o meu dia, lembrem-se de que não quero um longo funeral.
Se conseguirem alguém para fazer a oração fúnebre, digam-lhe: para não falar muito; para não mencionar que eu tenho trezentos prémios, isso não é importante; para não dizer o lugar onde estudei.
Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que eu tentei dar minha vida a serviço dos outros; em que eu tentei amar alguém; em que eu tentei ser honesto e caminhar com o próximo; em que eu tentei visitar os que estavam na prisão; em que eu tentei vestir um mendigo; em que eu tentei amar e servir a humanidade.
Sim, se quiserem dizer algo, digam que eu fui arauto: arauto da justiça; arauto da paz; arauto do direito.
Todas as outras coisas triviais não têm importância.
Não quero deixar nenhum dinheiro, coisas finas e luxuosas. Só quero deixar uma vida de dedicação.
E isto é tudo o que eu tenho a dizer: Se eu puder ajudar alguém a caminhar; se eu puder animar alguém com uma canção; se eu puder mostrar a alguém o caminho certo; se eu puder cumprir o meu dever de cristão; seu eu puder levar a solução a alguém; seu eu divulgar a mensagem que o Senhor deixou, então, a minha vida não terá sido em vão»!
«Pobre de quem procura e não encontra. Infeliz de quem espera e não alcança».
Assim poetou (lúgubre e magnificamente) António Gedeão.
Maria sente-Se pequena diante da grandeza de Deus. Como refere Tolentino Mendonça, «colocar a nossa vida nua, a nossa vida inteira e pequenina, nas mãos de Deus em nada nos diminui».
Tantas vezes nos perguntamos sobre o que nos falta para sermos felizes. E vamos acumulando, sem que jamais nos sintamos satisfeitos.
Um dia, um índio discursou no continente americano e lá denunciou a avidez pela posse que presenciava. «O homem branco torna Deus mais pobre», confessava.
Maria ensina-nos que, afinal, não nos falta nada. Nada falta a quem, como nota Tolentino Mendonça, «se deixa incendiar e transformar pela Graça de Deus».
Ele «ama-nos sem porquê, ama-nos porque nos ama». Isto não será o bastante, não será tudo?
No «Magnificat», a oração de Maria não é feita de fórmulas, embora esteja em ligação com a história de Israel.
Como observa Tolentino Mendonça, «Ela expõe a sua vida naquilo que diz».
A oração é isso: estabelecer um diálogo vivo com Deus.
Quando há sinceridade, há beleza.
Não espanta, pois, que Sophia de Mello Breyner tenha considerado o «Magnificat» como «o mais belo poema que existe». Basicamente, porque «anuncia» um mundo novo.
Foi este cântico que provocou a conversão de Paul Claudel. Ao entrar na Notre-Dame, quando o «Magnificat» era entoado, o seu coração comoveu-se «como nunca; acreditei por dentro e com todas as forças».
Nele acendeu-se «uma convicção tão forte, uma segurança tão indescritível, que fez desaparecer todos os resquícios das anteriores dúvidas»!
1. Ancorados no exemplo de Jesus, o Servo, e de Maria, a Serva, os primeiros membros da Igreja assumiram integralmente a sua identidade de servos. O serviço está no mais profundo do seu ser e na superfície dos seus actos.
Os que dirigem as comunidades cristãs fazem questão de se apresentarem sempre como servos. Paulo e Tiago (Tt 1, 1; Tgo 1, 1) é assim que se denonimam, tal como Paulo e Silas (Act 16, 17).
Esta condição de servo não contende, entretanto, com a liberdade. Quando mais se serve, maior é a sensação de liberdade. Por isso, surge também a expressão «servo livre» (Act 2, 18; 4, 25; Ap 2, 20). Sto. Agostinho assinala, por sua vez, que os cristãos são, ao mesmo tempo, «servos e libertos».
Por aqui se vê como o serviço é um requisito não secundário, mas essencial da constituição da Igreja; não marginal, mas central, não acidental, mas substancial. O Bispo de Hipona não hesita, pois, em proclamar enfaticamente que «servo de Deus é o Povo de Deus, é a Igreja de Deus».
Não admira, por conseguinte, que pastores e fiéis, consagrados e monges se designem a si mesmos como servos. Muitos bispos ilustres da Igreja antiga, como Sto. Agostinho, colocavam-se na missão como «servos dos servos de Deus». Desde S. Gregório Magno, foi assim que até os Papas começaram a ser definir-se a si próprios.
Quanto maior é a responsabilidade e mais alta é a missão, mais vincada é a consciência de que se é servidor. Trata-se, aliás, de uma ressonância epifânica do convite imperativo de Jesus: «Quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se servo de todos» (Mc 10, 43).
2. A Igreja dos começos era conhecida pelo serviço mútuo entre os seus membros (cf. Mc 10, 43-44), entre aqueles que devem lavar os pés uns aos outros como sinal de amor e estima (cf. Jo 13, 13).
O «vede como eles [os cristãos] se amam», de que fala Tertuliano, fez mais pela difusão credível do Evangelho do que muitos tratados e sermões. A vivência é mais eloquente que o conceito. Já no princípio, havia a percepção de que «o mundo ouve mais as testemunhas do que os mestres».
A centralidade do serviço afere-se inclusive pela denominação dos seus dirigentes. Eles são conhecidos como diáconos ou como ministros, designações que remetem imediatamente para a ideia de serviço. De resto, na raiz de ministro está minus, o menor, o mais pequeno. Sto. Agostinho vertia o desejo de que os pastores falassem «como ministros e não como mestres»!
Não se tratava de um ornamento retórico, mas de uma convicção profundamente arreigada. S. Paulo dá conta de que os cristãos tendiam a considerar os outros superiores a si mesmos (cf. Fil 2, 3). Desde logo, porque se sentiam seguidores daquele que se apresentara como «quem serve»(Lc 22, 27).
Como sintetiza Santos Sabugal, «o ministério eclesial é, essencialmente, um serviço ao Senhor glorificado que, através dele, continua a exercer a Sua presença salvífica em e para a Igreja». Toda a existência da Igreja pode ser descrita como uma diaconia prestada a Jesus Cristo.
Os membros da Igreja são convidados a consumar este ministério «servindo-se mutuamente com amor»(Gál 5, 13), apoiando-se uns aos outros. Trata-se de uma concretização do Mandamento Novo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei»(Jo 13, 14).
Uma vez que o amor é difusivo e sumamente abrangente, os cristãos são motivados para estenderem a todos os seres humanos aquilo que partilham entre si. Trata-se de um amor que não é selectivo nem limitado. É para todos e é para sempre. A evangelização nunca pode ser feita através da via impositiva, mas apenas (e sempre) pela via propositiva. Quem ama propõe, nunca impõe.
3. O amor leva à repartição dos bens e à luta pela justiça. A denúncia das injustiças faz parte do serviço da Igreja e do seu amor pela humanidade. Calar perante a injustiça é um pecado. A indiferença nunca é possibilidade a encarar ante o sofrimento e a opressão. Jesus e Maria ensinam a Igreja a não ser imparcial, mas a tomar partido: não por partidos, mas por pessoas, por causas, por projectos de mudança e renovação.
A doutrina e a acção social têm uma dimensão serviçal muito notória. O preço, muitas vezes, é a incompreensão e até a hostilidade. Mas a profecia acarreta, quase sempre, a oposição. O Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 1-7, 28) é um programa que está escrito em forma de texto para ser permanentemente reescrito em forma de vida.
Esta disponibilidade há-de ser alimentada por uma espiritualidade também ela serviçal. A primeira fonte do serviço é, sem dúvida, a escuta orante da Palavra de Deus. Também os sacramentos podem ser vistos como - diz Santos Sabugal - «sinais serviçais da graça comunicada pelo Espírito do Senhor».
Tudo isto faz com que a comunidade cristã prolongue a missão serviçal pré-anunciada por Jesus, o Servo, e corporizada belamente por Maria, a Serva.
4. Este serviço não está condicionado pelo resultado imediato. A sua fecundidade pode até passar pelo fracasso no curto prazo. A Igreja, enquanto serva, «deve aceitar o fracasso serviçal de "perder a própria vida" ou "morrer" para "dar a vida" ao mundo. Chegar à ressurreição implica passar pelo fracasso da Cruz. O Cristianismo é a religião do triunfo através do fracasso, do senhorio através do serviço».
Às vezes, o êxito imediato pode até ser um sintoma pouco estimulante. A dialéctica do Evangelho aponta para a morte como passo para a vida e defende o descer à terra como condição para dar fruto. Daí que Eberhard Jungel tenha notado que, cristologicamente falando, «quanto maiores são as dificuldades, maiores são também as possibilidades».
Por estranho que possa parecer, é pelas adversidades que se consegue realizar a missão.
1. Não são de agora as dissonâncias entre Jesus Cristo e a Igreja. Quando esta se encontrava em gestação na missão de Jesus, já se notavam algumas clivagens. Estas centram-se especialmente em dois níveis: quanto à mensagem e quanto à estrutura.
O relato joanino da multiplicação dos pães apresenta-nos um desencontro entre Cristo e o Seu corpo, a Igreja, sinalizada nos Seus discípulos. Depois de ter saciado a fome à multidão, não faltava quem quisesse aclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Já quando explica o sentido profundo do milagre, muitos discípulos (que configuravam, por assim dizer, a Igreja emergente)contestam-No e abandonam-No (cf. Jo 6, 60-66).
Não era, contudo, só a mensagem que não era percebida. A estrutura do grupo de Jesus também não estava a ser correctamente entendida. Jesus fala de serviço. Mas os Seus discípulos (pre)ocupam-se com o poder.
Jesus até tem o cuidado de apontar os pequenos como modelos. Todavia, os Seus discípulos entretêm-se a discutir sobre qual deles é o maior.
Sucede que este é um desencontro que nunca estará totalmente resolvido enquanto não incorporarmos a existência de Jesus de Nazaré na nossa vida.
Uma coisa não pode ser esquecida: Cristo é que é a cabeça da Igreja; não é a Igreja que é a cabeça de Cristo.
A Igreja oferece-nos, sem dúvida, o critério para chegar até Jesus. Mas Jesus é que será sempre o definitivo critério para entendermos o que é a Igreja. É inevitável que cheguemos a Jesus a partir da Igreja. Mas é fundamental que saibamos olhar para a Igreja a partir de Jesus.
2. Tendo em conta o modelo Jesus, a Igreja não tem poder para distribuir. Tem um projecto de amor para viver. Só que, em vinte séculos de história cristã, o amor tem sido uma proposta nem sempre acolhida e o poder aparece como uma tentação nem sempre rejeitada.
Também na Igreja, há a tentação de, ao arrepio do exemplo de Cristo, transformar o serviço em poder. É preciso reaprender, por isso, com Aquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20, 28).
É pelo serviço, e não pelo poder, que se afirma a missão da Igreja entre os homens. É algo que está, aliás, no seu código genético. O eclesiólogo Santos Sabugal invoca, neste sentido, o modelo fontal (Jesus) e o modelo paradigmático (Maria). Jesus é o que assume a condição de servo (cf. Fil 2, 7). Maria é a que Se apresenta como serva (cf. Lc 1, 38). A Igreja só pode ter, por isso, uma configuração totalmente serviçal.
Em Maria, a Igreja encontra um paradigma para toda a comunidade e para cada um dos seus membros. A Sua proximidade com Jesus faz com que d'Ela ecoe o mesmo que brotou de Seu Filho: a recusa do poder e a centralidade no serviço.
É poderosamente significativo que Maria Se conceba como «a serva do Senhor»(Lc 1, 38) e que bendiga a Deus por ter reparado na «humildade da Sua serva»(Lc 1, 48).
Estamos, pois, diante da autodesignação preferida de Maria, aquela que, de acordo com Santos Sabugal, «melhor caracteriza e sintetiza o Seu ser e a Sua missão».
3. Na Anunciação (cf. Lc 1, 26-38), Maria dá o Seu sim declarando-Se como serva e assegurando total disponibilidade: «Faça-se em Mim segundo a Tua palavra»(L 1, 38). O contraponto com Eva atinge a sua máxima expressão. Enquanto Eva recusa ser apenas mulher e pretende ser como Deus (cf. Gén 3, 5-7), Maria recusa ser somente «a mãe do Senhor»(Lc 1, 43), proclamando-Se Sua serva.
Com o Seu «faça-se em Mim», Maria torna-Se a Mãe do Filho de Deus, daquele que veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20, 28). Ou seja, Ela participa «da condição serviçal do Seu Filho e, por isso, já previamente cheia do Espírito Santo, surge como a livre "co-serva" de Cristo, como também a humilde serva do Senhor».
É como serva que Maria Se apressa a visitar Isabel (cf. Lc 1, 39-40) e a prestar-lhe serviço. Não foi, portanto, uma mera visita de cortesia ou até de obediência ao anúncio da gravidez de Isabel (cf. Lc 1, 36). A visita de Maria «foi uma visita serviçal». Com ela permanece três meses (cf. Lc 1, 39.56), obsequiando-a com todos os cuidados. Foi, portanto, servir como doméstica. A Mãe do Senhor que Se faz servo começa cedo a exercer o Seu serviço e a antecipar o serviço de Seu Filho.
Em toda a missão de Jesus, aparece a intercessão serviçal de Sua Mãe. Basta olhar para as Bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-12). O ápice desta presença é a Cruz, onde «Maria Se associa activamente ao sacrifício redentor de Seu Filho, sendo também o instrumento serviçal pelo qual, na pessoa do "discípulo amado", Ele nos entregou a "Sua mãe" como nossa mãe e mãe da Igreja». Ou seja, desde o princípio até ao fim, «a serva do Senhor esteve associada serviçalmente ao messiânico Servo de Deus».
No dia de Pentecostes, Ela volta a ficar cheia do Espírito Santo na companhia de todos os fiéis. Também aí ela partiicipa na inauguração do eclesial «serviço da Palavra»(Act 6, 4), prestado pelos colaboradores de Deus e de Cristo na proclamação do Evangelho.
4. Deparamos, por conseguinte, em Maria com um paradigma serviçal para toda a Igreja. Como Ela, todos os Seus filhos são convidados a evangelizar com urgência, anunciando, com a palavra dos lábios e com a palavra da vida, a Boa Nova de Jesus.
A Igreja só existe para servir. Jacques Gaillot foi mesmo ao ponto de sustentar que «uma Igreja que não serve, não serve para nada». Como Jesus, que veio «para servir»(Mt 20, 28), também a Igreja, novo corpo de Cristo, está no mundo para servir. A sua multímoda missão condensa-se aqui: em servir, nunca em servir-se.
Compreende-se, portanto, que o Vaticano II use o verbo servir cerca de 20 vezes e o vocábulo serviço umas 34 vezes.
No passado, no presente e no futuro, a Igreja só tem uma finalidade: reproduzir o que Jesus fez. Aliás, foi esse o Seu apelo: «Como Eu fiz, fazei vós também»(Jo 13, 15).
Este é o tempo em que tudo se subtrai e em que só o défice parece multiplicar-se.
Ele é o défice orçamental. Ele é o défice comercial. Mas existe, acima de tudo, um enorme défice de confiança entre as pessoas.
Quem o diz é Stephen Covey, autor do livro «A velocidade da confiança».
Segundo ele, nunca a confiança chegou a níveis tão baixos. Acontece que sem confiança não se progride. «Há um risco em confiar, mas há certamente um risco muito maior em não confiar».
Para inspirar confiança, é preciso que haja um comportamento expemplar.
O exemplo suscita confiança. Há que assumir compromissos e respeitá-los. E é fundamental estender a confiança aos outros para que os outros a estendam a nós. Trata-se da «confiança inteligente».
Daí que o carácter seja mais importante que a própria competência. A confiança faz aumentar a produtividade.
Em tempo de crise, a confiança pertence à solução. Os problemas surgem quando se perde a confiança!
Primeiro, foi a sociedade agrícola. Seguiu-se a sociedade industrial.
Há quem julgue que estamos em plena sociedade do conhecimento. Mas, ao contrário do que alguns pensam, já não é o conhecimento que faz a diferença.
Repare-se.
Uma breve semana de leitura de um jornal permite ter acesso a mais informação do que aquela que teria uma pessoa do século XVIII em toda a sua vida.
O facebook já tem mais de 500 milhões de utilizadores. Se fosse um país, seria o terceiro maior de todos.
A rádio levou 37 anos a atingir 50 milhões de ouvintes, a televisão treze, a internet quatro e o facebook apenas dois.
Não basta, pois, possuir conhecimento. O importante é saber utilizá-lo da melhor forma.
Há quem considere que o futuro está na criatividade. Sem dúvida. Mas esta não chega. Ela tanto consegue abrir as portas ao bem como é capaz de escancarar as janelas ao mal.
Temos de apostar sobretudo no exemplo, que polarize os conhecimentos num projecto mobilizador em torno do Bem.
Nem tudo o que é bom será criativo. Nem tudo o que é criativo será bom.
Do que o mundo precisa, com extremos de urgência, é de bondade. Se esta puder ser oferecida com criatividade, tanto melhor. Mas o que não podemos diferir mais é a instauração de uma efectiva cultura da bondade. No exterior. E sobretudo no interior.
O futuro, se quiser ser diferente, tem de passar pela «sabedoria do coração»(Sal 90, 12).
Só ele tem as razões que até à razão escapam!
Ninguém como um grande homem para falar de um homem grande.
Acerca de João XXIII, o Papa Bom, disse o teólogo Bernhard Haring: «É provável que nenhum homem, desde S. Frnacisco de Assis, tenha deixado uma imagem tão suave no coração dos seus semelhantes. Também ninguém estranhará se equipararmos João XXIII com a pequena Sta. Teresa de Lisieux. Ambos têm em comum o facto de saberem encontrar o caminho do coração, sobretudo o dos pequenos. Ambos estão marcados pela simplicidade e pela desenvoltura evangélica. Ambos sentem horror a discursos empolados, mas também não se deixam envolver pelas regras de uma superficialidade fácil. Ambos possuem, em certa medida, aquela inocência inata que conduz a actos grandes e ousados. Não atribuem a si próprios uma importância particular, mas acreditam na sua missão, que é a mensagem do amor».
Hoje, 11 de Outubro, é o dia litúrgico de João XXIII, o Papa Bom.
A sua memória ocorre neste dia porque é nele que se assinala o 49º aniversário do grande evento que ele inaugurou: o Concílio Vaticano II.
Lembrar um homem bom é trazer para a vida a bondade que ele irradiou e que nunca deve ser apagada nem extinta.
Hannah Arendt oferece-nos dez luzeiros em forma de vidas alentadoras para a nossa vida.
Uma dessas vidas é a do Papa João XXIII, que a filósofa judia descreve como sendo «um cristão no trono de S. Pedro».
Curiosa a reacção de uma criada de servir aquando da morte do Pontífice: «Minha senhora, este papa era um verdadeiro cristão. Como é que isso foi possível? Como pôde um verdadeiro cristão sentar-se no trono de S. Pedro? Ninguém se terá apercebido de quem ele era?»
Há, obviamente, um exagero e até alguma injustiça. Os papas dos últimos séculos mostraram ser cristãos de fibra, até à medula do seu ser.
Mas não deixa de ser sintomática a reacção de uma pessoa simples.
Na sua maneira de ver, alguém que irradiava o espírito de Cristo não teria grandes condições de ascender naquilo a que, impropriamente, se chama carreira.
Sabemos que a bondade de João XXIII lhe trouxe não poucos dissabores. Às vezes, a incompreensão acendeu-se dentro da própria Igreja.
Não era em vão, porém, que um dos seus lemas era precisamente «sofrer e ser desprezado como Cristo».
João XXIII tornou-se uma figura querida porque assumiu, sem o menor constrangimento, o espírito de Jesus.
Para ele, todos, incluindo os ateus, eram filhos e irmãos. A justiça sempre o preocupou e mobilizou.
Conta-se que, um dia, terá perguntado a um trabalhador como ia a sua vida. Ele respondeu que ia mal. Então, o Papa garantiu que ia tratar do assunto.
Houve, no entanto, quem objectasse que, aumentando o salário aos trabalhadores, teria de haver um corte nas obras de caridade.
Resposta pronta do Pontífice: «Então é o que teremos de fazer. Porque a justiça está antes da caridade».
São estas atitudes que definem uma vida. E fazem com que as pessoas que as tomam brilhem. Mesmo nas sombras. Sobretudo nas sombras.